Por Mateus Lazzaretti (*)

O Brasil vive hoje um dos mais dramáticos momentos de sua história. Em meio a uma das maiores pandemias dos últimos cem anos, o país tem registrado mais de mil mortes diárias causadas pelo novo coronavírus (COVID-19), somando, no presente dia, mais de 43 mil óbitos, e já quase 900 mil pessoas contaminadas, podendo ser um número ainda superior devido à subnotificação e a incerteza que paira sobre a atuação do ministério da saúde no trato com os dados e as recentes mudanças na forma de divulgação. Já assumimos o segundo lugar mundial no número de casos, e já somos o epicentro da doença.

Enquanto países que foram duramente castigados pelo COVID já começam a retomar atividades depois de conseguirem controlar a doença, no Brasil os números crescem a níveis absurdos, e ainda assim não atingimos o pico da doença. Nem sequer sabemos quando chegaremos a ele. A soma de uma doença nova, altamente contagiosa e letal, com um governo neoliberal, negacionista e que “flerta” (pra dizer o mínimo) com o fascismo, produz uma das piores tragédias já ocorridas no nosso país. Seria o Brasil um poço sem fundo?

Óbvio que enquanto falamos disso, o restante dos problemas do país não desapareceram. Em alguns casos, inclusive, se intensificaram: a polícia segue assassinando e torturando pessoas negras nas periferias; os setores mais pobres do povo seguem sendo negligenciados e abandonados à própria sorte pelo Estado, sem ter condições de praticar o isolamento social; a saúde pública agoniza sob os tentáculos da PEC da Morte; as redes criminosas de desinformação seguem operando a todo vapor, confundindo a população sobre os cuidados com o vírus; organizações criminosas aproveitam o momento para aplicar golpes, desviar recursos da saúde, vender respiradores falsos, enfim, uma série de tragédias e crimes combinados. O povo brasileiro segue pisoteado e humilhado por aqueles que querem que a “economia não pare”, mantendo a girar o moedor de carne humana que os enriquece.

Enquanto todo esse pandemônio está a solta, o governo Bolsonaro compete com o COVID para mostrar quem é pior para o Brasil. Na figura do presidente, incentiva o desrespeito às regras de isolamento, incentiva invasões a hospitais, faz ameaças diretas e indiretas de fechamento do regime, amparado por seus generais na retaguarda, ele e seus ministros apoiam e incentivam manifestações fascistas e abertamente antidemocráticas, enquanto revelam que vão “aproveitar o foco no coronavírus pra passar a boiada toda”. É cada vez maior, diante disso, o número de pessoas que acha que Bolsonaro não pode mais ser presidente.

Alguns argumentam que ele é “incapaz”, um “louco”. Mas, como disse Breno Altman outrora, “há cálculo nessa loucura”. E fica cada vez mais nítido que a pandemia entra nesse cálculo, e que a aparente “incapacidade” do governo em lidar com ela é, na verdade, uma opção política. Manter a crise constante para resolver os desentendimentos entre a direita, manter todo mundo sob a política do medo, enquanto se reorganizam e afinam os detalhes para implementar toda a política econômica pretendida. Nos últimos dias, inclusive, novas movimentações do “centrão” demonstram isso: o PSD ganhando ministérios, o PSDB, protagonista do Golpe em 2016 afirmando que não deve haver impeachment porque seria “prejudicial à democracia” e fechando com a base do governo.

Enquanto isso, existem ainda setores da esquerda que, em meio a um verdadeiro genocídio do povo brasileiro, sobretudo dos pretos e pobres, acham possível construir uma frente ampla com os grupos golpistas em torno de pautas vagas, mesmo que sejam também responsáveis por Bolsonaro e pelo que tem ocorrido desde 2016. Alguns dizem até que não é momento de ir pra rua, sob pena de “empurrar” Bolsonaro ao autoritarismo.

A realidade brasileira mostra, no entanto, que o que tem conduzido o governo Bolsonaro a uma escalada autoritária é o próprio governo, a coalizão de interesses que o elegeu e a política externa subordinada. Muitas das pessoas que tem saído às ruas para combater o fascismo, pedir democracia e a saída desse governo ilegítimo, não estão propriamente “quebrando o isolamento” para protestar. São trabalhadores e trabalhadoras que precisam pegar diariamente transporte público lotado, que seguiram tendo que trabalhar durante a quarentena, sofrendo as opções feitas pelo governo.

Portanto, é imprescindível que a esquerda, e sobretudo o PT, se movimente para além da institucionalidade, sem necessariamente abandonar esta frente que também é importante. Devem impulsionar, junto aos movimentos populares, ações de solidariedade, organização e formação, aglutinando as forças de esquerda e populares, organizando o crescente descontentamento dos “70%”, construindo um projeto de superação da crise, e que passa inevitavelmente pelo fim desse governo genocida.

Não há problema de se criarem frentes amplas circunstanciais, afinal, se estes outros setores estão de fato preocupados com a democracia, não terão problema nisso, não é? Não podemos é ficar reféns e novamente amarrados aos que golpearam a democracia em 2016, que retiram direitos dos trabalhadores e que querem Paulo Guedes sem Bolsonaro. Ou construímos uma saída democrática e popular, apresentando uma alternativa sistêmica a uma crise sistêmica, ou veremos a classe trabalhadora e suas organizações serem esmagadas.

Ou seja, o Brasil não é – embora às vezes pareça – um poço sem fundo, mas impõe desafios que estão à altura de sua grandeza e importância. E para o povo superar estes desafios, é necessária muita organização, especialmente do Partido dos Trabalhadores e dos movimentos populares, sem ilusões, sem acomodação à ordem. Precisamos internalizar, compreender e demonstrar que só a luta impede a catástrofe. É socialismo ou barbárie!

(*) Mateus Lazzaretti é militante da Juventude do PT e da AE em Santa Maria/RS

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