Página 13 divulga artigo de Marcos Jacoby, militante petista.

 

Em vista dos últimos acontecimentos e declarações feitas por Bolsonaro, voltou a circular nos últimos dias, entre a esquerda e a oposição, o tema do impeachment e do Fora Bolsonaro. Todas as forças democráticas e populares sabem o quanto o governo Bolsonaro é desastroso aos interesses populares, democráticos e da soberania nacional. E a sua maior parte tem consciência e trabalha para interromper a série de barbáries e ataques desferidos todos os dias contra o povo brasileiro no menor prazo possível. Entretanto, este objetivo e desejo de milhares de militantes não pode se confundir com as reais condições da situação política em que nos encontramos.

O Governo Bolsonaro é resultado de um movimento golpista que começou a se desenhar depois do segundo turno das eleições de 2014, passou pela derrubada da presidenta Dilma, pela prisão política do ex-presidente Lula e por diversas manobras e interferências que resultaram numa verdadeira operação para impedir que a esquerda voltasse a ganhar as eleições em 2018. Fizeram parte dessa coalização a direita tradicional, setores golpistas do judiciário, o oligopólio da grande mídia, setores médios radicalizados pela extrema-direita, o alto clero de algumas igrejas/empresas, o grande capital, a cúpula das Forças Armadas, além  de apoios externos como os de Israel e EUA. Essa coalização forjou-se em torno de um programa ultraliberal, de subordinação da política externa brasileira aos EUA e da destruição da esquerda.

Portanto, nossa luta compreende derrotar e derrubar o conjunto dessa coalização golpista e seu programa. Isso significa que não basta derrotar Bolsonaro, mas sim seu governo. Isso significa lutar pela libertação de Lula e por realizar eleições livres e democráticas. E isso somente será possível por meio de uma intensa e enorme mobilização popular. Uma saída por cima e exclusivamente institucional favorecerá uma saída conservadora.

Deste modo, precisamos estarmos atentos ao que se processa para damos passo em falso. Neste sentido, é forçoso reconhecermos que não há correlação de forças, no momento, capaz de derrubar a coalizão bolsonarista e nem mesmo para o impeachment. Acredito ser equivocadas análises de que Bolsonaro esteja “cambaleante” ou “enfraquecido”. Ele vem se desgastando, mas avançado muito em vários terrenos e conta ainda com o apoio das Forças Armadas, agronegócio, rentismo, setores médios radicalizados etc., ou seja, da maioria da coalização que levou ao governo na qual nos referimos no início, embora haja atritos e contradições pontuais. Não vejo nenhuma fração expressiva das classes dominantes com disposição, por ora, para tirá-lo do governo e tampouco condições para isso. Nem mesmo uma parcela significativa da classe trabalhadora (estamos falando de milhões) com disposição de travar nas ruas uma luta pela derrubada de Bolsonaro. Aliás, as pesquisas apontam um equilíbrio (de opinião) a respeito do governo. Um terço o avalia muito mal, um terço está no meio e outro terço o apoia, o que convenhamos, não é pouco considerando tudo o que ele vem fazendo e falando.

Se tomarmos este cenário de momento, o centro da nossa tática são as lutas contra as medidas e o programa da coalizão golpista. Colocarmos, a preços de hoje, no centro da tática o “Fora Bolsonaro” ou “Impeachment” é possivelmente caminharmos para a derrota (não teria êxito e não acumularia), gerando, assim, ilusão, desânimo, dispersão e confusão. Nossa energia principal ainda precisa ser canalizada para lutas como a reforma da previdência, as lutas em defesa da educação, contra Moro etc. e acumular mais força. Isso não impede, entretanto, que demarquemos e circulemos palavras de ordem nesse sentido, mas creio ser mais como um elemento de desgaste e de acúmulo.

Num cenário de expressivo ascenso da mobilização popular e mudança substancial na correlação de forças, certamente, deveremos colocar no centro da tática o Fora Bolsonaro/Mourão e eleições livres, contudo essa perspectiva é muito improvável no curto prazo. Em outro cenário, em que não haja ascenso significativo da mobilização popular, mas uma parte das classes dominantes decidir em apear Bolsonaro do governo, devemos incidir para ampliar a crise, abrindo espaço para o crescimento da mobilização popular. Isso requer que não fiquemos a reboque de uma das frações da classe dominante, que deixemos nítido que o que interessa ao povo é Fora Bolsonaro/Mourão e seu programa, a libertação de Lula, a realização de eleições livres e democráticas. Sem isso, a crise económica, social e política persistirá.  Ou seja, mesmo se não houver condições para impor uma saída popular e democrática, agirmos com uma posição política de independência.

Sofremos uma derrota estratégica e histórica, por isso, não há caminho curto. Precisamos reconquistar a maioria da classe trabalhadora, aumentar nossa capacidade de mobilização e construir outra hegemonia cultural e ideológica na sociedade brasileira.

 

Marcos Jakoby, militante petista.

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