Por Direção Nacional da tendência petista Articulação de Esquerda (*)

Era um dia 7 de setembro: o cavernícola convocou suas tropas para – em pleno dia da Independência – ameaçar mais uma vez as liberdades democráticas. Logo em seguida, como num filme de terror, um mordomo vampiresco foi convocado à Brasília, para ajudar a redigir uma “carta à Nação” onde, aparentemente, o presidente recuava de suas intenções golpistas.

A carta gerou todo tipo de teoria e especulação. Era para valer ou apenas retórica? A intentona golpista não deu certo ou foi tudo jogo de cena? Quem recuou foi Bolsonaro ou Alexandre de Moraes? Se foi Bolsonaro quem recuou, o que ofereceram em troca? Algum dia saberemos dos detalhes. Ou não.

Mas uma coisa é certa: mais uma vez a classe dominante brasileira demonstrou que – para ela – em primeiro lugar vem a liberdade dos mercados, em segundo lugar vem a liberdade dos mercados, em terceiro lugar vem a liberdade dos mercados e, se sobrar espaço, lá por último lugar vem as liberdades democráticas.

A direita gourmet – MDB, DEM, PSDB, PSL, PSD etc. – não quer o impeachment. Pois teme que o impeachment prejudique as reformas neoliberais. Por isso passam o pano num golpista assumido. Foi o que fez o ministro do STF Gilmar Mendes, que logo depois da carta disse que devemos confiar na “boa fé” de Bolsonaro. Foi o que fez, também, João Dollar Dória, que ao candidatar-se na prévia tucana priorizou atacar a esquerda, não o cavernícola.

O que a direita gourmet quer? Quer manter as conquistas programáticas dos governos Temer e Bolsonaro. “Conquistas” cujo preço foi e continua sendo pago pelas vítimas da Covid 19, pelos desempregados, pelos que passam fome, pelos sem teto, pelos pequenos e médios empresários que fecharam as portas e assim por diante.

A direita gourmet acha que se Lula for eleito, as “conquistas” do golpe correm risco. E todas as pesquisas indicam que, se a eleição fosse hoje, Lula derrotaria Bolsonaro.

Bolsonaro acha que pode ganhar ou, pelo menos, acha que pode levar, mesmo que as custas de um golpe. Já a direita gourmet acha que Bolsonaro é um homem marcado para perder. E por isso a direita gourmet quer lançar uma terceira candidatura presidencial, que seja capaz de derrotar Lula.

Não uma terceira via, pois tanto a direita gourmet quanto Bolsonaro estão de acordo no fundamental do programa. Mas uma terceira candidatura. O problema é que para esta terceira candidatura ter espaço, é preciso tirar fora ou pelo menos enfraquecer Bolsonaro.

Não está fácil fazer isso. Bolsonaro é, disparado, a maior liderança de massa da direita brasileira. Tem apoios nas elites, nos setores médios e nos setores populares. É um governo catastrófico para a maioria do povo, mas que apesar disso segue sendo considerado bom é ótimo por mais ou menos ¼ do eleitorado. Além do mais, Bolsonaro tem forte apoio no Senado e principalmente na Câmara.

Para tentar tirar Bolsonaro do caminho, a direita gourmet tem três instrumentos principais: Biden para convencer os militares, a Globo para fazer a batalha ideológica e o STF/TSE para por limites ao governo (naquilo que interessa à direita gourmet), pressionar a famiglia e seus apoiadores, com inquéritos e até prisões e, no limite, cassar a candidatura (vamos lembrar que Alexandre de Moraes será presidente do TSE em 2022).

A mobilização de Bolsonaro dia 7 foi contra isto, ou seja, era uma queda de braço, uma medição de forças entre eles. As ameaças que foram feitas mais uma vez passaram dos limites. Se as elites levassem a sério as “instituições” e a “democracia”, Bolsonaro teria sido afastado só por tentar.

Mas quem encabeça as instituições, como se viu e ouviu nos discursos do procurador geral da República Aras, do presidente da Câmara Arthur Lira, do presidente do Senado Pacheco, preferiram elogiar o espírito democrático das manifestações da extrema direita no dia 7. Já o presidente do STF (in Fux we não trust) fez  um discurso mais firme que pode ser resumido assim: “tire o pé de cima do meu em 72 horas senão eu faço uma nota de protesto”.

A seriedade com que as elites tratam as instituições pode ser medida pelo vídeo que circulou, mostrando Temer e outros gente fina, aparentemente rindo de Bolsonaro, mas na verdade rindo do povo, pois as elites toleram que siga na presidência alguém que eles mesmo sabem que defende a ditadura, a tortura, o pau de arara.

O fato é que a direita gourmet não quer afastar Bolsonaro. E isso nos coloca diante de um desafio muito grande: depende da esquerda afastar Bolsonaro agora ou, se não conseguirmos, derrota-lo ali na frente. E isso vai depender essencialmente da nossa capacidade de mobilização.

É fundamental continuar investindo na mobilização de rua, tomando todas as medidas necessárias para que haja comparecimento organizado dos setores populares. Para isto, além do Fora Bolsonaro, é preciso falar da falta de emprego, de renda, da volta da fome e da inflação. É preciso reivindicar empregos, medidas efetivas de combate à fome e a miséria, defender as políticas públicas e sociais, popularizar a luta contra a PEC 32 e as privatizações.

Lula deve assumir – cada vez mais – protagonismo direto na oposição democrática e popular, na defesa das liberdades democráticas, na luta contra a destruição dos direitos e do desenvolvimento nacional.

Este envolvimento direto contribui também para dar mais solidez à sustentação de um futuro governo federal encabeçado pela esquerda. Por isto mesmo, o PT e Lula devem apresentar e debater publicamente o que faremos no governo, que medidas serão adotadas, em especial nos primeiros 100 dias, para reverter as medidas adotadas pelos golpistas desde 2016 e para transformar profundamente o país, em benefício da soberania, das liberdades, do bem estar social, da igualdade e do desenvolvimento.

É preciso lembrar que – no que depende das elites – as eleições em 2022 não estão garantidas, a vitória não está garantida, a posse não está garantida e um futuro governo de esquerda enfrentará situações mais complexas do que aquelas que vivemos num passado recente.

Nem Bolsonaro está derrotado, nem a “terceira via” está inviabilizada, nem golpes de mão estão descartados. Entre estas manobras paira sempre a proposta de parlamentarismo disfarçado de semi-presidencialismo.

É preciso lembrar, também, que acima de toda e qualquer manobra está o fato de que a população vive dias cada vez mais difíceis e a direita não tem absolutamente nada que oferecer. Mas este fato precisa se traduzir em mobilização: é nas ruas que se decide o destino não apenas das urnas, mas também de todo o país.

Por tudo isso e mais um pouco, a esquerda deve empenhar força total para que os próximos atos de rua sejam imensos.

A direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda

(*) Editorial do Jornal Página 13 de número 232.

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