por Olavo Brandão Carneiro

As tragédias vivenciadas neste início de ano de 2019 em Brumadinho, no Ninho do Urubu e na Barra da Tijuca são a cara do capitalismo e a era dos valores bolsonaristas, onde o lucro e o patrimônio valem muito mais que qualquer vida humana.

Como exigir um apreço pela vida humana de pessoas que nascem e crescem na desumanização? Neste quesito o assassinato do jovem pelo vigia do supermercado Extra é a essência dos valores capitalistas que vieram à tona com Bolsonaro – pobre, negro, ladrão não merecem viver, seu destino são execuções sumárias, por tiro ou estrangulamento.

Na investigação sobre o assassinato a abordagem inicial do delegado foi de excesso de legitima defesa, ou seja, pode matar ladrão, pobre, negro, jovem, como bem apontam as estatísticas. Na mídia críticas atenuantes sobre possível distúrbio mental do jovem, em outras situações críticas sobre morte de inocentes. Implicitamente se aprova execuções de bandidos, reforçando o ditado em voga: bandido bom é bandido morto. A vida, ah! não é direito de todos.

Enquanto se usa politicamente a violência para ganhar eleições, problemas estruturantes permanecem intocados na cegueira ideológica da direita e no equivoco de diagnostico e prognostico. O novo arauto da Justiça brasileira, Sérgio Moro, faz vista grossa para o pífio orçamento para a área de investigação e para a ausência de capacitação das nossas polícias que não seja para o confronto e o conflito. A final da Taça Guanabara no Maracanã que o diga, foi bala, porrada e bomba em crianças, cadeirantes, famílias. É o modus operandi diário das PMs nas favelas e comunidades. É a racionalidade do atirar primeiro e perguntar depois, defendida antes pelo governador Cabral e agora pelo Witzel.

As tragédias em Brumadinho e no Ninho do Urubu não foram acidentes, foram mortes anunciadas em função da lógica do lucro acima de qualquer coisa. Lógica defendida a ferro e fogo pelo Estado brasileiro e mais ainda no governo Bolsonaro, a ponto de logo depois da tragédia o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Sales, usar a barragem para atacar os órgãos de fiscalização e defender a tal flexibilização das regras de licenciamento ambiental.

No caso do Flamengo (e não nos iludamos, poderia ser qualquer dos clubes) mais um exemplo do lucro acima da vida. A venda de Vinicius Junior e Paquetá geraram milhões, outros tantos foram gastos para compra de Arrascaeta, Gabigol e Bruno Henrique. Com alguns milhares se tinha um alojamento melhor e mais seguro, ainda que ilegal por não ter todos os documentos, mas mais seguro, que convenhamos, é o que importa. Mas estas crianças e jovens, que estão em todos os clubes de futebol, pobres, das periferias e na maioria negras, ainda precisavam ter valor de mercado para um tratamento diferente. É a sociedade capitalista, sua dinâmica de distinção e de lucro.

Para coroar este 2019 nu e cru do capitalismo no Brasil, temos uma proposta de reforma da previdência do governo Bolsonaro que não mexe nos privilégios dos altos salários do Judiciário, do Legislativo e do Executivo.

A carne mais barata do mercado, é a carne negra.

Olavo Brandão Carneiro é Mestre em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade por CPDA-UFRRJ

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