Mateus Santos (*)

Mais um caso de racismo no Brasil, no interior de uma universidade pública.

Há pouco mais de uma semana, uma denúncia de racismo na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), campus de Cachoeira, chamou atenção de diversas pessoas em todo o Brasil. Segundo testemunhas, a agressão foi concretizada por meio de uma recusa de um dos estudantes em receber uma avaliação escrita das mãos de uma professora negra. Vídeos e relatos correram o país, reforçando a gravidade do caso. Outras informações vindas da histórica cidade baiana sugerem que esta não foi a primeira ação do rapaz em questão.

Atos e ações como estas não são uma novidade no cenário atual das universidades publicas. É por isso que, diante de mais um absurdo, praticamente ao nosso lado, uma reflexão se faz necessária: qual o papel das universidades no combate às opressões?

Esta é uma questão que, há alguns anos atrás, poderia parecer simples. A expansão do ensino universitário, associada à mudança no perfil étnico, cultural e econômico dos ingressantes, parecia ser a oportunidade real de, no interior da Academia, construir um reflexo também de uma nova sociedade. A conhecida frase “o filho da empregada virou doutor” não era mera propaganda política, mas um dado real. Ainda que diante das dificuldades, a inclusão social havia virado regra na política de ensino superior no Brasil.

Como já sugerido, todavia, a universidade não está dissociada do contexto social e político vivido. É no espaço de formação intelectual, isto é, de indivíduos que atuarão ativa ou indiretamente na reflexão, produção ou até condução de um mundo chamado Brasil, que podemos ver também um confronto entre projetos. O advento de ideias ultraconservadoras, sob o verniz do combate ao “politicamente correto” também encontrou algum espaço nas instituições de ensino universitário. Apesar de todo o esforço do atual governo e de outros setores mais à direita em afirmarem que a Universidade é uma espécie de antro da “esquerda”, o que se verifica, em verdade, é a existência de mais uma arena de combates entre campos distintos e heterogêneos.

Nesta arena, não há dúvidas de que projetos em torno da construção de uma sociedade melhor, independentemente de partidos ou organizações políticas, desenvolveram-se. Alguns dos grandes intelectuais brasileiros floresceram no interior das academias, construindo importantes contribuições ao estudo do Estado, da sociedade e seus problemas por todo o país, bem como tentando encontrar saídas viáveis para os impasses de nossa história. Assim, constituiu-se uma associação entre universidade e progressismo, na crença de que este é um espaço de resistência à desigualdade, as opressões e ao autoritarismo.

De fato, ao abrir as portas aos oprimidos para serem agentes produtores de conhecimento, é natural que a academia tenha que enfrentar seus próprios medos, suas próprias barreiras e, acima de tudo, sua própria trajetória. Num espaço que agora também é negro, feminino, lgbt, operário e também de encontro entre diferentes gerações, o racismo não deveria mais ter vez. Mas, como parte de um projeto perverso de poder, a opressão aos negros, indígenas e quilombolas saiu do disfarce da permanência de uma ideia de democracia racial para se tornar algo público e compartilhado por diversos indivíduos em todo o país.

A pergunta inicial: como proceder? Sua resposta é fácil e difícil. Inegavelmente a universidade precisa assumir uma postura ainda mais protagonista quando a ameaça se encontra dentro de seus próprios corredores e salas de aula. O difícil é fazer dessa luta não apenas um embate interno, mas um confronto com nitidez externa. Racismo não se dialoga. Racismo se enfrenta. Uma disputa que, no campo das ideias e da reflexão sociopolítica, não tem outro resultado senão a vitória daqueles e daquelas que lutam pela igualdade.

E, mesmo diante disso, ainda há aqueles que afirmam não existir racismo no Brasil.

(*) Mateus Santos é militante petista e da Juventude da Articulação de Esquerda (JAE – Bahia) e Graduando em História – UFBA

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