Daniel Valença (*)

O Processo de Eleições Diretas – 2019 no Rio Grande do Norte contou com uma peculiaridade; pela primeira vez, as eleições internas no estado transcorreram com o PT à frente do Executivo estadual. Tal fato terminou por influenciar o próprio PED, reproduzindo uma lógica comum onde administramos governos e prefeituras: sob o argumento de que a disputa interna levaria ao enfraquecimento do nosso governo, buscou-se a todo tempo uma conformação que impedisse uma disputa profunda sobre os rumos do PT no estado.

No RN, o PT passa por um processo de deterioração de sua capacidade dirigente; esvaziamento, ausência de reuniões do diretório desde o início de nosso governo, deslocamento de alguns de nossos principais quadros do partido para o governo e, principalmente, uma consolidação de uma lógica de que é no ambiente institucional em que se decidem os rumos políticos do estado, e não mais nas instâncias partidárias.

Perante este cenário, Avante, CNB, DS, PT pela Base e Brasil Socialista compuseram um chapão na capital e na disputa estadual, enquanto a AE e a EPS compuseram uma chapa de oposição em Natal e em âmbito estadual. Por outro lado, PT pela Base e BS apoiaram a chapa nacional da AE.

Nosso papel, desde o início do processo, consistiu em reafirmar que precisamos de uma mudança estratégica para a construção de um partido militante e socialista, que reconquiste as classes trabalhadoras e as organize para promover mudanças estruturais em nosso país. O golpe de 2016, a prisão política de Lula, as reformas e processos políticos vivenciados nestes anos reafirmam que ou a nossa revolução será obra de nossas classes trabalhadoras ou nunca superaremos nossa condição de dependência.

Em âmbito local, um PT com enraizamento social, com capacidade de mobilização de massas, que dirija as lutas políticas e dispute hegemonia, poderá contribuir para fortalecer nosso governo. Em sentido oposto, um partido sem organicidade, fragilizado, retirado do tabuleiro político, levará a mais dependência de uma base de sustentação parlamentar de centro e de direita.

A partir dessas plataformas, realizamos debates das nossas teses  – municipal, estadual e nacional – nos municípios, alcançando maior número de atividades, participação e organicidade em Natal e no Seridó.

Abertas as urnas, tivemos 22% dos votos para as chapas nacionais no estado, levando a chapa “Em tempos de guerra, a esperança é vermelha” a ser a terceira mais votada no estado. Em Natal esse número alcançou 41%, constituindo-se na chapa nacional mais votada. Nossa chapa estadual alcançou 19,6 dos votos para delegados ao congresso estadual. Das 68 cidades que realizaram o PED, com direito a voto nacional e estadual, fomos votados em 42 cidades, tendo militantes orgânicos ou próximos a AE eleitos para a presidência de seis diretórios: São João do Sabugi, Ouro Branco, Nova Cruz, Bom Jesus, Ipueira e Santana do Matos.

Em resumo, saltamos de cerca de 200 votos em 2017 para mais de 600 votos neste processo de eleição interna. Com o resultado, teremos condições de realizar um debate político profundo no congresso estadual e defender a nossa tese estadual. Por outro lado, o crescimento não foi apenas quantitativo, mas, principalmente, qualitativo: militantes históricos que estavam afastados participaram ativamente das inúmeras atividades de debates e discussão de teses que fizemos antes do processo eleitoral, bem como regiões como o Seridó desenvolveram um nível de organicidade que possibilitará, na próxima quadra histórica, uma intervenção política articulada e norteada pela construção de um projeto político autônomo das classes trabalhadoras.

O PED de 2019, localmente, demonstrou que é possível resgatar um partido militante, que priorize uma estratégia socialista e adote táticas cujo centro é a classe trabalhadora, e não alianças com partidos de centro e direita que atacam a democracia e direitos sociais, como os trabalhistas e os previdenciários.

(*) Daniel Araújo Valença é professor da UFERSA, membro da Direção Estadual da AE e candidato a presidente estadual do PT

Este post tem um comentário

  1. Compartilho em parte do entusiasmo do companheiro Daniel. Temos, todavia, que reparar de que modo a chapa “Em tempos de Guerra” e mais particularmente a AE tem crescido em números. Será por causa das teses que defende ou por causa do efeito da gravidade que a companheira Natália Bonavides exerce sobre pessoas que desejam se ancorar em sua figura para alcançar suas ambições eleitorais?

    Aqui do meu canto, no Seridó, tenho visto as duas coisas, e muito me preocupa, mas me preocupo sozinho, o fato parece não merecer nenhuma atenção pelos demais companheiros, que pensam sempre em crescer numericamente. São movimentos já bem conhecidos no PT durante os mandatos do presidente Lula, quando este mantinha grande popularidade e atraia muita gente para o partido. Como esquecer de Delcídio Amaral?

    Fica o registro.

    Abraço.

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