Por Marcos Jakoby (*)

Waguinho e Flávio Bolsonaro

Na última sexta-feira, dia 07 de agosto, uma polêmica se estabeleceu na reunião do Diretório Nacional do PT e no conjunto de sua militância sobre as alianças eleitorais de 2020.

O PT de Belford Roxo (RJ) aprovou apoio  ao prefeito Wagner Carneiro, do MDB, mais conhecido como Waguinho, para sua candidatura à reeleição no município.  Mas setores do Partido recorreram ao Diretório Nacional (DN), que debateu e deliberou sobre o assunto na sexta-feira.

A decisão final foi a voto. Por 29 votos a favor, 25 contra e 11 abstenções, o DN homologou a decisão tomada pelo Diretório Municipal do PT da cidade.

Por que a decisão dividiu o Diretório Nacional e é alvo de polêmica? Por que Waguinho e sua esposa, a deputada federal Daniela do Waguinho, são apoiadores de Jair Bolsonaro. Em 2018, Waguinho pediu abertamente votos para o presidente Bolsonaro e seu filho Flavio.

E apoio persiste nos dias que correm. Na última segunda-feira, dia 3 de agosto, Waguinho esteve com o senador Flávio Bolsonaro e o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, no evento inauguração das obras de saneamento no município.  É possível ver o vídeo do ato aqui: https://bit.ly/31BBhrN .

No ato, Waguinho distribui elogios e afagos a Flávio Bolsonaro, dizendo que a sua presença “muito nos honra”, que está sempre de “portas abertas” para recebê-lo em Brasília, e que se mostra um “parceiro, amigo”.  Que a cidade tem “uma dívida de gratidão com o senhor [Flávio Bolsonaro]”.

O prefeito estende os elogios a Jair Bolsonaro:  “quero parabenizar na sua pessoa, o seu pai, Jair Messias Bolsonaro, que eu tenho orgulho da deputada Daniela fazer parte do governo do seu pai, porque é um presidente que todas as vezes que a deputada Daniela precisa, ele está de portas abertas”.

Mais adiante, dirige-se à própria deputada, parabenizando-a por se uma “aliada do governo Bolsonaro, nas votações do Congresso, nas votações da Câmara Federal e a senhora tem representado essa cidade e tem representado aqui o governo Bolsonaro, ao qual nos abraçamos essa bandeira, essa causa […]”.

Em seguida, Waguinho ataca os governos federais petistas, afirmando que o “antigo PAC não funcionou, mas essas obras hoje, que estão na responsabilidade da obra do governo Bolsonaro, e com o governo Bolsonaro está funcionando porque ele não está deixando faltar recursos”. Ele encerra com mais uma defesa do governo Bolsonaro, afirmando que nesse governo “não faltará recursos para o desenvolvimento”.

Na sequência, faz uso da palavra a deputada Daniela do Waguinho, que em seu rápido discurso diz que é “uma alegria enorme fazer parte do governo Waguinho e também do governo Bolsonaro”, e que estamos “aqui unidos em prol de uma restauração do país”.

Posteriormente, fala Flavio Bolsonaro, que se diz honrado em voltar para o “município do prefeito Waguinho, com pessoas que o recebem com tanto calor, com tanto coração, de maioria conservadora”, uma cidade “que deu quase 70% dos seus votos para Bolsonaro”.  Faz elogios ao prefeito e a deputada Daniela, a qual diz ser “nossa base lá no Congresso Nacional”.

As falas de Waguinho, da deputada federal Daniela Waguinho, de Flávio Bolsonaro, os posicionamentos políticos dos personagens em questão, a defesa política que fazem do clã Bolsonaro, a reconhecida sustentação parlamentar, política e eleitoral ao governo, não deixam dúvidas de tratar-se um prefeito bolsonarista.

Mas o que diz o Partido dos Trabalhadores sobre o tema das alianças? Uma resolução da Executiva Nacional, de 07 de fevereiro de 2020, balizou o tema.

Coerente com esta Resolução, o PT define como centro estratégico eleitoral a construção de alianças com PCdoB, PSOL, PDT, PSB, Rede, PCO e UP. Onde o PT encabeça a chapa, composições com partidos para além deste espectro poderão ser autorizadas pelo Diretório Estadual. Nas situações em que o PT não encabeça a chapa e o candidato seja de um partido que não integre o espectro citado acima, somente serão permitidas alianças táticas e pontuais se autorizadas pelo Diretório Estadual, desde que candidato(a) tenha compromisso expresso com a oposição a Bolsonaro e suas políticas e não tenha práticas de hostilidade ao PT e aos presidentes Lula e Dilma. O PT Nacional decide que não ocorram alianças com os partidos que sustentam o projeto ultraneoliberal (DEM, PSDB) e veta qualquer aliança com aqueles que representam o extremismo de direita em nosso país.”.

A resolução na íntegra pode ser acessada aqui: https://pt.org.br/pt-veta-alianca-eleitoral-com-dem-psdb-e-extrema-direita/ .  Ela é taxativa ao afirmar que nas situações em que o PT não encabeça a chapa e o candidato, as alianças com outros partidos e nomes [para além da centro-esquerda] somente serão permitidas  “desde que candidato(a) tenha compromisso expresso com a oposição a Bolsonaro e suas políticas e não tenha práticas de hostilidade ao PT e aos presidentes Lula e Dilma”. Como vimos, o prefeito Waguinho não só não é oposição, mas é base de apoio ao governo Bolsonaro e suas políticas.

Fica a pergunta: porque um setor do PT aprova uma determinada decisão que contraria aquilo que o próprio Partido definiu e na contramão da linha “Fora Bolsonaro”? A quem isso beneficia?

(*) Marcos Jakoby é professor e militante do PT.

 

Este post tem um comentário

  1. Marcia Almeida

    É uma pergunta que fica entalara não garganta e que só mancha toda a história de luta do Partido dos Trabalhadores.

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