Por Wladimir Pomar*

 

Consumada a prisão de Lula, apesar de todos os esforços jurídicos e da justa mas tardia mobilização popular, cresce a impressão de que o objetivo central do sistema político dominante, tendo como principais operadores a polícia, promotores e juízes, visava apenas punir o ex-presidente. No entanto, essa impressão pode ser enganosa.

As forças políticas populares e democráticas podem cometer um erro imperdoável se acreditarem que, com tal prisão, está concluído o processo golpista reacionário. No entanto, para reimplantar a ordem neoliberal, de forma ainda mais radical do que nos anos 1990, e garantir que ela não sofrerá o mesmo percalço da eleição presidencial de 2002, não basta a farsa do julgamento sem provas e da prisão do maior líder popular brasileiro da atualidade. Será preciso fazer com que a Operação Lava Jato e outras operações do mesmo gênero continuem cortando na própria carne, de modo a justificar o processo de destruição do PT e de outras organizações políticas de esquerda como condição necessária para alcançar aquele objetivo.

A ofensiva reacionária não vai se contentar com aquela prisão, apesar de emblemática. É verdade que a direita política, na expectativa de não ter Lula como concorrente, já está se estraçalhando, tanto diante da necessidade de cortar na carne para justificar a repressão policial-judicial, quanto para a disputa presidencial de 2018. No entanto, tal tendência pode ser superada, mesmo em parte, se o PT e as demais forças políticas de viés socialista, popular e democrático corrigirem seus erros e sua dispersão e transformarem a luta pela liberdade e pelo direito de Lula concorrer às eleições num movimento de mobilização popular massivo superior ao que impôs a retirada estratégica da ditadura militar, nos anos 1980.

Numa conjuntura desse tipo, a direita pode tender à reunificação e o assunto Lula continuar sendo central nos ataques da mídia dominante e das ações dos aparatos de Estado. Portanto, não se deve subestimar a capacidade de operação e de mobilização da direita, nem supor que ela gastou toda sua munição mortífera com o sucesso da prisão do ex-presidente.

Por outro lado, a experiência mais recente mostrou que o PT e os demais partidos de esquerda terão que reconhecer que estão em defensiva estratégica e que precisam realizar reformulações estratégicas, táticas e organizacionais de vulto. Isto, se quiserem transformar a derrota sofrida com a prisão do ex-presidente num movimento social que imponha à direita a candidatura Lula à presidência em 2018.

Do ponto de vista estratégico não basta ter um programa de luta que, incorporando políticas de superação da dependência, subordinação e desnacionalização que submete o Brasil à ação voraz das corporações transnacionais estrangeiras, unifique todas as forças populares, democráticas e de esquerda. Além disso, é indispensável que tais forças, em especial o PT, adotem políticas organizacionais que retomem a ligação e a participação direta na luta cotidiana dos setores sociais da base da sociedade, recriando as raízes profundas de integração com tais setores. E que tratem com mais atenção a formação superior de quadros políticos para disputar e exercer com conhecimento de causa a direção do Estado.

Do ponto de vista tático, talvez seja imprescindível fechar questão em torno da “causa Lula”, tanto no campo jurídico, quanto no campo social e político. O ideal é que os partidos de esquerda se unifiquem em torno da premissa de que “eleição sem Lula é uma fraude”, impedindo que a direita justifique a fraude com a presença de outras candidaturas de esquerda. E que as ações jurídicas tenham uma articulação mais estreita com as ações políticas, sendo crescentemente respaldadas pela mobilização social. Por outro lado, é importante que as ações de solidariedade internacional, como a campanha pelo Prêmio Nobel, tenham ampla difusão nacional.

Portanto, nem a direita esgotou suas baterias, ou deu  seu último tiro, nem a esquerda pode achar que a demonstração popular na frente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo é suficiente para mudar a correlação de forças. Há um trabalho árduo pela frente, a começar pela necessidade de dar um basta às ilusões que deixaram muitas forças de esquerda inertes, ao confiarem num suposto espírito democrático e legalista da maioria dos ministros do tribunal supremo e não se empenharam em quaisquer mobilizações populares nos dias que antecederam ao julgamento do habeas corpus impetrado pelos advogados de Lula.

Em continuidade, há a tática eleitoral que terá que se haver com a retomada de campanhas massivas, com poucos recursos e muita combatividade, para garantir um recado popular explícito de repúdio à condenação sem provas de Lula e, ao mesmo tempo, eleger bancadas estaduais e nacionais que se comprometam a combater a criminalização da democracia e a lutar contra a subordinação, dependência e desnacionalização do Brasil e contra a ampliação doentia das desigualdades sociais.

Ou seja, as condições atuais se assemelham à conjuntura vivida em 1989, de ofensiva neoliberal e conservadora, mas com diferenças importantes. Naquela ocasião, o centro da disputa eleitoral visava convencer as grandes massas trabalhadoras e excluídas de que a campanha contra os “marajás” era uma enganação e que um trabalhador, igual a todos eles, tinha capacidade de dirigir o governo. Agora, grande parte das massas trabalhadoras e excluídas ainda têm viva a experiência dos aspectos positivos anos dos governos petistas e têm a percepção de que a condenação e a prisão de Lula são atos políticos mascarados por uma pretensa luta geral contra a corrupção.

Se os partidos de esquerda, em especial o PT, souberem transformar esses dois aspectos da realidade atual em poderosos cavalos de batalha, inclusive não tendo medo de reconhecer a necessidade de superar erros e deficiências emergidos na disputa em torno deles, talvez seja possível transformar sua atual defensiva estratégica em empate e começar a criar as condições para passar à ofensiva política.

Esse é um caminho longo e penoso, que exige jogar fora as ilusões e as tendências de conciliação, e superar erros e defeitos acumulados. Mas talvez não haja outras alternativas. Portanto, à luta!

 

* Wladimir Pomar é escritor e analista político

Comente!

Fechar Menu
×
×

Carrinho