Página 13 reproduz texto da jornalista Lucia Helena Issa, publicado no site Monitor do Oriente, que aborda a injusta condenação de Milton Temer por criticar o sionismo e a violência contra o povo palestino, demonstrando que as críticas não têm nada a ver com antissemitismo.  Nossa solidariedade ao companheiro Milton e todo nosso apoio à causa Palestina.

 

Por Lucia Helena Issa

13 de julho de 2021 

Pode soar inacreditável e devastador para o mundo, mas acaba de acontecer no Rio de Janeiro.

Tecer críticas ao apartheid de Israel, reconhecido hoje por vários relatores da ONU e por centenas de países do mundo, falar sobre as irrefutáveis semelhanças entre o sionismo e o nazismo, ou se referir a uma vereadora como nazisionista, levou o jornalista e ex-deputado federal pelo PSOL, Milton Temer, a ser condenado a dois anos de reclusão pela Justiça brasileira.

Sim, segundo a 20ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, o jornalista Milton Temer, de 82 anos, cometeu uma “ injúria racial” ao dizer que a vereadora Teresa Bergher (Cidadania) é “nazi-sionista”. O veterano jornalista, respeitado e querido no Brasil por milhares de jornalistas de outras gerações, como eu, foi condenado a dois anos, dois meses e 20 dias de reclusão, além de duzentos dias de multa, no valor de um salário mínimo por dia. A pena privativa de liberdade foi substituída por medidas restritivas de direitos e pela prestação de serviços à comunidade, em programas estatais a serem determinados. O que me entristece profundamente é o cenário nacional e o momento em que essa condenação acontece.

Em 2018, em um de seus inúmeros ataques a Gaza, a faixa terrestre considerada a maior prisão a céu aberto do mundo, Israel feriu 1400 civis, entre mulheres, crianças e homens, e matou 17 palestinos. A extrema violência, o ataque militar a uma população civil desarmada, que já sofre com imenso bloqueio econômico a Gaza, foram repudiados pelo mundo todo, de várias formas.

No dia 8 de abril daquele ano, em resposta ao inacreditável apoio da vereadora a Israel, mesmo diante do massacre de civis, e depois de saber que seu nome havia sido citado por ela em sua ausência, Milton Temer passou a criticar a parlamentar Teresa Bergher em suas páginas nas redes sociais. (…) No meu regresso, sou informado que uma vereadora tucana de segunda linha, porta-voz do nazi-sionismo no Brasil, anda citando meu nome. Ela está exigindo que minhas postagens de apoio ao povo palestino, e de condenação das políticas terroristas do Estado de Israel, sob a população da Palestina ocupada, sejam retiradas do Facebook. Pois que continue exigindo, porque onde eu estiver (…), vou continuar a defender o direito de povo palestino de usar até mais do que estilingues para se proteger do super-equipado exército nazi-sionista que comete violências incessantes, tanto na Cisjordânia quanto em Gaza”.

Não há sequer uma linha de antissemitismo nesse texto, ainda que eu possa não concordar com o tom com que ele foi construído. Antissetimismo (ataques ao judaísmo como religião) e críticas ao sionismo, um movimento político, racista e violento que inclui milhões de evangélicos, pessoas da extrema-direita mundial, extremistas cristãos e extremistas judeus, jamais poderiam ser sequer comparáveis.

Críticas a Israel são difamadas como antissemitismo [Carlos Latuff/Twitter]

Críticas a Israel são difamadas como antissemitismo [Carlos Latuff/Twitter]

Mas mesmo diante das abissais diferenças entre antissionismo e antissemitismo, a vereadora afirmou que as declarações de Temer foram antissemitas. “A propósito, ao se referir às Forças de Defesa de Israel como ‘exército nazi-sionista de ocupação da Palestina’, Milton Temer humilha, de forma impiedosa, toda a comunidade judaica, na medida em que compara o Exército de Israel — a terra dos judeus (…)”

Teresa Berguer mente flagrantemente ao afirmar que Temer ofendeu “ toda a comunidade judaica”, como se ela fosse composta apenas por sionistas que apoiam a limpeza étnica de Israel contra os palestinos, combatida por inúmeros judeus brasileiros como Breno Altman, Tali F. Gleiser, e tantos outros. Em sua contestação, Temer sustentou que agia em defesa do povo palestino e apontou que não citou o nome da vereadora em suas postagens.

Mas ainda assim, a juíza Tula Correa de Mello avaliou que a declaração do jornalista foi “preconceituosa contra todos os judeus e ofendeu a honra de Teresa Bergher. O preconceito velado, a hostilidade e a grave ofensa à querelante não podem ser aceitos em nome da liberdade de expressão (…) Isto porque a expressão escolhida – ainda que como resposta às medidas e postagens da ofendida – minimiza e naturaliza o holocausto e seus efeitos na memória de todos, em especial dos judeus exterminados“.

Ao contrário do que a juíza afirma, o número de judeus do mundo todo que não se sente representado pelas ações de Israel e que se distancia cada vez mais do sionismo, do apartheid israelense e dos massacres de um dos exércitos mais armados do planeta contra um povo que não possui sequer um exército, é cada vez maior.

Como o judaísmo jamais foi uma etnia ou raça, mas sim uma religião, judeus das mais diferentes etnias e nascidos e criados nas mais diferentes cidades do mundo, de Roma ao Rio de Janeiro, de Londres a Joanesburgo, têm rejeitado veemente o assassinato de crianças palestinas por Israel e autoproclamação de Israel como um Estado exclusivamente judeu, ou seja, o sionismo, e não o judaísmo.

O escritor judeu israelense Schlomo Sand, por exemplo, tem afirmado reiteradas vezes que “ Israel se transformou em um barril de pólvora prestes a explodir não vai conhecer a paz “enquanto não houver uma verdadeira pressão internacional sobre o Estado de Israel”. “Para salvar Israel de si mesmo e do sionismo (…) Sim, exatamente como os nazistas, os sionistas consideram a identidade judaica como uma etnia e mesmo às vezes com bases raciais. É algo tribal e racista que venceu porque os sionistas definem o Estado israelense não como o Estado de todos os cidadãos, mas apenas dos cidadãos judeus (…) Na Universidade de Tel Aviv há laboratórios que pesquisam desesperadamente o DNA judeu para provar que os judeus são um povo-raça, o que é absolutamente falso”.

O brilhante escritor judeu Schlomo Sand , sobre o qual talvez a vereadora Berguer jamais tenha lido um parágrafo, é o autor , entre outros, do livro “A invenção da terra de Israel”, e explica como os sionistas, os antissemitas e nazistas têm argumentos muito parecidos hoje. “ Aos olhos do antissemita não se deixa de ser judeu porque para ele isso é uma coisa racial e não se pode deixar de pertencer a uma raça. Aos olhos do sionista é a mesma coisa. Recebi muitas cartas de sionistas que me diziam ser impossível deixar de ser judeu e que ser judeu está no sangue. São argumentos idênticos aos do nazismo. O Judaísmo é a mãe dos monoteísmos, é uma religião muito importante, que deu origem a dois outros monoteísmos, o cristianismo e o islã. Mas como venho da segunda geração de judeus laicos me perguntei sempre “sou realmente um judeu?” (…) Vivo num Estado que se define como “Estado Judaico”. Ora, um quarto da população não é considerada judia e não pode tornar-se judia, senão pela conversão. Como sou um cidadão de um Estado que se define como judaico, sou um cidadão privilegiado, porque o Estado não pertence aos seus cidadãos árabes, nem aos cristãos. Como minhas origens são judaicas, isto é, sou descendente de pessoas que sofreram muito tempo essa política segregacionista que perseguiu os judeus, não quero ser judeu em um Estado Judaico. Se esse Estado fosse de todos os cidadãos israelenses, eu não teria escrito meus livros (…) Os judeus no mundo não falam a mesma língua, não comem os mesmos alimentos, não ouvem as mesmas músicas. Woody Allen não sabe o que é a música israelense de hoje, não sabe o que se come em Israel, não pode falar minha língua. Queria compreender o que é um judeu laico excluindo a memória. Sempre me defini como judeu dizendo que enquanto houvesse um antissemita no mundo eu seria judeu. Mas parei de me definir assim. Pode-se virar cristão, virar judeu religioso, v brasileiro, ou francês, mas como virar judeu laico? Existe uma forma de se virar judeu laico sem ter nascido de mãe judia? No momento em que compreendi que faço parte de um clube exclusivo que não pode receber novos membros, decidi que não quero pertencer a um clube exclusivo em pleno século XXI. Em Israel, a menção “judeu” vem inscrita na carteira de identidade. “Em Israel e no estrangeiro, os sionistas do início do século XXI rejeitam o princípio da nacionalidade israelense para somente admitir uma nacionalidade, a judia”. Um pouco depois: “Cada vez mais, tenho a impressão de que sob certos aspectos Hitler saiu vitorioso da Segunda Guerra Mundial”.

Schlomo Sand expressou exatamente o que senti em Israel, ao descobrir que as palavras “ judeu”, “cristão” e “muçulmano” estavam escritas na carteira de identidade das pessoas ali, e que, como cristã, várias rodovias do país eram proibidas para mim e para de milhares de cristãos palestinos! Se isso não for, irrefutavelmente, uma lei inspirada na Alemanha nazista de 1933, não sei o que mais poderia ser.

O gigante José Saramago, autor de Ensaio sobre a Cegueira, que também expressou inúmeras críticas a Israel, ao sionismo e sua assustadora semelhança com o nazismo, recebeu retaliações do Estado israelense, que lhe fechou as portas a partir daquele momento. Uma jornalista israelense chegou a perguntar a Saramago onde estavam as câmaras de gás em Israel.

Para mim, a pergunta soou quase uma triste confissão de que essa era a última trincheira em que poderia refugiar-se para falar sobre as diferenças entre sionismo e nazismo.

A limpeza étnica que o sionismo realiza contra os palestinos é muito semelhante à limpeza étnica que o nazismo realizou nos anos 30 contra os judeus, quando ainda não era claro que o objetivo final seria exterminar a todos. O nazismo utilizava sobretudo três estratégias para incentivar a fuga de judeus da Alemanha: leis de exclusão de judeus em estradas, escolas, rodovias, etc. A imensa violência física e opressão cotidiana, expulsão de suas casas e trabalhos, assassinatos durante manifestações pacíficas, empobrecimento da população através confisco de casas.

O que o sionismo faz hoje contra os palestinos em seu território é exatamente isso.

Inúmeros intelectuais judeus ou cristãos têm comparado o sionismo ao nazismo e o jornalista Milton Temer está muito distante de ser o único. Recentemente, por exemplo, a própria “lei do regresso de judeus”, foi comparada às leis de Nuremberg por vários intelectuais israelenses. A lei é assustadoramente idêntica à lei alemã que permitia que um alemão nascido fora do país e que nunca houvesse conhecido a Alemanha pudesse ter o direito de se instalar em uma casa alemã, expulsando pela violência as pessoas judias que ali houvessem nascido e construído suas vidas.

Como qualquer pessoa que leia sobre as expulsões cotidianas de Israel contra famílias palestinas em Jerusalém, tiradas de suas casas à força por extremistas judeus, através de leis “ raciais”, sinto arrepios e náuseas ao constatar como o sionismo transformou os assentamentos ilegais e a expulsões de palestinos em um monumento póstumo de homenagem ao ao nazismo.

Testemunhei pessoalmente cenas assim nas quatro vezes em que estive em Jerusalém. Os colonos extremistas judeus não apenas agridem mulheres e crianças palestinas durante as expulsões, mas foram capazes de verbalizar calmamente, em uma pequena entrevista que fiz com um deles, que “os palestinos devem ser expulsos para qualquer país árabe, e que deveriam adoecer e morrer como piolhos“, usando a expressão do ex-ministro sionista e criminoso, Rehavam Zeevi.

Nada na Terra poderia mais parecido com os nazistas que agiam em Berlim em 1933 do que isso. Os checkpoint israelenses, espalhados por todo o país, como eu descobriria bem cedo, impedem mulheres e crianças palestinas de chegar em tempo a um hospital, e muitas delas já morreram ali, em meio ao nada, dando à luz uma criança, ou de doenças banais, que poderiam ser curadas facilmente se elas não tivessem sido impedidas de acessar um centro de saúde.

Israel e o sionismo que hoje o governa também adotam um mecanismo criminoso que permite que crianças de 12 ou 14 anos fiquem detidas por meses em prisões para adultos, sem ter direito a um julgamento e sem ter cometido crime algum.

O simples fato de participar de uma manifestação contra o governo israelense ou jogar uma pedra em um tanque de guerra gigantesco, feito de aço, e simbólico de um massacre que dura mais de 70 anos, pode levar uma criança palestina, cujas mães eu entrevistei, à uma das mais desumanas prisões do mundo, as construídas por Israel.

Uma das provas irrefutáveis das semelhanças entre o sionismo e o nazismo pode ser ouvida hoje também através das vozes dos jovens” refuseniks” , israelenses que se recusam a servir o exército de e que têm sido presos pelo governo sionista por “desobediência civil”. São milhares de jovens, como me disse um deles, que não querem “ agir como soldados nazistas que esmagaram a Intifada do gueto de Varsóvia e massacraram nossos avós”. Não apenas eles, mas também jovens que fundaram a ONG “Breaking The Silence” , denunciando os crimes do IDF, o Exército de Israel, têm gravado imagens e escrito sobre as semelhanças assustadoras entre as duas forças militares.

O veterano jornalista Milton Temer também esteve no Oriente Médio e testemunhou pessoalmente o imenso martírio sofrido hoje pelos palestinos.

Deixo aqui minha imensa solidariedade ao jornalista e humanista Milton Temer, e transcrevo suas palavras ao saber de sua condenação:

“Respeito. Mas apelarei porque entendo estar pagando o preço de minha solidariedade ao povo palestino — que não cessarei de expressar — contra a ocupação do seu território pelo exército de Israel, cujas práticas contra a população civil sempre condenei. Conheci de corpo presente a situação. Como deputado federal, numa representação oficial, estive em Ramalah por ocasião do cerco à sede da chefia da Autoridade Palestina, onde estava encerrado Arafat (…) Vi a repressão de tropa armada, apoiada por carros de combate, contra uma vila onde se realizava uma manifestação pacífica por direitos. Conheci a pressão sobre a população civil submetida aos postos de controle entre vilas da Cisjordânia, onde mulheres e crianças são tratadas de forma hostil. E passeei, junto com a comitiva, e com bandeira branca ao lado das brasileiras, pelas ruas vazias da cidade com suas famílias condicionadas a um período mínimo diário para comprar seus alimentos no curto tempo em que o comércio era liberado. Para garantir a “ordem”, tanques se mantinham estacionados nas esquinas. RESPEITO a decisão da juíza, da qual tomei conhecimento através da colunista que me entrevistou. Souberam antes de mim mesmo, e antes de publicação oficial (…)

Apelarei a instâncias superiores, através de meu advogado Paulo Ramalho, em defesa do direito de assumir posições políticas, principalmente quando essas posições estão alinhadas com defesa de povos oprimidos. Fiz isso por pelo menos 60 dos meus 82 anos de vida(…)”

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