Por Wladimir Pomar (*)

O Brasil atingiu a marca de mais de 100 mil mortes pela pandemia. Em termos comparativos, embora o país tenha menos de 3% da população mundial, tal número de mortes significa que nosso país produziu mais do que 13% dos óbitos mundiais devidos ao Covid-19.

Apesar disso, e sem que a pandemia tenha sido erradicada, o governo continua irresponsavelmente ignorando sua responsabilidade na tragédia, assim como na ausência de medidas de curto e longo prazos que impeçam a tragédia de alcançar uma dimensão ainda maior. Dimensão que certamente ocorrerá se o retorno às aulas e às atividades industriais e comerciais for liberalizado, e o auxílio financeiro aos desempregados e aos pobres for suspenso.

Ou seja, como apontam inúmeros cientistas, existe uma crescente tendência de que a epidemia seja intensificada no Brasil, podendo ultrapassar cerca de 18 milhões de infectados se continuar mantendo a média de 7 mil casos por semana. Em tais condições, a previsão da tragédia saltar para 200 mil mortes até o final do ano não pode ser descartada, tendo a população pobre como principal vítima.

Portanto, o combate à pandemia, ainda mais do que antes, se tornou um problema de salvação nacional, acima dos demais. Portanto, acima de tudo o que já fizeram, as forças de esquerda estão chamadas a assumir a liderança prática desse combate, pressionando todos os demais setores econômicos, sociais, políticos, e judiciais, a levarem à prática medidas de salvação nacional.

O que inclui, desde logo, decisões para impedir o retorno precipitado às aulas e ao trabalho, planos mais consistentes de apoio a pequenas e médias empresas, programas de retorno controlado às atividades industriais, auxílio financeiro aos desempregados, suspensão de reformas destinadas a aumentar os lucros do sistema financeiro em detrimento dos demais setores econômicos, e discussão de um programa de desenvolvimento econômico e social de longo prazo para a pós-epidemia.

No entanto, para que isso se concretize, é quase certo que será necessário que a esquerda brasileira, em especial o PT, aja o sentido de tornar as eleições municipais um pleito nacional que tenha como centro unificado a discussão da salvaguarda de milhões de brasileiros dos perigos, males e mortes da pandemia, causadas pela irresponsabilidade do governo Bolsonaro.

No caso específico do PT, não lhe bastará sustentar que trabalhou para reduzir a pobreza através do crescimento econômico. Afinal, não conseguiu substituir o padrão oligárquico de apropriação do poder e da riqueza por um modelo econômico e social menos desigual. Também não teve uma estratégia de combate à corrupção que permitisse desnudar a falsidade do lavajatismo e realizar uma ação efetiva para reduzir essa praga que tem efeitos desastrosos no desenvolvimento econômico, social e político brasileiro.

Além disso, o PT não pode justificar a existência, em seu meio, de um falso democratismo que concorda em realizar alianças municipais com correntes bolsonaristas. Ele precisa retomar seu passado de combate constante por mudanças democráticas e populares. Isto é, medidas que realmente desenvolvam o Brasil, aumentem as taxas de emprego, ampliem a educação, levem a maioria da população a obter uma renda maior por sua capacidade de trabalho, impeçam reformas voltadas a alimentar o apetite dos privilegiados, combatam impiedosamente a corrupção, e consolidem e ampliem as diretrizes democráticas do pacto constitucional de 1988.

Portanto, o combate atual precisa ser transformado, rapidamente, não só numa luta contra a destruição de vidas pela pandemia, mas também numa luta pelo desenvolvimento nacional da educação, da saúde, da economia, da nacionalidade e da democracia.

Por um lado, o Brasil não pode se sentir orgulhoso de disputar com Trump a posição de segundo campeão mundial na destruição de vidas humanas. Por outro, não pode continuar evoluindo no sentido de voltar à antiga condição de colônia produtora de bens primários, numa época em que o mundo avança numa nova revolução científica e tecnológica, e aumenta as condições para que sua produtividade possa atender às necessidades de todos os seus habitantes.

(*) Wladimir Pomar é jornalista e escritor

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