Por Egydio Schwade (*)

Fundamentos e Linhas de Ação do Partido dos Trabalhadores

Resumindo a questão do rumo para uma união das esquerdas, penso o seguinte:

  1. Que cada partido de esquerda nunca perca de vista os princípios que o originaram.
  2. ouça, nunca despreze, mas siga a orientação que vem das suas bases.
  3. Escute os nossos amigos e líderes de esquerda que não tem poder: jornalistas, intelectuais…
  4. Precaução com a opinião dos comandantes das tendências internas do partido, principalmente quando vem de um dirigente de linha hegemônica.
  5. Só em último lugar, a opinião dos que estão no poder. Neste particular incluo o nosso companheiro Lula, passando por Camilo Santana, Flavio Dino, Rui Costa…

O poder costuma fragilizar a real perspectiva de união. Por exemplo, o Camilo, não dá para separar do equívoco de querer trazer para a esquerda aquele homem da Arena chamado Ciro Gomes. O Flavio Dino, conhecendo a estratégia de luta política do PC do B, não dá para separar de sua sutil campanha pessoal à Presidência. E o Lula, não dá para separar de posições equivocadas do Diretório Nacional que influenciaram e prejudicaram a caminhada de vários PTs estaduais e municipais, como: no Rio, forçar o afastamento do candidato escolhido pelas bases: Wladimir Palmeira para atender os interesses de outro partido; no Maranhão, forçar apoio a Roseane Sarney, contra a vontade das bases: caso Domingos Dutra e Dino; ainda o caso de Fortaleza, onde o PT local não se dobrou e acabou ganhando a eleição sozinho, sem Diretório Nacional e sem Lula. Marília Arraes no Pernambuco…Tudo isto, para afirmar que normalmente as bases enxergam mais longe e estão mais próximas dos objetivos que movem o PT, desde as suas origens. E uma aliança articulada fora destes objetivos não é democrática.

Já trouxe em outro momento uma experiência presenciada aqui em casa. No dia em que PT-PMDB firmaram em Brasília o acordo e foi indicado Temer para vice, uma humilde agricultora nos falou: “Este Temer vai derrubar a Dilma!” Coisa que com certeza lá no alto do poder ninguém enxergou ou quis enxergar naquele momento.

O PT foi o único partido, que vi nascer a partir da parte que realmente precisa ser priorizada: os perseguidos, os pobres, os humilhados, os marginalizados, enfim a parte sempre tendente a ser excluída do poder pelas elites. E é lá que se esconde a sabedoria. Quando fala em União das Esquerdas, o PT não pode esquecer isto.

Venho acompanhando a política brasileira desde pequeno. E desde a criação do PT me entusiasmei por este instrumento inédito de luta política, nascido não apenas da cabeça dos companheiros do ABC, mas de um movimento popular, país afora, de norte a sul e de leste a oeste. Pela 1ª. vez um partido nascia de baixo para cima, envolvendo entidades de base de todo o tipo, ligados aos segmentos mais oprimidos da nação. Aqui no interior do Amazonas foi construído, em especial, pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais e pelas CEBs. Minha esposa e eu, começamos a nos envolver a partir de 1980, participando e abrindo nossa casa para as primeiras discussões no Baixo Amazonas. Inicialmente com a atitude tradicional de muitos ideólogos e intelectuais de esquerda: limitando-nos a prestar apoio e assessoria, como quem acha que a tarefa do intelectual é apontar para o conjunto, para o todo e não se deve envolver com a Parte, do Latin, Pars. Mas a vivencia nos levou a mudar de ideia e em 1987 nos filiamos ao PT.

Ao final uma observação: o Diretório Nacional tenha todo o cuidado ao mexer nas linhas de ação que originaram o Partido dos Trabalhadores-PT. Tenha presente que quem fundou o partido, não foi o Diretório Nacional, mas entidades que não necessariamente são hoje PT, mas continuam, simpatizantes e os maiores defensores de seus princípios. Toda a alteração nos princípios do PT, tem consequências mais sérias em suas bases, do que a direção nacional se imagina.

(*) Egydio Schwade é filósofo, teólogo, indigenista e ativista social brasileiro. 

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