Por Wladimir Pomar (*)

Em 25 de abril de 2016, portanto há três anos e seis meses atrás, escrevi uma série de sugestões para enfrentar a ofensiva reacionária, já em curso, contra as forças democráticas e populares, tendo o PT como principal alvo. Artigo que, há pouco, foi reenviado a mim por um companheiro e amigo de Minas Gerais, para lembrar que os acontecimentos atuais já eram previsíveis, embora muitos descurassem tal possibilidade.

Aquele artigo frisava que, certamente, não era a primeira vez, nem seria a última, que o Brasil viveria crises políticas e institucionais, acompanhadas ou tendo por base alguma crise econômica. E, também, que não era a primeira, e provavelmente não seria a última, em que setores políticos de esquerda se veriam perplexos, sem conseguir processar os acontecimentos ou analisar adequadamente a realidade.

Também não era, nem seria, a última vez que tais crises haviam resultado em maiores prejuízos para o povo e para a esquerda, seja por erros cometidos pela própria esquerda, seja por análises erradas que parcelas dessa esquerda fizeram da realidade. E frisava que era previsível uma crise econômica se o governo, então dirigido pela esquerda, continuasse a aplicar uma estratégia frouxa, ou quase inexistente, de investimentos na agricultura de alimentos e, principalmente, na indústria e na infraestrutura. E, ainda mais, se continuasse aplicando uma macroeconomia de juros altos, câmbio volátil e desonerações fiscais para os oligopólios.

Tal estratégia frouxa, levada a cabo pelo governo petista de então, acabou sendo agravada por uma política de “ajuste fiscal” que conduziu a um desajuste econômico ainda mais profundo e a uma crise de difícil superação. Em outras palavras, erros de estratégia na política econômica e na política geral acabaram pavimentando o caminho para aprofundar a crise na economia. O que, por sua vez, abriu espaços mais amplos para a ofensiva política conservadora e reacionária que vinha sendo atiçada com força desde 2005 e, de forma crescente, a partir das eleições de 2010.

Naquela ocasião, a grande burguesia (também compreendendo setores de burguesias estrangeiras) já emitia sinais claros de que não suportava mais as políticas de inclusão social porque isso mexia com sua taxa de lucro e tendia a avançar em investimentos industriais que mudassem a dependência estrutural do país. Apesar disso, o comando do PT e os petistas no governo perseveraram nas mesmas políticas que estavam alimentando a crise econômica e cevando a ofensiva reacionária.

Não enxergaram os deslocamentos políticos de setores moderados da esquerda no rumo da direita, a exemplo do PSB e do PV. Acharam que concessões ao PMDB e a outros agrupamentos políticos de centro e centro-direita, com cargos no governo, seriam capazes de barrar a ofensiva reacionária. E não avaliaram em profundidade a composição do parlamento eleito em 2014, nem a vitória de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara, na expectativa de se tornar o artífice de uma agenda regressista.

Por isso continuaram proclamando, erroneamente, que a ameaça do impeachment se devia a um golpe de “vingança” de Cunha, ao invés de dizerem abertamente que nos encontrávamos diante de um golpe que visava aplicar uma agenda neoliberal do grande empresariado estrangeiro e nacional. Agenda que, como dizia explicitamente a revista Época, do oligopólio Globo, pretendia repetir a política adotada “entre o início dos anos 1990 e o fim do ano 2000”.

Isto é, uma política em que, como afirmava aquela revista, “o país abriu a economia, eliminou a hiperinflação, fez privatizações, começou a entender o valor da livre-iniciativa e de um bom ambiente de negócios”. E que, podemos acrescentar, levou à quebra parte do parque industrial nacional, à subordinação da política externa aos ditames dos centros dirigentes dos Estados Unidos, a um desemprego mais intenso e ao aprofundamento da miséria e das desigualdades sociais a níveis ainda mais degradantes.

 Em outras palavras, os comandos do PT e do governo foram incapazes de ver, nas alianças de então, quem era realmente governo e quem era simplesmente infiltrado. E adotaram uma política de concessões e conciliações que desdenhava o recrudescimento da luta de classes, afastava o governo e o PT de suas bases sociais, e os deixava à mercê dos falsos aliados e dos verdadeiros inimigos.

Para complicar a dificuldade em processar as movimentações econômicas e políticas do período, aqueles comandos petistas foram incapazes de analisar com propriedade o desencadeamento da Operação Lava-Jato e da apropriação hipócrita, pela direita, da bandeira de luta contra a corrupção.

Primeiro, não entenderam que a grande burguesia havia decidido cortar partes de seus braços para que a Lava Jato apresentasse legitimidade, ou suposta “isenção”, diante da opinião pública. Depois, apesar das lições de 2005, subestimaram a necessidade de adotar medidas duras contra petistas que haviam cometido erros ou deslizes no trato das contribuições financeiras empresariais, mesmo legais. Consideraram que isso seria desnecessário para blindar o partido e o governo contra os ataques que tinham por objetivo desmoralizá-los e liquidá-los, e criar as condições para extirpar da vida nacional o conjunto da esquerda e as políticas de inclusão social.

O que pretendia dizer com tudo isso é que não bastava, naquele momento, para processar o que estava acontecendo, reconhecer genericamente que foram cometidos erros. Nem que os inimigos estavam unificados em torno de uma agenda de retorno ao neoliberalismo. E que, em tais condições, era preciso aprofundar o trabalho de base com as camadas populares e médias da população, de modo a travar as lutas institucional e social, incluindo setores políticos que iam além da esquerda, em defesa da democracia e dos demais direitos inscritos na Constituição de 1988.

Isso era ainda mais imperioso porque os petistas estavam no governo e a derrota desse governo, apesar de seus erros, constituiria um golpe profundo nas conquistas democráticas do povo brasileiro. O que tornava imprescindível acertar as contas com os próprios erros porque, sem isso, corríamos o risco de voltar a cometê-los, embora com outras embalagens.

Nos casos relacionados a problemas financeiros e/ou tráfico de influência, continuava sendo necessário examinar os processos de todos os envolvidos e, dependendo de cada situação, tomar medidas públicas de expulsão, desfiliação ou afastamento. No caso dos erros de estratégia política e econômica, urgia implementar uma nova estratégia, capaz de enfrentar a situação de defesa estratégica em que as forças de esquerda se encontravam. O que significava deixar de perseverar na errônea estratégia política e econômica anterior.

Com as medidas acima, devia-se enfrentar a Lava-Jato com outras operações que aprofundassem as investigações e os processos contra todos os corruptores e corruptos, sem exceção. E que colocassem em evidência os genéricos “indícios”, e “delações por ouvir dizer”, assim como a morosidade contra comprovados meliantes, a exemplo de Cunha, que usava seu poder regimental para prolongar e desfazer o trabalho da Comissão de Ética da Câmara.

Portanto, para encarar e processar adequadamente aquele momento era necessário colocar as questões acima na ordem do dia. Sem isso, a esquerda, em especial o PT, continuaria sem a legitimidade necessária para mobilizar grandes contingentes de trabalhadores e de outras camadas populares e médias que ainda se encontravam sob a influência do trabalho de desmoralização que era levado a cabo, e que continuava sendo, contra os petistas e a esquerda, em geral.

 Os acontecimentos posteriores, que culminaram em 2018 com a eleição presidencial de um representante da ultradireita fascista, comprovaram, infelizmente, que aquela análise e as sugestões decorrentes estavam corretas. Porém, o pior da atualidade é que até hoje há muitos dirigentes políticos da esquerda que não conseguem reconhecer que lhes faltou uma visão crítica, e uma ação correspondente, para corrigir seus erros, estratégicos e táticos, e enfrentar com mais consciência a ofensiva da burguesia dominante e de seus representantes políticos.

Sem uma correção radical da estratégia e das táticas políticas anteriores e, principalmente, sem retomar a profunda relação com as bases sociais populares em que se assenta a existência do PT e da esquerda política, será difícil desmascarar a política econômica neoliberal destrutiva do Posto Ipiranga, assim como as demais políticas fascistas, antinacionais e antidemocráticas do governo Bolsonaro. E será difícil criar um movimento social e político que não só defenda as conquistas da Constituição de 1988, mas as aprofunde e as torne efetivas para o conjunto da população brasileira.

O retorno de Lula à vida política acrescenta grande esperança à efetivação dessa profunda virada em relação aos contingentes majoritários da população brasileira. Por outro lado, o ditado de que uma andorinha só não faz verão deve alertar para a necessidade de incorporar a tal missão grandes contingentes políticos capazes de enfrentá-la com destemor.

(*) Wladimir Pomar é escritor e analista político

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