Por Milton Pomar (*)

Sob intenso ataque do governo Trump, em várias frentes (5G, comércio bilateral, Covid-19, câmbio, estudantes chineses nos EUA, Hong Kong, Taiwan, “Rota da Seda Século 21”), e com enormes desafios internos, a China segue no comando: retorna com cuidado à nova normalidade pós-pandemia; enfrenta a redução das atividades econômicas, o aumento do desemprego e a consequente falta de recursos de parte da população com ações ousadas; corre contra o tempo para conseguir a vacina para o Covid-19; aprova o primeiro Código Civil do país e legislação específica para Hong Kong, na XIII Assembleia Popular Nacional (APN), final de maio; mantém firme a meta de acabar a pobreza rural; e inova em grande escala com a criação de porto de livre comércio em Hainan, província no sul do país, próxima ao Vietnã.

Ao mesmo tempo, investe pesado em segurança, seguindo a lógica si vis pacem, para bellum, aumentando e qualificando os efetivos policiais e recursos tecnológicos para vigilância interna (câmeras em todos os espaços urbanos, sensores de temperatura, escaneamento corporal, reconhecimento facial e de voz) e em equipamentos e treinamento para as Forças Armadas. Com a novidade da estratégica base militar em Djibouti, na entrada do Mar Vermelho, a primeira fora da China – levando a concorrência a se perguntar se ficará só nessa ou se virão outras…  Hoje a China tem o segundo maior gasto militar no mundo, US$261 bilhões em 2019, atrás apenas dos Estados Unidos (US$732 bilhões). No câmbio pela paridade do poder de compra (PPP), o valor real talvez tenha sido de US$500 bilhões.

As demandas chinesas exigem trilhões de dólares. As maiores são a construção da infraestrutura marítima e ferroviária necessária à conectividade da “Rota da Seda Século 21”; a modernização agrícola e outras ações previstas no programa nacional “Revitalizar o Rural”; e a construção de infraestrutura nas cidades para receber os milhões de migrantes das áreas rurais que continuam a chegar – total de 305 milhões até 2050, segundo previsão da ONU.

Por isso, além dos dois bancos internacionais (Infraestrutura da Ásia e o do Brics) criados pela China para viabilizar o atendimento de suas demandas, ela depende muito do saldo positivo da sua balança comercial – principalmente o de sua relação com os EUA. Com a ofensiva de Trump contra a China por causa desse saldo, ele caiu de US$420 bilhões em 2018, para US$320 bilhões ano passado. Esses US$100 bilhões a menos equivalem a todo o comércio anual Brasil-China. Com dinheiro para investir em infraestrutura, a China poderá reduzir os três tipos de desemprego urbano que tem hoje: o estrutural, resultante da “indústria 4.0”; o juvenil qualificado, 8,7 milhões de universitários recém-formados; e o resultante da “volta para casa” forçada, de milhões de migrantes que trabalhavam nas cidades e abandonaram empregos e moradias temporárias por causa da pandemia.

As metas para 2020 são nove milhões de novos empregos e manter o desemprego urbano nos comportados 5,3% de 2019. Nas atuais circunstâncias globais, só com muito investimento público, diminuição de impostos e financiamento barato e a longo prazo, medidas apresentadas pelo primeiro ministro Li Keqiang, dia 22 de maio, na III Sessão da XIII APN, para aliviar a situação das empresas de todos os portes, e ajudar o conjunto da sociedade chinesa a se sair melhor da crise causada pela pandemia.

Quando anunciou o porto de Hainan, dia 1º de junho, o presidente Xi Jinping destacou que ele é uma decisão estratégica significativa, para impulsionar a inovação e o desenvolvimento do socialismo com características chinesas, de grande importância no progresso da reforma e abertura da China na nova era. O novo porto se soma às seis zonas de livre comércio, criadas em agosto de 2019, nas províncias de Heilongjiang, Shandong, Jiangsu, Guangxi, Hebei e Yunnan. Estará em plena operação em 2025, “mais maduro” em 2035, e até 2050 ultrapassará Hong Kong, constituindo-se então a maior zona econômica da China, na linha de frente da integração do país com a economia mundial.

Foi tão grande o impacto da novidade do megaporto de livre comércio, que até ofuscou a notícia impressionante da redução da pobreza rural na China, nos últimos sete anos: mais de 90 milhões de pessoas. É bem possível que ainda esse ano a China zere a pobreza extrema no país, quase dez anos antes da meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.

(*) Vladimir Milton Pomar é geógrafo e jornalista

 

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