Por Valter Pomar (*)

No dia 2 de outubro de 2021 foi publicado pelo Sul21 um texto do companheiro Tarso Genro intitulado “Rosa Luxemburgo e Bobbio: vestibular da terceira via?”.

O texto está aqui:

https://sul21.com.br/opiniao/2021/10/rosa-luxemburgo-e-bobbio-vestibular-da-terceira-via-por-tarso-genro/

O texto começa bem, lembrando os vínculos entre neofascismo e neoliberalismo.

Motivo pelo qual, para setores da direita, segundo Tarso, o problema de Bolsonaro seria não estar “oportunizando – de maneira consequente – que Paulo Guedes faça as suas reformas devastadoras do Estado Social até o fim”.

Chegando neste ponto do raciocínio, Tarso substitui a análise pelo desejo.

Citemos Tarso: “Esta postura da direita e dos seus epígonos neoliberais gera uma consequência e duas oportunidades, para a oposição democrática – de esquerda e centro esquerda – na sua relação com um suposto “centro” republicano no país. A consequência é que este “centro”, representado pela caricatura do “centrão”, não pode ser num próximo governo democrático o fiel da estabilidade institucional, porque a tentativa de regeneração republicana das instituições será fulminada por ele, como ocorreu com todos os Governos depois de 88”.

A análise concreta indica que o problema não é apenas o Centrão, mas também a direita gourmet, a começar pelo PSDB, MDB, DEM, PSD et caterva.

Acontece que reconhecer isto seria aceitar que a “frente ampla” é uma ficção (além de uma fixação).

Talvez por isso, Tarso concentra a crítica no Centrão.

E graças a isso pode especular sobre a formação de um bloco “democrático republicano” de oposição ao Bolsonarismo, com uma “agenda ampla e comprometida com a estabilidade democrática: combate à devastação socioambiental, a guerra à devastação humana pela fome, a retomada do crescimento da economia por fora do “rentismo”, com uma política externa que recupere a dignidade nacional no fragmentado espaço global onde todas as crises se inspiram”.

No plano teórico, Tarso tem razão: “esta agenda não é só da esquerda”.

Acontece que no “cenário nacional de hoje” a direita gourmet não aceita esta agenda.

É por isso – e não por conta da “estreiteza de visão” de qualquer setor da esquerda – que a “unidade contra o fascismo” terá que será uma “frente popular”, não a quimérica “frente ampla”.

Acontece que só uma frente popular pode adotar uma “uma linguagem unitária de rejeição dos dogmas fascistas”, pois só uma frente popular pode combater os dogmas neoliberais que “arruínam as condições mínimas de solidariedade social”.

Óbvio que se a frente popular tiver muita força e êxito, pode obrigar setores da direita gourmet a mudar de posição.

Mas este pode ser um ponto de chegada, nunca um ponto de partida.

Tarso de certo modo reconhece isto, ao reconhecer ser “importante que todos os blocos políticos reais apresentem seus candidatos à Presidência”.

Mas falta enunciar o motivo de fundo, a saber: um “novo Brasil” surgirá apenas quando – adaptando a frase de Jean Meslier – “o neoliberalismo for enforcado nas tripas do fascismo”.

Não cito a frase original, porque está tarde e é hora de dormir.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT

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