Por Marlon de Souza (*)

Lugar de revolucionários sempre foi e é no Partido dos Trabalhadores

A definição sobre a concepção do Partido esteve no centro dos cinco debates regionais das chapas nacionais que disputam o 7º Congresso Nacional do PT em sua primeira etapa deste processo congressual. Para contribuir com esta discussão que irá seguir até a etapa final no congresso marcado para os dias 22, 23 e 24 de novembro e em sua Etapa Estadual, marcada para acontecer nos dias 19 e 20 de outubro em todas as unidades federativas do país, este artigo apresenta um desenvolvimento teórico a respeito de uma concepção de Partido para o PT.

Este é um debate importante porque a concepção de partido definida pelo PT irá responder para que este Partido? E responder corretamente esta pergunta para a sociedade é vital para o PT em um momento que a relevância do sistema político partidário, e dos partidos políticos que enquanto instituições em si foram colocados artificialmente em xeque e em crise por uma conformação da opinião pública construída pela elite econômica deste país articulada com a grande imprensa, com parte do Judiciário, sobretudo na Operação Lava Jato, e com seus representantes integrantes dos partidos conservadores e da extrema direita.

O estudo sobre partidos políticos constitui tema fundamental na literatura da Ciência Política clássica como na de Toqueville, Max Weber, Robert Michels e obviamente de Marx e em  desenvolvimentos teóricos marxistas como em Lênin, Rosa Luxemburgo e Mao-Tsé Tung. A análise sobre sistemas partidários, os mecanismos de funcionamento internos de partidos políticos continuam sendo objetos de estudo da Ciência Política contemporânea.

Mas o presente autor não se dispõe aqui em apresentar uma Teoria Geral do Partido Político nem mesmo uma Teoria do PT definitiva, ou dispor uma fenomenologia jurídica de um partido de trabalhadores, mas aprofundar o debate inaugurado na primeira etapa do 7º Congresso e propor minimamente diretrizes para uma concepção de Partido para o PT em torno da análise do atual modelo adotado para a organização política partidária de seus filiados.

Poderia se assumir aqui como instrumento metodológico de análise o exame do estatuto, regimento interno, seu mecanismo de funcionamento, estrutura, mas desta forma se atingiria pequena parte da realidade que se procura ordenar. No entanto, alguns pressupostos desta discussão exigem, por si só, uma exposição em revista de alguma das Teorias de Partido para se ordenar um modelo esquemático do papel do PT em relação ao Estado brasileiro.

O PT não tem um documento específico que defini sua concepção de Partido, mas o PT tem uma concepção de Partido apresentado de forma dispersa em inúmeros documentos oficiais. Para atualizar e aprofundar esta elaboração conceitual não se pode abdicar de se enumerar algumas discordâncias e visões de conjunto que conduziram os debates entre as 9 chapas e suas teses da primeira etapa para o 7º Congresso Nacional do PT. A de maior relevo e mais sintomática foi a divergência explicitada no debate da Etapa Nordeste que foi realizada em Recife/PE no dia 8 de agosto e que ocorreu entre o representante da chapa “Lula Livre para mudar o Brasil” o líder da bancada do PT no Senado Humberto Costa (PT/PE) e o representante da chapa “Em Tempos de Guerra a Esperança é Vermelha” candidato a presidente Nacional do PT o professor da UFABC de Política Econômica Mundial Valter Pomar.

Costa na sua segunda participação daquele dia de debate entre as chapas fez uma pergunta retórica “é preciso saber que Partido é este que a gente está vendo?” E prosseguiu em clara referência a fala proferida anteriormente naquele mesmo evento por Valter Pomar e sentenciou que “se alguém está imaginando que vai fazer a revolução no PT, não vai. Está no partido errado, não vai”. Em seguida o senador desenvolveu seu conceito de que “o PT é um partido que tem um compromisso histórico, que tem de mudar a sociedade, de construir o socialismo pela via democrática. O fato é este, o fato concreto é este”.

Este conceito apresentado e representado pelo senador Humberto Costa é uma política replicada em diretórios de todos o país e é uma concepção de partido que foi inclusive reproduzida em debates municipais por alguns candidatos a presidentes de diretórios municipais como, por exemplo de  menor relevância, o então candidato a presidente do PT do município de Joinville, no estado de Santa Catarina, o ex-deputado estadual Francisco de Assis.

Antes de qualquer desenvolvimento conceitual se faz necessário destacar que nenhum filiado, nenhum detentor de mandato eletivo seja do Executivo ou do Legislativo, figura pública ou dirigente partidário é proprietário do PT e por esta razão não tem autorização para dizer quem deve ou não permanecer no PT. Mas o grande equívoco teórico conceitual da concepção de partido exposta por Humberto Costa – e que se replica por todo o país – reside na contraposição que o senador estabelece entre Revolução e Democracia, como se uma fosse oposta a outra.

A ideia de que revolução é um instituto antidemocrático é uma ideia errada, a ideia de que revolução não é democrática é uma concepção burguesa de sociedade e de partido, é uma concepção de direita. Mesmo a democracia liberal deriva de eventos revolucionários, assim como as liberdades democráticas, direitos sociais e civis são legados da Revolução Russa e da Revolução Chinesa, que inclusive foram responsáveis diretamente por processos de libertação nacional de ditaduras brutais em vários países e pela edificação da democracia nestas nações.

Mesmo sociólogos políticos estadunidenses como Barrington Moore Jr, que nunca foi um quadro da esquerda – para citar um intelectual do centro do capitalismo -, formado pela Universidade de Yale, em seu “Social Origns of Dictatorship and Democracy: Lord and Peasant in the Making of Modern Word”, Boston ed. Beacon Press, 1966, dispõe que “(…) revoluções burguesas é uma designação necessária para determinadas alterações (…) que se verificam na sociedade inglesa, francesa e americana no seu caminho para a transformação em modernas democracias industriais”. Para o sociólogo político americano quando se está em um regime autoritário, a democracia se estabelece somente quando a classe oprimida ficara forte o suficiente para promover a transformação na ordem social.

Mesmo para Moore (1966) “eventualmente, a porta para os regimes fascistas foi aberta pela incapacidade de estas democracias enfrentarem os problemas graves da época e a sua relutância ou incapacidade de introduzir alterações estruturais fundamentais”.

Portanto, o equívoco teórico da concepção de Partido do senador Humberto Costa também está no seu conceito limitado de democracia para quem se resume aos elementos formais de representação, que talvez desconheça, mas estas representações são condicionadas pela forma societal do capital, quando que exatamente é na democracia socialista em que a democracia se substantiva, isto é, como afirma Karl Marx em sua carta “Kritik des Gothaer Programms” de 1875 – enviado para o Partido que realizaria seu congresso na cidade de Gota na Alemanha – se forma enquanto uma democracia radical na perspectiva dos trabalhadores e na ampliação de seus direitos sociais e liberdades, sobretudo na emancipação da opressão econômica.

 

Breve fundamentos teóricos conceituais de uma concepção de Partido do PT

 

O debate de fundo está na resposta a importante pergunta que o senador Humberto Costa fez naquele debate entre as chapas; “é preciso saber que Partido é este que a gente está vendo?”. A resposta para esta pergunta deve ser formulada pela resolução do 7º Congresso Nacional do PT, porque esta resposta irá orientar decisivamente a ação política do Partido para o período e a definição de uma concepção atual de Partido para o PT.

As bases teóricas para esta resposta pode ser perseguida a partir dos documentos fundantes do PT, que enquanto não forem revogadas e substituídos são os documentos que dispõe o caráter da instituição PT, “A carta de princípios do PT” – aprovado em 1979 antes mesmo da fundação do PT- e o seu “Manifesto de Fundação do PT” de 1980.

Em uma apresentação explícita de uma política socialista o Manifesto de Fundação, por exemplo, afirma que o PT se institui “em oposição ao regime atual e ao seu modelo de desenvolvimento, que só beneficia os privilegiados do sistema capitalista” e ainda registra que “o PT buscará conquistar uma sociedade igualitária, onde não haja nem explorados nem exploradores”.

            É possível constatar a defesa do Socialismo Petista nas resoluções aprovadas no 7º Encontro Nacional (1987), no 1º Congresso (1991) e no 3º Congresso (2007). Agora mais importante observar especificamente é a resolução aprovada no 6º Congresso Nacional do PT (2017) que “recoloca na perspectiva como motor de nossas ações a crítica radical do capitalismo e a defesa do socialismo democrático”.

            A resolução do 6º Congresso – portanto ainda em vigência até, eventualmente, se for substituída por outros dispositivos da resolução do 7º Congresso – dispõe que “o nosso partido se constituiu realizando uma profunda crítica aos limites e às contradições da social-democracia e ao chamado socialismo real”. Portanto, o PT não é uma partido social-democrata, mas um partido Socialista.

A resolução do 6º Congresso do PT afirma ainda que “consideramos que valeu a pena e segue valendo a pena o esforço de construir o Partido dos Trabalhadores, participar das organizações e mobilizações das classes trabalhadoras, disputar eleições e exercer mandatos, travar a luta política, ideológica e cultural contra o capitalismo e em defesa do socialismo democrático.

A resolução ainda em vigor do 6º Congresso afirma também o conceito de política econômica do Socialismo Petista e descreve que “a economia socialista deverá ter como centro organizador o planejamento democrático e ambientalmente orientado. Uma economia colocada a serviço, não da concentração de riquezas, mas do atendimento às necessidades presentes e futuras do conjunto da humanidade.

Para tanto será necessário retirar o planejamento econômico das mãos de quem o faz hoje: da anarquia do mercado capitalista, bem como de uma minoria de tecnocratas estatais e de grandes empresários, a serviço da acumulação do capital e, por isso mesmo, dominados pelo imediatismo, pelo consumismo e pelo sacrifício de nossos recursos sociais e naturais.

O principal pilar desse novo modo de produção será a propriedade pública dos grandes meios de produção. As riquezas da humanidade são uma criação coletiva, histórica e social, de toda a humanidade. O socialismo que almejamos, só existirá com efetiva democracia econômica. Deverá organizar-se, portanto, a partir da propriedade social dos meios de produção. Propriedade social que não deve ser confundida com propriedade estatal, e que deve assumir as formas (individual, cooperativa, estatal etc.) que a própria sociedade, democraticamente, decidir. Democracia econômica que supere tanto a lógica do mercado capitalista, quanto o planejamento autocrático estatal vigente em muitas economias ditas socialistas.

            Queremos prioridades e metas produtivas que correspondam à vontade social, e não a supostos interesses estratégicos de quem comanda o Estado. Queremos conjugar o incremento da produtividade e a satisfação das necessidades materiais, com uma nova organização do trabalho, capaz de superar a alienação característica do capitalismo. Queremos uma democracia que vigore tanto para a gestão de cada unidade produtiva, quanto para o sistema no conjunto, por meio de um planejamento estratégico sob o controle social”.

Portanto, o PT é absolutamente um Partido que luta pelo Socialismo e este é o seu objetivo final. Por esta concepção o PT não é apenas mais um partido da ordem do sistema normativo partidário brasileiro. Diferente do Partido Trabalhista britânico que opera para o reconhecimento dos direitos da classe trabalhadora dentro dos limites do capitalismo, a finalidade do PT é por concepção a conquista do poder para determinar uma alteração nas relações de classe, visando com isso a construção da sociedade socialista.

Opostamente diferente do que a extrema direita deste país faz ao associar Socialismo a um regime político ditatorial, o PT nunca propôs, não há nenhuma resolução nestes seus 39 anos que proponha isto. Pelo contrário o PT sempre afirmou em seus programas políticos o Socialismo com Democracia, como também nenhuma tendência interna do PT no curso do 7º Congresso propõe um regime autoritário para a construção do Socialismo.

A proposta do Socialismo Petista para o Brasil como registrado acima está disposta em inúmeros documentos oficiais do PT que discorrem sobre regime político e sistema econômico como o controle da classe trabalhadora dos meios de produção, mas desde as resoluções e programas do PT dos anos 80 como consequência do entendimento da necessidade do desenvolvimento econômico de expansão capitalista como parte da transição para o socialismo, nunca foi entendimento do PT expropriar os setores médios, detentores de meios de produção próprios. Sempre esteve presente na análise do PT que há na pequena e média burguesia interesses comuns com os trabalhadores, fazendo-a potencial aliada do PT.

Isto é verificado  na  “Resolução Socialismo” do I Congresso Nacional do PT (1991) que dispõe que “a pequena produção serve para que a sociedade desenvolva suas forças produtivas, contribua para que não haja escassez de bens e serviços e permita incorporar ao trabalho o conjunto da população economicamente ativa, sem prejudicar a eficiência das empresas socialistas nem a constante redução da jornada de trabalho. Essa política de desenvolvimento da capacidade produtiva da sociedade, utilizando todas as forças econômicas, é a base da aliança dos trabalhadores assalariados com a pequena burguesia urbana e rural. Essa aliança é, pois, uma questão estratégica, referente tanto à destruição do capitalismo quanto à construção do socialismo”.

 

PT Eleitoral X PT de Luta

 

            É frequente nas reuniões dos diretórios municipais e estaduais, e ainda mais presente nos debates para o 7º Congresso a afirmativa de dirigentes partidários de que o PT optou por ser um PT institucional, não um partido revolucionário, mas um partido eleitoral. Não é raro também ver dirigentes estaduais se oporem taxativamente a um PT de luta em afirmações orais em planárias partidárias.

Este é um outro equívoco de interpretação teórico conceitual. É possível que a partir deste equívoco conceitual alguns dirigentes estaduais e municipais do PT tenham direcionado a estratégia político-partidária nesta perspectiva e organizado o PT apenas e tão somente para o calendário eleitoral.

A interpretação correta e que é constada nos documentos oficiais do Partido é que o PT sempre rejeitou, explicitamente, as vias de luta pelo socialismo historicamente fracassadas, principalmente a de submeter-se à lógica do capitalismo e apostar numa ação restrita ao espaço institucional vigente. Como também o PT sempre rejeitou atuar apenas por fora da institucionalidade, concebendo o Partido como apenas um instrumento de denúncia e propaganda.

Por outro lado, o PT adotou as características exitosas internacionais dos partidos que lutaram pelo socialismo. E a grande diferença do PT em relação a todos os outros partidos de esquerda do Brasil reside exatamente no fato de que o PT nasceu das greves do ABC no seio das mobilizações sociais do novo sindicalismo do ABC e a própria fundação do PT se forma a partir do movimento pró-PT realizado de Norte a Sul deste país. Isto é o PT nasce constitutivo enquanto movimento.

Enquanto os outros partidos de esquerda no Brasil se formaram a partir de um grupo de intelectuais ou quadros de esquerda, alguns destes inclusive formados por ex-dirigentes e até ex-parlamentares do PT, o Manifesto de Fundação do PT registra a gênese e a característica do PT para qual os trabalhadores “vêem os partidos sendo formados de cima para baixo, do Estado para  sociedade, dos exploradores para os explorados”.

Para nós da Articulação de Esquerda como afirmamos em nossa tese “Em Tempos de Guerra, A Esperança é Vermelha” para o diretório Nacional do PT “entender que a luta social (a mobilização independente das classes trabalhadoras em torno de seus objetivos imediatos), a luta eleitoral (a disputa por espaços do aparato estatal) e a ação institucional (dos mandatos, governos e de outras instituições do Estado) são diferentes formas que a luta de classes assume, sendo necessário analisar concretamente a centralidade de cada uma e a relação entre elas a cada momento dado. Hoje a centralidade é da luta social. E nossa participação para a eleição de 2020 deve estar a serviço de uma tática nacionalizada de oposição radical ao governo Bolsonaro com uma política de coligações eleitorais coerente com isso.” Isto é defendemos a combinação da disputa eleitoral, a lita política institucional com a luta social. Somente desta forma será possível derrotar nas urnas e nas ruas a coalizão que efetuou o Golpe de Estado e que se alterna a frente do Estado brasileiro desde 2016, libertar o presidente Lula da prisão ilegal e restaurar a democracia neste país.

 

PT como Movimento 

 

            É esta característica de nascer como movimento, de se formar para institucionalizar as pautas globais dos movimentos sociais é o que condicionou a capilaridade social do PT. Isto significa que aqueles que defendem o PT meramente como uma sigla eleitoral é que estão no partido errado, estes se identificariam muito mais e se sentiriam mais confortáveis se passarem a integrar um partido conservador de direita (DEM, PP) ou centro-direita (MDB, PSDB).

Aqueles que defendem o PT como um partido de luta estão no lugar certo, estão onde sempre estiveram e nunca esqueceram disto e nunca perderam a lealdade ao seu programa.

Este debate sobre o Partido atuar exclusivamente no espaço institucional não é novo, é uma  contradição interna do movimento socialista internacional e do debate dentro dos partidos de esquerda pelo mundo a respeito da concepção do partido e emerge em tempos em tempos no PT.

O fato é que a luta de classes acontece de qualquer forma, com ou sem partidos, com ou sem PT. O jornalista e líder comunista Antônio Gramsci concebe o Partido como forma superior de organização que se contrapõe à forma ordinária e alienante por meio da qual o capitalismo concentra e organiza os operários e os demais trabalhadores. Para a teoria política gramsciniana é o Partido que possibilita que as massas passem de meras executoras dos atos de trabalho no processo produtivo a organizadoras de uma nova relação entre as classes. E isto só pode se dar por meio da política planejada e pensada como ação específica. Para Gramsci além de disputar eleições o Partido cumpre o papel de elevar um nível de consciência futura, de mobilizar, incitar nas suas relações internas e nas relações do próprio Partido com o movimento de massas.

Por isso, o partido intervém, em outras esferas para além das instâncias partidárias por meio das quais se disputa a hegemonia, com uma política cultural oposta às estratificações ideológicas da dominação burguesa, tensionando a consciência das massas contra a totalidade dos valores do capitalismo.

As frentes de luta específicas que o Partido integra servem para no processo politizar a classe  contra os ideais do capitalismo e devem servir de experiência pedagógica para as massas, e como plataforma de apoio para a tomada do poder político. Por esta razão, para que hajam verdadeiras transformações, de ordem política e econômica, é indispensável articular a luta cotidiana dos trabalhadores à luta política ampla, para que sobrevenham as reais contradições de classe que permitam aos trabalhadores conhecerem o inimigo das transformações sociais, os capitalistas e seus representantes.

Uma das premissas falsas é de que a concepção de Partido de Lênin é fundamentada na concepção do Partido de Vanguarda. O que não é verdade, este conceito aparece em maior relevo na obra “O que fazer?”, e é o próprio Lênin que diz que ali não está uma teoria geral do partido revolucionário, mas sim se trata de teses para responder uma situação concreta daquele estágio do processo revolucionário que vivia. Isto é a vanguarda e o centralismo democrático é um modelo de organização em que o Partido deve adotar quando está sob a necessidade da clandestinidade e sob intensa e brutal repressão.

Esta dicotomia entre Partido de Vanguarda x Partido de Massa ou ainda Partido Eleitoral x Partido de Luta só existe de elaboração abstrata do pensamento de alguns dirigentes do PT. Lênin defendia sim uma vanguarda – dirigentes partidários profissionais altamente capacitados e preparados para liderar as massas na tomada do poder. Mas Lênin não defendia um partido constituído só de vanguarda, mas um partido com uma vanguarda inserido na luta de massas. Lênin concebia que o Partido em determinado estágio deveria ser ele mesmo – o Partido – e a classe trabalhadora uma coisa só. Para Lênin o Partido é dirigente, mas o Partido não deve ser algo exterior, mas deve ser parte, integrar a classe trabalhadora. Importante considerar com a devida ressalva que o atual estágio da luta de classes no Brasil a priori se concebe a conquista do poder estatal a partir da disputa eleitoral do resultado exitoso nas urnas.

É possível encontrar este mesmo debate de concepção de Partido na segunda década do século passado dentro do Partido Social-Democrata Alemão em que um dos seus líderes mais destacados à época Kautsky compreendia que o Partido deveria ser separado da classe operária e da luta de classes.

Já para Rosa Luxemburgo – que protagonizou oposição frontal na luta interna partidária com Kautsky – o partido de trabalhadores é concebido como parte da classe trabalhadora, assumindo um papel específico no movimento operário, que é o de dirigir o movimento através da organização, do esclarecimento e da indução a luta da classe trabalhadora contra a burguesia: “a social-democracia não está ligada à organização da classe trabalhadora, ela é o próprio movimento da classe trabalhadora” (Luxemburg, 1991, p. 44).

Na concepção luxemburguista diferentemente dos sindicatos, que só representam a luta econômica dos trabalhadores de forma parcial e em uma etapa circunscrita do movimento, a luta do Partido é a luta pelo poder político, ou seja, o Partido “representa a classe trabalhadora e a causa de sua libertação como totalidade” (Luxemburg, 2005, p.322).

Em linhas gerais a concepção de Rosa Luxemburgo sobre o Partido político para a tomada do poder estatal são;

 

Organizar a classe trabalhadora: o Partido é necessário para organizar a classe nos organismos de resistência econômica ou política, de forma a buscar uma coesão para a classe na sua luta, superando sua fragmentação e dispersão;

 

Esclarecer (Aufklärer) a classe trabalhadora: o Partido político por sua própria posição na luta de classes é quem pode dar uma visão geral da luta de classes, isto é, desenvolver uma teoria e uma estratégia para a luta da mesma através da análise histórica e de sua tradução em um programa político. É o Partido que consegue sintetizar a política necessária na relação entre as necessidades imediatas e as necessidades históricas da classe trabalhadora, mas é somente a classe que consegue transformá-la em ação;

 

Agitar a luta da classe trabalhadora: o Partido deve indicar e defender uma política socialista no movimento dos trabalhadores; deve levar o programa estabelecido através da sua análise da luta de classes, da história e da economia capitalista, para o seio da classe trabalhadora, impulsionando suas lutas, esta materialização é sempre uma relação dialética entre a ação de massas e do partido político, e não de um dos dois separadamente.

 

Núcleos de Base

 

Se o PT refutou e rejeita as experiências fracassadas de luta pelo socialismo, o PT se apropriou das experiências que deram certo. Um dos modelos de organização política mais eficazes são os núcleos de base em locais de estudo, moradia e trabalho. Este formato organizativo que existiu no PT de forma intensa e efetiva até o começo dos anos 2000 também está registrado no “Manifesto de Fundação do PT” onde afirma que; “o PT quer atuar não apenas nos momentos das eleições, mas, principalmente, no dia a dia, de todos os trabalhadores, pois só assim será possível construir uma nova forma de democracia, cujas raízes estejam nas organizações de base e cujas decisões sejam tomadas pelas maiorias”.

Esta é o mesmo modelo organizativo do Partido Comunista Chinês que está há 70 anos a frente da República Popular da China. De acordo com os pesquisadores do Instituto de Marxismo da Universidade do Povo da China Guaio Doria e Quin Xuan a ideologia do Partido Comunista da China  desde sua fundação até os dias atuais é resultado das interações da realidade sociais e é esta característica que “fundamenta não apenas a legitimidade do partido, mas também direcionam as politicas e ações dos agentes e instituições no gigante comunista”.

Nesta mesma linha política aponta a nossa tese da tendência intitulada “Em Tempos de Guerra, A Esperança é Vermelha”; “o desafio de organizar a classe trabalhadora inclui políticas de comunicação de massas e a construção de núcleos de base, casas do povo e centros culturais, enraizando o petismo nos locais de trabalho, estudo e moradia. (…) Inclui ainda financiamento militante e de massas, bem como políticas permanente de comunicação e de formação, tanto de massas quanto de militantes e de quadros.

Sem este nível de organização partidária, não teremos nenhuma chance contra a operação que a máquina do Estado está promovendo contra a classe trabalhadora em geral e contra o PT em particular”. Outro aspecto relevante é de que o Partido seja o centro forte da direção partidária, não mandatos eletivos, mas o Partido é que orienta, é dirigente dos mandatos e do conjunto de filiados da organização política partidária. Somente desta forma o PT se manterá enquanto ele mesmo uma força popular.

 

Agrupamentos Revolucionários no interior do PT

 

            O período histórico de fundação do PT foi o exato momento em que se deu a reorganização da esquerda no país. Desde o início inúmeros grupos revolucionários, muitos destes que haviam em um período recente anterior empreendido a ação armada como o centro de sua tática, após deporem as armas devido ao processo instaurado de abertura política afluíram para o PT ao lado de sindicalistas, intelectuais da esquerda e os integrantes dos setores progressistas da igreja católica para a fundação do novo partido de trabalhadores . Algumas destas organizações revolucionárias como, por exemplo, o Partido Comunista Revolucionário (PCR) que tem como um dos seus principais expoentes José Genoíno – dissidentes do PCdoB -, sendo um partido clandestino, indicou filiação de seus militantes ao PT e, na linha sindical, pela construção da Central Única dos Trabalhadores.

            Outros grupos também passaram a integrar o PT como o de caráter de fração prestista, constituída por seguidores de Luís Carlos Prestes, o líder comunista que havia sido excluído do PCB, partido que de acordo com o próprio Prestes “a direção selara acordo com a ditadura, a fim de obter o registro oficial do partido junto ao TSE e que na luta pela democracia com respectivo abandono da luta pelo socialismo restringiu o papel do partido revolucionário, funcionou como um freio dos movimentos populares, na medida em que foi fiador de um pacto social com a burguesia, onde foram sacrificados os interesses e aspirações dos trabalhadores em nome de salvaguardar supostas alianças com setores da burguesia”.

            Inúmeras outras organizações políticas e remanescentes ex-integrantes da Ação Popular (AP), da Ala Vermelha do PCdoB, dissidentes do PCdoB, correntes marxista-leninistas tal qual o Movimento Comunista Revolucionário (MCR), correntes trotskista como a Convergência Socialista (CS) formada inicialmente por militantes exilados na Argentina e de regresso ao Brasil, e outras dezenas de dissidentes, frações e cisões revolucionárias se abrigaram desde a fundação do partido no PT ou desde os seus primeiros anos de existência e deram prioridade à construção desse Partido de massa.

            Muitos destes agrupamentos remanescentes da luta armada contra ditadura militar com novos nomes e variação de programa político adequado e atualizado a nova conjuntura e novo período histórico ainda estão no PT, boa parte na esquerda do PT, integram tendências e desde o início funcionam com táticas eleitorais, sindicais e estudantis próprias influindo, tencionando e disputando a orientação política do PT.

            É verdade também que alguns destes grupos e alguns de seus ex-integrantes em ato de deslealdade e de total deterioração ideológica desertaram da esquerda e migraram para a direita do PT, outros para partidos de direita. Há também, fenômeno mais raro, os que estão na direita do PT e mantêm-se alinhado na defesa de programa político mais a esquerda, próximo ao nosso em muitos pontos e ocasiões, e disputam a orientação política da direita do PT. Há ainda grupos que saíram do PT e fundaram outras organizações ou partidos de esquerdas sem grande sucesso até o momento.

            Importante registrar é que na atualidade uma parcela expressiva de revolucionários do país inteiro se aglutinam hoje  entorno da tese e da chapa para a direção Nacional do PT “Em Tempos de Guerra, A Esperança é Vermelha” e da candidatura a presidente Nacional do PT do professor da UFABC de Economia Política Mundial Valter Pomar.

 

(*) MARLON DE SOUZA é bacharel em Comunicação Social, jornalista e é membro da tendência petista Articulação de Esquerda

 

 

 

 

 

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