Por Wladimir Pomar (*)

Não deixa de ser interessante o esforço dos analistas políticos que procuram ter um quadro preciso das tendências conjunturais sem distinguir as tendências e os fenômenos estratégicos em jogo. Esse esforço se torna ainda mais nebuloso quando os fenômenos conjunturais são atropelados por pandemias, que impõem mortalidades, sacrifícios e desorientações ainda mais intensas à sociedade.

No Brasil, essas contradições já eram evidentes nos esforços de correntes de esquerda para traçar uma tática de enfrentamento contra o neoliberalismo entreguista e neocolonial de Guedes-Bolsonaro. Sem ter uma visão clara dos objetivos estratégicos destrutivos e desnacionalizantes do governo bolsonarista, e sem haver reelaborado uma estratégia clara de disputa dos corações e mentes do povo brasileiro, algumas dessas correntes caíram no engodo da luta concentrada contra as sandices bolsonaristas, como se estas fossem as questões centrais a serem esclarecidas e combatidas.

A impressão era de que grande parte das militâncias e das direções políticas existentes na esquerda continuavam considerando que seus objetivos estratégicos eram os mesmos de antes do impedimento de Dilma. Eles se resumiriam a reconstruir o que o bolsonarismo destruísse em sua sanha nazi-fascista-entreguista. O que, supostamente, permitiria formar uma ampla aliança estratégica e tática, incluindo as forças que apoiaram, aberta ou envergonhadamente, a prisão de Lula, a derrota eleitoral do PT, e a ascensão do ex-capitão ao governo central.

O problema é que, na visão capitalista dominante, Bolsonaro e os governos a seguir não têm apenas a tarefa de destruir os pequenos avanços econômicos, sociais e democráticos alcançados durante os governos petistas. Dominado pelos interesses mesquinhos dos seus setores financeiro e agrário, e das transnacionais, o capitalismo nativo opera no sentido de reviver o esquema colonial do Brasil produtor e exportador de bens primários. E de deixar que a pandemia do coronavírus elimine grande parte dos pobres e deserdados, como uma das formas de gastar menos recursos em sua manutenção e sobrevida.

Basta notar a barafunda em que se transformou o enfrentamento da pandemia, com ações promotoras de mortalidade massiva, que deveriam ser julgadas como crime hediondo. Além disso, a total ausência de medidas que impeçam a crescente fuga de capitais industriais, assim como os esforços para privatizar as estatais e subordinar ainda mais a economia brasileira aos capitais imperialistas, representam outro crime grave, que joga crescentes parcelas da população no trabalho informal, no desemprego, e na pobreza e miséria abjetas.

A maior parte dos capitais estrangeiros e nacionais que operam no Brasil, às voltas com crescente queda de sua taxa média de lucro, com a redução de sua capacidade de criar empregos, em virtude de seu desenvolvimento tecnológico (contradição entre maior capacidade produtiva versus redução da demanda, em virtude do crescimento do desemprego), e com os perigos da jogatina dos mercados financeiros, trabalham para tornar o país um simples fornecedor colonial de matérias primais minerais, agrícolas e florestais, e importador de máquinas e equipamentos agrícolas e de mineração, assim como de outros bens industriais.

Dizendo de outro modo, as condições a que o Brasil foi levado, após o impedimento de Dilma, não serão facilmente superadas pela repetição das doses econômicas, sociais e políticas dos governos petistas dos primeiros quinze anos do século 21. E, como o capitalismo no Brasil não cumpriu suas tarefas históricas, será preciso não só empurrá-lo e constrangê-lo a realizar tal tarefa, como iniciar procedimentos de desenvolvimento econômico, social e político que cabem ao socialismo, como sistema de transição para uma sociedade mais avançada.

Ou seja, além de impedir o desmonte do Estado e a privatização de seus instrumentos de produção econômica, será preciso fortalecer o papel desse Estado na economia. E, para que esta se desenvolva e produza a riqueza indispensável para construir uma infraestrutura física e social de educação, saúde, transportes e saneamento, e seja capaz de gerar empregos e elevar o padrão de vida dos setores populacionais mais pobres, é indispensável reconstruir o sistema industrial, combinando a ação concorrencial do mercado com a orientação macro do Estado.

Ou seja, será necessário ter um planejamento que vise reconstruir os setores industriais básicos e estratégicos. O que pode ser feito através de novas empresas industriais estatais e/ou estatais-privadas, assim como financiando a criação de novas empresas industriais privadas, que realizem o desenvolvimento científico e tecnológico, e acicatem a concorrência que rebaixa preços. Tais questões são de natureza estratégica, tendo forte impacto sobre as táticas para enfrentar a política destrutiva, tanto do bolsonarismo, quanto dos setores burgueses neoliberais.

A negação da esquerda em fazer parte de uma “frente ampla” contra o governo Bolsonaro reside justamente no fato de que tal “frente” não abrange a necessidade de impedir o aprofundamento da política neoliberal. Ou, em sentido contrário, de levar o capitalismo nativo a um processo de subordinação do mercado à orientação macroeconômica do Estado. Portanto, ou a esquerda realiza o mesmo movimento de aprofundamento de seus laços orgânicos com as amplas camadas populares da população brasileira, como fez nos anos 1980, estabelecendo com elas uma aliança estratégica e alianças táticas de diferentes modalidades, ou vai se tornar a bolinha do tênis de mesa que terá, de um lado, Bolsonaro e afins e, de outro, a direita capitalista, pretensamente “civilizada”.

“Voltar aos anos 80”, corrigindo os erros cometidos nos 20 anos recentes, não será uma tarefa fácil. Ela demanda um acerto de contas com inúmeras políticas, a exemplo da ausência de estratégias claras de relação das empresas estatais entre si e com o mercado, para tornar o Brasil um país industrialmente avançado e independente. Outro consistiu na ausência de uma estratégia própria de combate à corrupção, permitindo que essa “doença” se tornasse uma das principais armas utilizadas para enfraquecer ou destruir o PT, e para desgastar sua relação com as grandes camadas pobres e médias da população. Ou, ainda, a prioridade quase absoluta das atividades institucionais, abandonando as relações e as atividades em conjunto com as bases da sociedade.

Por outro lado, sem um grande debate para a correção desses e outros erros cometidos nestes últimos 20 e tantos anos, será difícil não só elaborar a estratégia demandada pela situação histórica a que chegou o país e seu povo, que correm o risco da dizimação, e aplicar as táticas que a conjuntura demanda, táticas que incluem saber aproveitar as desavenças e contradições que levaram ao surgimento de uma burguesia aparentemente “civilizada” e em oposição às sandices da tropa bolsonarista. Porém, mais uma vez repetindo o alerta, tais táticas conjunturais de aproveitamento das brigas intestinas podem e devem enfraquecer os adversários principais do Brasil e de seu povo, mas terão pouco efeito se não tiverem como norte uma visão estratégica dos problemas chaves do país, e um entrelaçamento profundo com as bases populares da sociedade brasileira.

(*) Wladimir Pomar é jornalista e escritor.

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