Por Marlon de Souza (*)

O presidente Lula, após uma longa batalha judicial para ter seu direito de expressão garantido, concedeu inúmeras entrevistas durante os 580 dias em que esteve na condição de preso político. Assisti a todas as entrevistas concedidas por ele neste período. Sempre me dediquei ao estudo e à aplicação acadêmica. Além disso, estudo por dever de ofício, como jornalista, e a aplicação intelectual faz parte do trabalho. Posso dizer também que convivi e mantenho relações acadêmicas, políticas e profissionais com alguns dos mais importantes intelectuais do Brasil e do mundo.

Por esta razão, afirmo, com absoluta certeza, que cada entrevista de Lula daquele período é uma aula de cerca de duas horas de Política, de Economia, de governança, de concepção partidária, sindical, de Relações Internacionais, de Geopolítica e Administração Pública. Foram entrevistas para alguns dos mais relevantes veículos de comunicação de imprensa do país e do mundo, como: BBC, Página 12, Le Monde Diplomatic, El País, Folha de São Paulo, Brasil de Fato, Brasil 247, Canal France 24, RT, UOL, Agência Pública, Sul 21, Revista Forum, Tutameia, GGN, Carta Capital.

Além de assistir, fiz anotações e li alguns dos livros e artigos citados por Lula. Como Jornalismo Econômico é minha área de especialização, considero que um artigo edificante do ponto de vista da interpretação da conjuntura econômica e que Lula citou é: “Lições do fim da União Soviética para o Brasil de Bolsonaro”, do professor de Economia Política Internacional da UFRJ José Luiz Fiori. Confesso que até então não havia lido nada de Fiori e agora tenho consumido seus textos analíticos e acadêmicos.

É impactante a análise de economia comparada que Fiori faz da Rússia dos anos 90: as similitudes da política econômica ultraliberal adotada na Rússia, a partir da dissolução da URSS, com a do Ministro da Economia, Paulo Guedes, do Brasil de hoje.

Fiori narra que, mesmo antes da dissolução soviética (1922/1991), Boris Yeltsin – que viria a ser o primeiro presidente da nova Federação Russa – já havia convocado um grupo de economistas e financistas, nacionais e internacionais, liderados pelo jovem Yegor Gaidar, para formular um programa de reformas e políticas radicais com o objetivo de instalar na Rússia uma economia liberal de mercado. Este roteiro parece o de um filme brasileiro recém estreado, mas a má notícia é que não é mera coincidência.

Aqueles de idade mais avançada devem lembrar, mas de todo modo reporto que o professor da UFRJ conta que já em 1992 “com a dissolução da URSS, Yeltsin desencadeou um programa econômico ultraliberal que destruiu o Estado soviético e sua economia de planejamento”. A base na política macroeconômica de Yegor Gaidar foi caracterizada por uma rígida austeridade fiscal: restringiu os créditos, aumentou impostos, cancelou todo tipo de subsídios do governo para a indústria e a construção, cortou elevadamente a previdência e a saúde do país. É a mesma receita da “Ponte para o futuro” de Temer e a variante mais radicalizada, manifesta na atual versão de Guedes em sua fórmula do crescimento para o Brasil.

É necessário observar que, como parte da trama, estratégias fascistas fizeram parte do roteiro. Para obstruir a oposição em 1993, Boris Yeltsin determinou a invasão do parlamento russo que se opunha às reformas ultraliberais, 187 pessoas foram assassinadas, líderes da oposição foram presos e uma nova Constituição que pavimentasse o caminho para a aprovação da política econômica do ministro Yegor Gaidar foi imposta.

Fiori destaca em seu artigo que o governo russo de Yeltsin subordinou a Rússia as determinações dos EUA e ao G7, desmontando suas Forças Armadas. O resultado impressiona pela velocidade e pelo choque, em três anos Gaidar vendeu quase 70% de todas as empresas estatais russas – inclusive o setor de petróleo – foram desmembradas, privatizadas e desnacionalizadas. O setor de petróleo havia sido peça central da economia socialista da URSS. Importante lembrar que durante décadas a URSS polarizou a liderança da economia mundial com os EUA.

O saldo desta política econômica ultraliberal foi que, já em 1994, a economia da Rússia entrou em depressão, a inflação disparou, as falências se multiplicaram por todo o país, o PIB caiu 50% em relação a 1990, vários setores da economia russa desapareceram, houve uma queda de 58% em média dos salários. As reformas não só não atraíram investimentos internacionais, como caíram 50%.

Todavia se faz necessário destacar que o colapso e a destruição da economia da Rússia não impediu que aqueles agentes do estado que promoveram estas “reformas”, em sociedade com grandes bancos internacionais e agentes do mercado das privatizações, obtivessem alta performance de crescimento e acúmulo de capital e lucros extraordinários de caráter privado.

A lição da política ortodoxa ultraliberal implementada na Rússia – similar a de Guedes no Brasil de hoje – é de resultado catastrófico em todos os indicadores econômicos e sociais, falência da indústria, desigualdade social e miséria. Mas, ao mesmo tempo, a queda na produção nacional e recessão econômica do país é plenamente conciliável com altas taxas de lucro de um determinado pequeno grupo econômico em especial, com os agentes promotores das privatizações, e em particular de petróleo. No entanto, verifica-se na experiência russa que privatização não se converte em investimento e que austeridade fiscal com a restrição ao crédito e queda simultânea do consumo interno é desastroso para a nação como um todo.

A notícia boa é que Fiori demonstra, ao final de seu artigo, que ao assumirem o governo da Rússia como primeiro-ministro Vladmir Putin, seu sucessor Dimitri Medvedev e Vladmir Putin subsequentemente, embora tenham mantido a matriz capitalista, recentralizaram o poder no Estado e reorganizaram a economia a partir do setor energético, ou seja, reverteram a política ultraliberal e reconstruíram o país.

A lição da política ultraliberal implementada pós-URSS são duas para os países em desenvolvimento:

1ª A depender da matriz da política econômica em vigor no país específico se destrói o Estado socialista, desenvolvimentista, distributivista, Estado de bem estar social, para se vender a soberania nacional, o patrimônio público, em favor do exponencial lucro de um restrito grupo de capitalistas

2ª É possível reverter a partir da reestatização e do setor energético

Com o maior estadista da história do Brasil – Luiz Inácio Lula da Silva – agora livre novamente, com sua capacidade de convocatória, de mobilização e de explicar às massas que o atual governo colapsou a economia do país, e a partir de um grande movimento democrático de massas, será possível reagir radicalmente aos ataques da direita. Será possível, a partir deste movimento e como resultado dele, a esquerda assumir o poder estatal, restaurar a democracia, revogar as medidas regressivas, restituir e ampliar os direitos sociais, os direitos civis, trabalhistas e libertar o povo da opressão econômica – revogar e reverter as medidas regressivas implementadas desde 2016 e que estão destruindo o Estado brasileiro.

(*) Marlon de Souza é jornalista é militante da tendência petista Articulação de Esquerda

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