Por Wladimir Pomar (*)

Desastre humanitário, acontecimentos trágicos, incompetência governamental sem precedentes, mentiras governamentais descaradas, manobras políticas fingidas e desencontradas, incapacidade política, classes dominantes ineptas e divididas, ameaças e contra ameaças de todo tipo, manobras para tentar golpe militar: esses são aspectos diversos da atual situação a que o Brasil e seu povo foram levados desde que suas classes dominantes decidiram travar uma batalha de morte contra o PT e eleger, como presidente, um personagem cujo histórico não o classificava sequer para um cargo público secundário.

Diante do desastre humanitário consumado, com um total de mais de 300 mil mortes, podendo chegar ou superar 5 mil mortes por dia, Bolsonaro foi à TV mentir descaradamente sobre sua posição diante da pandemia, ao mesmo tempo que procurou criar um “comitê” para “dividir”, com outros poderes públicos, seu fracasso no enfrentamento da crise sanitária e da mortandade em massa.

Ao mesmo tempo, porém, tenta manter todas as suas posições anteriores, como a proibição do lockdown e o tratamento com cloroquina, e realiza uma “reforma ministerial” que lhe permita utilizar as forças armadas para golpear a democracia, extravagâncias que talvez nem o centrão mais adesista consiga aceitar. Dizendo de outro modo, Bolsonaro chegou a um ponto de isolamento cada vez mais difícil de superar e não está fora de cogitação que tente algum golpe.

Por outro lado, os presidentes da Câmara e do Senado estão chamando a si, pelo menos teoricamente, o comando do enfrentamento da pandemia. E amplos setores empresariais, inclusive do agronegócio, se deram conta do desastre gerado pela incompetência bolsonarista e querem isolá-lo do comando prático do país. Ao mesmo tempo, os grandes meios de comunicação, diretamente responsáveis pelo golpe contra Dilma, pela mobilização de apoios à Lava-Jato contra Lula, e pela vitória de Bolsonaro em 2018, também já não aguentam mais as sandices do ex-capitão.

No entanto, nenhum desses setores dominantes quer arcar com a responsabilidade de retirar, pelo impedimento constitucional, Bolsonaro da chefia do governo, como é urgentemente recomendável. Afinal, para a efetivação de uma política adequada de combate ao coronavírus, de salvamento de vidas, e de auxílio às crescentes camadas da população brasileira sem condições de sequer se alimentarem, o Brasil precisa livrar-se de quem mais o penaliza.

O país e seu povo se confrontam com uma situação de gravidade extrema. Primeiro, pela da crise sanitária, com crescente número de mortos, tendendo a ocupar o primeiro lugar no mundo. Depois, pelo crescente caos no sistema hospitalar, incapaz de atender a todos os infectados. E, finalmente, pelo esfacelamento do governo central, que não muda uma virgula em sua posição negacionista, mas continua tentando envolver outros setores do poder de Estado na divisão pela responsabilidade do crescente caos.

Também é crítica a situação da oposição política e social ao desgoverno que infelicita o povo brasileiro. Em tempos normais, o aumento do desemprego, a redução salarial dos que continuam trabalhando, e a ausência de ganhos dos que ficaram desempregados, impondo esforços crescentes para a sobrevivência do dia a dia, levariam a grandes mobilizações sociais. A pandemia, porém, obriga as grandes camadas da população ao isolamento social como medida extrema de proteção.

Para piorar, já a um tempo considerável, a convivência cotidiana com as camadas trabalhadoras e com os sem-sem foi, em geral, abandonada pela esquerda institucional. Com isso, criou-se um fosso político difícil de ser superado a curto prazo, aumentando os empecilhos às possibilidades de mobilização social massiva a curto prazo.

De qualquer modo, e apesar de tudo isso, é fundamental que a oposição efetiva à pandemia, e ao governo que a incrementa, levante sua voz, por todos os meios disponíveis, inclusive incluindo a  ampliação do auxílio emergencial mínimo de R$ 600 como condição mínima de sobrevivência alimentar. O que não exclui a participação efetiva em outros meios, para auxiliar os pobres e desvalidos a sobreviverem à tragédia que os assola.

Paralelamente, não se pode abandonar a disputa política pelo desmascaramento das maracutaias da Operação Lava-Jato. Ao invés de realmente travar uma guerra para desmontar os principais agentes e quadrilhas especializadas, tal operação aproveitou-se da oposição social a essa prática secular das classes dominantes para comprometer o PT através de mentiras e engodos, e retirar Lula da disputa eleitoral pela presidência.

Nessas condições, não basta reconhecer e comemorar que a Lava Jato sofreu uma “reviravolta”. Apesar das muitas evidências de abusos e de atropelamento das leis, tanto por Moro quanto pelos promotores aliados, elas só se tornaram realidade quando os entendimentos telefônicos entre esses agentes públicos se tornaram de conhecimento geral, levando grande parte dos juízes, inclusive da corte suprema, a considerá-las um atropelamento das leis em vigor.

Apesar disso, Moro e sua equipe da Lava Jato fingem tranquilidade, com base na errônea suposição de que a maior parte da população brasileira vai considerar que o desmascaramento das tramoias daquela operação será considerado um retrocesso no combate à corrupção. Nessas condições, não basta ao PT e à Lula entrarem apenas com ações pela responsabilização da prisão abusiva do ex-presidente. É necessário que ambos considerem a luta contra a corrupção um assunto político da maior importância e tenham uma política apropriada para essa área da política brasileira, seja no atual momento, seja a longo prazo.

Aliás, de imediato é preciso colocar sob suspeição várias das ações do ex-juiz e pressionar por investigações a respeito. Primeiro, Sérgio Moro aceitou o convite de Bolsonaro para integrar o governo antes mesmo do segundo turno das eleições de 2018, e meses depois de ter mandado prender Lula. Segundo, é preciso investigar sua contratação por uma firma norte-americana, cujas ligações com o órgão máximo da espionagem norte-americana, a CIA, parecem evidentes.

Além disso, na realidade brasileira continuam presentes diversos outros casos de corrupção explícita, casos que devem ser denunciados de modo a recolocar a luta contra essa contravenção em novas bases e no bojo geral da disputa política e humanitária em que o povo brasileiro está envolvido. Assim, não basta evidenciar o desastre humanitário, nem os acontecimentos trágicos que o envolvem. Nem tornar evidentes apenas a incompetência e as mentiras governamentais descaradas, de modo a desmascarar as manobras políticas de baixo nível e a falsidade política.

É necessário, além de tudo isso, um programa político, econômico, social e cultural que funcione como poderoso contraponto às políticas de desmonte da propriedade produtiva estatal, de liquidação da indústria nacional, de redução da renda pública, de aumento do desemprego e, em geral, de extensão da miséria, liquidação da cultura, e desmonte da democracia. Sem um programa claro a respeito, a disputa política se perde nos discursos descabidos, tanto do Palácio do Planalto quanto de seus aliados no Parlamento.

(*) Wladimir Pomar é escritor, jornalista e  militante petista


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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