Por Valter Pomar (*)

Sábado, 13 de fevereiro de 2021, 7h52 da manhã.

Chegou no meu zap uma mensagem informando que a partir do dia 26 de fevereiro a Cooperinca estará encerrando suas atividades.

Cooperinca é o nome de uma cooperativa que por vários anos administrou o espaço que sediou uma experiência muito importante para a classe trabalhadora brasileira: o Instituto Cajamar, conhecido também pelo nome Inca.

Há diversos textos, inclusive acadêmicos, acerca desta experiência. O que vou fazer aqui é apenas um rápido relato, baseado na minha experiência pessoal e sem consultar nada senão minha memória.

No final de 1985, início de 1986, eu havia pedido demissão da Companhia Editora Joruês e estava tentando ir para a China, estudar desenho de embalagens (sim, embalagens). Mas acabei sendo convencido a ficar no Brasil, fazer graduação em economia e trabalhar no Instituto Cajamar.

O Instituto Cajamar foi criado por iniciativa de dirigentes do Partido dos Trabalhadores, como um centro de formação política, uma “universidade dos trabalhadores”.

Como é comum em instituições deste tipo, havia um grande conselho e uma direção executiva. O presidente do Conselho era Paulo Freire. A diretoria executiva era composta por (cito de memória) Wladimir Pomar, Osvaldo Bargas, Wilson Santarosa, Wander Bueno Prado e Aloizio Mercadante.

Em 1989, quando Wladimir assume a coordenação geral da campanha Lula, Gilberto Carvalho assume a coordenação geral do Inca. Também tomaram parte da iniciativa, com diferentes níveis de responsabilidade, a Nobuco Kameyama, Renata Villas-Bôas, o Pedro Pontual, o Luís Sérgio, a Jupira Cauhy, a Regina Queiroz, Clarice Copetti, Glória Konno, Paulo Fontes e muito mais gente.

O Instituto começou a funcionar em 1987, oferecendo cursos de “formação de formadores” e de “monitores”, cursos de “formação política geral”, promovendo seminários e realizando publicações. Além de sediar atividades promovidas por outras instituições, como a CUT e o PT.

Milhares de militantes passaram pelo Instituto Cajamar, ao longo de muitos anos. Acompanhei pessoalmente parte desta história, até 1991. E durante algum tempo morei no Instituto. Sim, morei porque o Instituto ficava num antigo motel, no km 46,5 da Via Anhanguera. Um motel no sentido antigo da palavra, com direito a uma piscina e a uma pequena igreja, alojamentos para dezenas de pessoas e quartos separados para os funcionários (foi num deles que residi).

A novidade é que até então as “casas de encontros” eram propriedade de igrejas; acreditávamos na época que o Instituto Cajamar era o primeiro espaço laico, dedicado a atividades de formação política. E fizemos coisas muito importantes lá, entre as quais eu destaco o seminário sobre 70 anos de tentativas de construção do socialismo (a respeito há um livro editado pelo Inca e reeditado pela Fundação Perseu Abramo).

Ciclo de debates “70 anos da Experiência de Construção do Socialismo”, promovido pelo Instituto Cajamar (Cajamar-SP, 1987). Crédito: Vera Jursys

Não sei os detalhes do que ocorreu depois que pedi demissão do Instituto. Mas passados alguns anos as atividades educacionais e correlatas cessaram; e o espaço foi convertido em um local que era alugado por quem quisesse fazer eventos (no final, inclusive casamentos e festejos). Durante este período, foi a equipe da Cooperinca que segurou a onda. Sei, por ter conversado com os integrantes da equipe, que eles por diversas vezes propuseram que o espaço fosse resgatado e voltasse a ser um centro de formação no sentido pleno da palavra. Infelizmente, quando estávamos em tempos de vacas gordas, nada foi feito. E agora, pelo que depreendo do comunicado citado no início deste texto, chegamos ao final da linha.

Espero ter tempo para organizar melhor as informações sobre o período que trabalhei no Instituto, assim como espero ser possível ajudar na sistematização dos arquivos que estão sob a guarda do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Por enquanto, socializo (com pequenos cortes) a entrevista que fiz via zap, em 2020, com o companheiro Antônio Alberto Calssavara. A transcrição foi feita pelo Adriano Bueno. Como se vê pelo relato, razão tinha o David Capistrano, que falava dos nossos “soldados vietnamitas”.

Valter Pomar: Que dia, mês e ano a propriedade foi comprada pelos sindicatos?

Alberto: A propriedade não foi comprada pelos sindicatos. Foi comprada pela CUT, através do Lula e de organizações sindicais, sim, mas foi a CUT que comprou. Isso foi já em 1985, né. Em 1985, diz a história que o Lula estava passando na Anhanguera e entrou aí pra pedir socorro. Aí encontrou esse lugar aí. Achou o lugar conveniente para formação política, e como o lugar já estava enfrentando problemas, começaram uma negociação para logo depois adquirirem a propriedade. Começaram a negociação e o Lula foi um dos mentores da compra.

Quais foram os sindicatos que adquiriram formalmente a propriedade?

Alberto: Foi a CUT, através de um pool de sindicatos. Muitos sindicatos. Mas foi a Central que comprou e quem mediou a compra foi o Lula.

De quem era a propriedade antes?

Alberto: Era uma propriedade particular, né. Me parece que o cara estava com problema de caixa. Estava ruim de negócio. Era um hotel na época. E aí entraram em negociação e adquiriram a propriedade.

Quais as dimensões e quais as edificações que havia na propriedade, na época da compra?

Alberto: Na época da compra havia os quartos, que é a parte original até hoje. O refeitório, que era diferente, era um “puxadão” somente. E um pouquinho da cozinha só. Fizeram uma cozinha nova, industrial, bonita, que está até hoje. Deu uma ajeitada nos quartos, colocaram beliches (era cama de solteiro). Tudo beliche. Isso é o que havia na época.

Que alterações, reformas ou construções expressivas foram feitas durante o período?

Alberto: Reformas, foram a reforma da cozinha; uma melhorada nos quartos; e a construção do prédio lá de baixo, que não tinha. Era um galpão, que tinha frutas, essas coisas… então, o centro de eventos lá em baixo – você conhece bem lá – foi construído também. Isso até 86.

Quantas pessoas podiam ser hospedadas, na época? E quantas hoje?

Valter, na época era formação do PT. Chegava a hospedar 200 pessoas. 200 pessoas, e eram pessoas dormindo no chão, em alojamento, nas salas, beira de piscina: tinha tudo. O pessoal não ligava muito. Tinha tudo. O pessoal, naquela época, que fazia formação, não ligava para isso não. Passavam a noite ali no bar bebendo e no outro dia de manhã já estavam em sala de aula, com óculos escuro e tudo, mas estavam lá fazendo a formação.

Quantas pessoas trabalharam na instituição, ao longo do tempo?

Chegou a ter 40 pessoas direta e indiretamente aqui. Um corpo de funcionários – nós – que era em torno de 20 pessoas. E tinha mais 20, 25 pessoas, todo o corpo da formação. Os formadores também doavam nessa área aí. Você também era um. As pessoas que trabalharam na instituição eram funcionários e formadores, alguns registrados aqui em Cajamar, outros prestadores de serviço.

Quando o Instituto na forma original deixou de existir e qual foi a forma que assumiu desde então?

O Instituto começou a ficar mal das pernas desde 92. Ali começou com a crise do Leste Europeu, que você conhece e você pode acrescentar. Parou-se. A gente tinha financiamento internacional. Várias entidades internacionais que ajudaram na formação, isso acabou. E aí nós, que somos ex-funcionários, começamos a trabalhar em cooperativa, né, para não ficarmos desempregados. Nós da Cooperinca, na verdade, tínhamos 25 funcionários, mas na hora de formar a cooperativa vários saíram fora. A cooperativa só podia se formar com 20 pessoas, e nós começamos o trabalho de formação da cooperativa em 1994. O Cajamar começou a deixar de existir, durou até 95. Nós viemos a registrar a cooperativa só em junho de 1997. Em 1997 fundamos a cooperativa e documentamos ela, com 20 pessoas. Fomos caminhando, com dificuldade muito grande, não tínhamos credibilidade. O corpo de formadores já não vinha mais. Os eventos já vinham com seu formador junto, num pacote onde nós só fornecíamos o espaço: comer, dormir, igual continua hoje, só que sem os formadores. Aí ficamos até 2000 muito mal. 2002 deu uma melhorada. Altos e baixos, né? De 2002 pra frente melhorou bem. Viemos bem até 2010. Em 2010 ficou muito ruim e nós conversamos com algumas pessoas que nos ajudaram muito, como o Sindicato dos Químicos Unificados de Campinas/São Paulo. E fizemos essa parceria aí em cima, que fez esse prédio aí em frente da piscina, a Sala Canudos, Mandacaru, símbolo da resistência. E a sala Balaio. Os Químicos bancaram isso aí. Eles descontavam uma porcentagem deles, de 30% de cada evento, e eles fizeram tudo. Mas aí eles tinham uma agenda, quando eles vinham a gente alugava pra eles, quando não vinham, alugava pros outros. E isso em 2012 até 2014 foi muito bem. Tinha bastante evento, deu pra gente reformar os quartos, pintar os quartos. Na parceria com os Químicos trocamos todas as camas por camas box em 2012. A capacidade hoje, Valter, cheia, é 100 pessoas. Com 2, 3 e 4 lugares em cada quarto. Colocamos ar condicionado nos quartos, internet de qualidade, tudo em parceria com os Químicos. Aí chegou 2014, começou a ficar ruim. 2015 piorou, 2016 mais ainda. E depois do Golpe a coisa desandou mesmo. Os eventos eram poucos, não dava nem pra manter as coisas direito. Continuamos até hoje. Pra se ter uma ideia, hoje estamos com 6 pessoas só, 6 cooperados. Você deve conhecer os 6. Muito difícil. O hotel está fechado, o centro de eventos está fechado, né. Porque não tem mais procura. Estamos só com a padariazinha ali aberta, mantendo os funcionários. Eu trabalho lá de segunda e terça. Outros trabalham quarta, quinta, sexta e sábado. E assim vai indo. Nós estamos sem rumo, sem saber o que fazer, inclusive agora conversando com os donos, que são o Sindicato dos Metalúrgicos, pra gente fazer uma conversa com eles. Nós propomos pra eles, Valter, dar tudo que nós temos. Camas, ares condicionados, televisores, parque, sala de aula… nós temos uma dívida, né. Que eles paguem a dívida com os funcionários, e a dívida previdenciária, e zerem tudo. Encerra a cooperativa e a gente continua lá com os Metalúrgicos. Eu não gostaria, em particular, de deixar aquela história ali, né… de modo nenhum. Quando tivesse evento, a gente formataria os eventos, deixaríamos tudo preparado. Mas sob gestão deles. Algum deles vir aqui pelo menos uma vez a cada 15 dias dar uma olhada. Essa é a proposta nossa. Está difícil, cara. A gente vê que eles podem até topar, mas desde que a gente saia todo mundo e vá embora. Eu tô resistindo. Eu não gostaria de deixar o Cajamar, porque minha vida tá lá. Não é nada financeiro. Já fazem 8 meses que a gente não recebe 1 centavo de lá. Nada. Nem eu, nem ninguém que tá lá. Estamos lá só pela resistência mesmo. Vai embora uma história que tem que ficar, né. Não dá pra enterrar uma história assim de uma hora pra outra, por pouca coisa.

Uma pergunta mais técnica: qual a área total do Instituto, incluindo a parte de cima, a parte de baixo e aquele campo de futebol? Ou seja, qual era a área total, quando foi adquirida?

Alberto: Eles adquiriram tudo de uma vez, pelo que eu sei, Valter. Compraram em meados de 85, né. Fundou em 86. Quase 48.000 metros… 47.500 metros quadrados é a área total do Cajamar. [Nota de Valter Pomar: as escrituras confirmam 2 terrenos, o primeiro com 33.957,50 m²; e o segundo com 12.102,50 m². No total, os dois terrenos somam exatos 46.060 m²]

Você contou como foi a decisão de comprar. Eu lembro do que você falou: o Lula, o pool de sindicatos, a CUT. Mas eu tenho uma dúvida mais formal. Do ponto de vista jurídico, quem adquiriu o local? Ou seja, em nome de quem estava a escritura?

Do ponto de vista jurídico, após a compra, a escritura foi passada para o nome do Instituto Cajamar. [Nota do Valter Pomar: As escrituras confirmam a compra de dois terrenos pelo “Instituto Cajamar – INCA”. Os proprietários que venderam os dois terrenos foram Lidio Benvenuti e Evelina Benvenuti, conforme as duas escrituras registram.]

Quem são as pessoas que ainda estão aí?

Alberto: Sobre a documentação e sobre a história da cooperativa: a cooperativa somos nós. É ata, né, e regimento interno. A documentação do Cajamar tá lá com os Metalúrgicos, no arquivo morto deles. O nome das pessoas que estão na resistência até hoje aqui, mantendo aberto o Cajamar: sou eu, Antônio Alberto, que entrei em 1991; Maria da Conceição Ventura, a Nina, que entrou em 1991; Maria do Rosário dos Santos, que também entrou em 1991; Lucidalva Pereira, que entrou bem depois, em 2003 eu acho; Kelly Cristina, que entrou também em “dois mil e alguma coisa”; e Roberto Aparecido Vieira, que também não foi fundador, ele começou, desistiu e voltou depois. Esses são os 6 nomes que estão lá hoje.

O que você pode me contar sobre o Capital Ville? Quando começou o loteamento? De quem é?

O Capital Ville começou junto com o Cajamar. Praticamente na mesma época eles começaram a lotear ali. Sempre foi dos Mahfuz. Jorge Mahfuz. Se você pesquisar, é uma família bem tradicional aqui em São Paulo. A entrada era pela portaria do Capital Ville, que está numa via pública. O Bargas, no dia que voltou lá e a portaria estava erguida, ele ia chamar a polícia e mandou desmanchar: “aqui é uma via pública, não pode construir nada”. E aí lembro que fizeram um acordo né, fizeram um contratinho, que existe até hoje, dizendo que eles podiam continuar o que eles estavam construindo, mas que eles abririam e fechariam o portão, você se lembra, você passava lá, sem problema nenhum, sem documento nem nada. O pessoal falava que ia no Cajamar e era liberado. Assim ficou até agora em 2010. Depois começaram a pedir documento e no final, agora, você sabe o que deu, né? Barraram a entrada dizendo que lá é uma coisa particular deles. Vamos voltar a passar por lá ainda. Eles não podem tirar o direito da rua. E é uma questão de honra minha porque desafiaram muito a gente aqui. Passaram por cima da gente aqui. Proibiram a gente de entrar por ali. Isso também prejudicou muito a gente. Não houve nenhuma ação contra ele por causa da vizinhança, porque também tem comércio aqui. Mas é isso. Aquela rua é a Rua Pontal, é uma rua pública. Hoje chama-se Serra dos Lagos ali. Tem um bairro que chama Serra dos Lagos. Loteamento fechado. Nem legalizado não é ainda. Essa é a história do Capital Ville. Sempre existiu essa história, entre eles e nós, hoje não é diferente. Moram quase mil famílias no loteamento, grande parte gente boa, inclusive militantes, gente nossa ali dentro. Poucos, mas tem; 90% é tudo bolsominion. Tudo fascista. Um pessoal nojento, que não dá nem pra gente investir aqui pra servir eles, porque são aquele tipo que “come chuchu e arrota peru”. Então é difícil trabalhar com eles ali, a gente vive mais por conta da peãozada de obra que vem aqui consumir com a gente.

Da documentação aí do Instituto, ainda tem alguma coisa aí no Inca, ou está 100% nos Metalúrgicos?

Alberto: Aqui não temos nada, não. Eram coisas muito antigas. Umas pastas. Aqui, se quiser dar uma olhada, na manutenção tem uns documentos de pagamento, algumas coisas aqui. Mas o resto, os históricos, estão todos lá com os Metalúrgicos.

A Igreja teve algum uso, depois que vocês assumiram?

Começou a deteriorar. Agora, em 2011 ou 12 o Gil, como gostava muito daqui, demos uma reformada. Aí o bispo me procurou e rolou uma comunidade lá. Tem uma pequena comunidade lá desde 2014. Tem celebração todo domingo. Agora parou durante a pandemia, mas está ativa a igreja. Vem gente. Tem uma comunidade do condomínio Capital Ville que vem aqui todo domingo. Um domingo por mês tem missa, né, e nos outros domingos tem culto, celebração. A igreja está ativa sim.

(*) Valter Pomar é professor e membro do diretório nacional do PT

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