Por Mateus Santos*

Quando um partido possui um protagonismo político num determinado estado ou mesmo num país, seus encontros ou congressos podem ser alvo de interesse de diferentes setores da sociedade, pois foram ou serão espaços que podem alterar o curso da trajetória local, a depender do rumo político adotado.

Para aqueles que futuramente escreverão a história do partido ou mesmo da política baiana nessa década, o Congresso do PT – BA poderá vir a ser um momento decisivo. Mais do que a escolha de um ou outro nome, o partido precisará fazer opções acerca do seu propósito na vida dos baianos, bem como de sua condição enquanto principal organização política de esquerda no estado e influente na política nacional. Contudo, a tomada dessas e de outros conjuntos de decisões passam necessariamente por um debate estratégico e profundo da própria condição da organização partidária, tornando-se este um aspecto que merece uma devida atenção.

No centro do debate sobre o PT baiano se encontra o governo e seu atual mandatário. Rui Costa vem colecionando uma série de polêmicas, entre discursos e práticas, muitas dessas já tratadas pela esquerda petista e por outros setores fora do partido. Propostas de Organizações Sociais na Educação (ver: https://www.pagina13.org.br/a-gestao-privada-das-escolas-publicas-da-bahia/) e a mais recente declaração sobre um suposto equívoco na tática eleitoral de 2018 (ver também: https://www.pagina13.org.br/a-descabida-defesa-que-jaques-wagner-faz-de-rui-costa/) geram constrangimentos não só em nível estadual, exigindo inclusive reparações ou críticas dos mais diferentes grupos políticos que compõem o partido.[1] Para aqueles que defendem a existência de uma “Revolução Democrática” em curso no nosso estado, fica cada vez mais difícil sustentar tal posição diante de tantos fatos que indicam recuos num programa político que fundamentalmente deveria ser progressista.

Diante de uma postura vacilante em uma conjuntura que não permite vacilação, a postura do partido frente aos rumos do governo denota a necessidade de um debate fundamental sobre sua reorganização. Entre as poucas críticas e os muitos silenciamentos ou defesas sem sustentação, a capacidade de influência do PT Bahia em seu mandato à frente do Palácio de Ondina deve ser rediscutida. Não por meio de uma linha oposicionista, mas por uma estratégia de fortalecimento do governo e do partido, enquanto representante dos trabalhadores baianos e capaz de ir à contramão do projeto nefasto empreendido por Brasília. Para isso, precisaremos debater resoluções sérias sobre a conjuntura política no estado, fugindo das fantasias e construindo uma análise política que contemple os erros e acertos desses 13 anos de governos Wagner e Rui, tendo como principal eixo de análise a contribuição de tais mandatos para a construção de uma Bahia menos desigual e coerente com um projeto petista de sociedade.

Mais além ainda do que as resoluções, será preciso também garantir uma política partidária ativa para o próximo período. Neste sentido, espera-se a construção de uma direção capaz de agir nesses tempos de guerra, com combatividade para a resistência ao bolsonarismo e aos movimentos de enfraquecimento do partido, mas também com disposição para exercer o seu maior atributo, que é dirigir, em situações como a exposta acima. Por um grupo atuante e que dê mais organicidade ao partido nos quatro cantos do estado.

Compromissos precisarão ser firmados. Para aqueles que ainda acreditam ser possível uma mudança na linha política do PT nacional, tendo a Bahia como um dos principais polos de transformação, a construção de um partido para tempos tão difíceis passa pela adoção de uma nova política de alianças, condizente com uma linha geral de enfrentamento ao golpe. A conjuntura já nos apresentou inúmeros casos em que nossos verdadeiros aliados são justamente aqueles que têm coragem e convergência ideológica com outro projeto de país que não esse colocado pelo governo Bolsonaro. Admitir partícipes dessa tragédia que tomou conta do país desde 2015 em nossa política estadual é desacumular qualquer esforço de resistência a partir do plano local. Não serão entre os conservadores e adeptos do projeto de destruição do Estado que o PT Bahia deve manter suas bases, mas sim entre os homens do campo e da cidade, entre os movimentos sociais como o MST, entre a juventude e todos aqueles e aquelas que podem dizer sim ao Brasil e a Bahia mais justa que queremos.

Fortalecer o partido nos municípios também deve ser parte dessa linha necessária. E como isso? Em primeiro lugar, garantindo a autonomia das direções municipais em elaborarem suas políticas, especialmente no tocante às táticas eleitorais, quando é possível vermos a política local sendo sufocada por meio do interesse no plano estadual ou nacional, no famoso mantra da “governabilidade”. No lugar de sustentar caciques ou lideranças completamente desvinculadas com a classe trabalhadora, o Congresso do PT Bahia 2019 deve dar início à formação de seus quadros políticos e a apreciação de nomes que sejam capazes de firmemente defender a construção de gestões progressistas, em nome do Lula Livre e da defesa dos direitos do povo. É dever da futura direção traçar um plano dialogado com os municípios, garantindo que haja uma política consistente para as eleições municipais 2020.

O debate sobre o futuro do PT baiano não se esgotou e não se esgotará facilmente. Espero que as chapas tenham a devida atenção com a formulação política, no sentido de acumularmos teoricamente para um grande debate nos dias 19 e 20 de outubro. Para aqueles que criticam a adoção de uma linha mais crítica, por supostamente desejarem a preservação da imagem do partido na opinião pública, deveriam também se preocupar com as contradições que são colocadas a partir de ações e discursos de nossas representações. O que realmente se aguarda é um partido que tenha capacidade de realizar um encontro entre seu passado, seu presente e seu futuro, num exercício que tenha como saldo principal um PT cada vez mais forte.

 

*Mateus Santos é graduando em História – UFBA, integrante da Executiva JPT Bahia e militante da Juventude da Articulação de Esquerda (JAE).

[1] Para outras análises sobre o governo Rui Costa, sugiro a consulta dos seguintes artigos: Rui Costa, o aeroporto e a lição (mais uma) que fica, escrito por Marcos JaKoby (https://www.pagina13.org.br/rui-costa-o-aeroporto-e-a-licao-mais-uma-que-fica/); A lógica que Rui não consegue compreender: equívocos táticos e estratégicos do governador da Bahia, autoria de Gabriel Cavalcante (https://www.pagina13.org.br/a-logica-que-rui-nao-consegue-compreender/); As reformas administrativas e os limites do governismo na Bahia, de Mateus Santos (https://www.pagina13.org.br/as-reformas-administrativas-e-os-limites-do-governismo-na-bahia/) e Rui Costa: um “radical” na disputa da presidência, por Valter Pomar (https://www.pagina13.org.br/rui-costa-um-radical-na-disputa-da-presidencia/).

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