Por Valter Pomar

No espaço adequado, a saber, uma entrevista à revista Veja (18 de setembro de 2019, edição 2652), o governador Rui Costa demonstra que é um radical. Que tipo de radical, só lendo a entrevista.

A seguir comentarei este presente que Rui e Veja dão aos petistas, numa sexta-feira 13. Ressalvo que sempre pode haver algum erro ou deturpação, fruto da edição da revista a quem Rui escolheu conceder tão radical parola.

A entrevista abre com a pergunta: “foi um erro o PT ter uma candidatura própria em 2018, em uma eleição marcada pelo antipetismo?”.

Rui responde que “adjetivar dessa forma” (ou seja, como um erro) “é ruim. Mas o certo era ter apoiado o Ciro Gomes lá atrás”.

Que o governador tenha defendido isso “lá atrás”, vá lá. Que siga defendendo como “certo” ainda hoje, sem nenhum reparo, mesmo depois que Ciro Gomes já demonstrou a que veio, é digamos algo bem “ruim”.

Mostra que o governador está tão convicto de que, em 2018, “nenhuma outra liderança teria condições de superar o antipetismo ou disputar a Presidência em pé de igualdade naquele cenário”, que seria “certo” inclusive apoiar um furibundo antipetista, tão antipetista que nem Lula Ciro Gomes defende.

O fato é que, apesar deste e de outros “detalhes”, Rui segue defendendo que deveríamos ter apoiado Ciro.

Um detalhe interessante nesta passagem da entrevista é o já citado raciocínio de Rui, segundo o qual “nenhuma outra liderança teria condições de (…) disputar a Presidência em pé de igualdade naquele cenário”.

Por trás dessa frase inocente existem três “premissas” implícitas que precisam ser destacadas. A primeira é que um partido de esquerda só deveria disputar “em pé de igualdade”. Ou seja, quase nunca. A segunda é que as eleições seriam injustas apenas no caso do PT disputar; ms se o PT apoiasse um candidato de outro partido, aí 2018 transcorreria em condições de normalidade. A terceira é que o problema estaria “naquele cenário”, já em 2022 as coisas marcharão diferente.

A primeira resposta de Rui encerra com a frase: “faltou perceber que era preciso dialogar com todos os segmentos sociais, mesmo com aqueles que pensam diferente”.

Aí não!!!

Acuse-se Fernando Haddad de qualquer coisa, menos disso. Haddad chegou ao ponto, no segundo turno, de elogiar Moro e a Lava Jato, gastar tempo buscando FHC, conversou com Ciro, tirou pontos do programa definido no Diretório Nacional. E agora é criticado desta forma?

Eu olho para a atual direção do PT, olho para nosso candidato em 2018, lembro do companheiro Lula e penso: do que mesmo Rui está falando? E só consigo compreender a crítica de Rui se ela for baseada numa caricatura (o PT que não conversa com quem pensa diferente) ou se for baseada numa decisão de “virar a página do golpe”.

A segunda pergunta de Veja é: “A que o senhor atribui a migração em peso de evangélicos para o núcleo duro do bolsonarismo”.

Tema interessantíssimo. Até porque parte do voto dos evangélicos foi em petistas, antes de 2018, e continuou sendo petista mesmo em 2018. A resposta de Rui é bem tímida, digamos assim: fala de materiais de campanha, fala da forma de governar, fala de descuido do Partido com relação à forma, fala dos valores de certos pregadores. Vamos crer que a edição de Veja cortou as partes mais interessantes e esclarecedoras do pensamento de Rui a respeito.

A terceira pergunta de Veja é: “Há algum ponto que o senhor considera positivo no governo Bolsonaro?”

A resposta de Rui começa divertida (“tenho a esperança de que terei algo para citar até dezembro”), mas termina preocupante (“vejo com bons olhos a intenção de corrigir o erro que foi acabar com o programa Mais Médicos”). Quem quiser saber mais a respeito da suposta “correção”, recomendamos ler o texto de Aparecida Pimenta na edição de agosto-setembro da revista Esquerda Petista (www.pagina13.org.br), texto que deixa claro não haver espaço para “bons olhos”.

A quarta pergunta de Veja é: “Como avalia a estratégia de ação do PT após a eleição de Bolsonaro?”

A resposta de Rui é digna de Fringe: “Em um momento inicial, muita gente disse que o PT e a esquerda tinham sumido”, sendo “natural que a oposição, se tiver juízo, recolha o trem de pouso e deixe o presidente governar, até para não ganhar a antipatia da população. Também é natural que críticas surjam a partir de seis meses de governo”…

Na boa, em que mundo paralelo nosso querido governador esteve, de janeiro a junho de 2019? Não viu as mobilizações contra o governo? Os embates no parlamento? Os posicionamentos do Partido?

Sobre “recolher o trem de pouso”, confesso que me falta algo para entender a imagem proposta pelo governador. A gente recolhe o trem de pouso depois que decola. Por acaso Rui quer dizer que é “natural” que, no primeiro semestre de um novo governo, enquanto o presidente governa, a gente tem que ficar voando, observando do alto???

E eu que pensava que em um regime democrático, o “natural” é que sempre haja oposição, sendo também normal que esta oposição faça críticas sempre e quando achar adequado.

Brincadeiras e imagens a parte, o recado que Rui quer passar é que o PT não pode “ficar só na negativa”. Novamente, trata-se de uma caricatura. Mas como se sabe, esta técnica permite a Rui posar como “o cara” do diálogo, da oposição positiva, contra um partido prisioneiro do negativismo.

Veja pergunta em seguida o seguinte: “Mas o PT ainda está preso a uma narrativa de que foi vítima de golpes, como na prisão de Lula. Isso é efetivo?” A resposta de Rui, corretamente, ataca a partidarização da Operação Lava Jato. Mas o melhor está por vir: quando Veja pergunta se “o PT deve exigir a defesa do Lula Livre para formar alianças”, Rui é taxativo: “Não”.

Vejamos a resposta como um todo: “Não, não acho que esse é o ponto que deve ser usado pelo PT para condicionar qualquer diálogo com as oposições para formar uma frente. Mas o PT não deve abrir mão dessa bandeira”.

Ou seja: para Rui, a bandeira Lula Livre seria uma bandeira do PT. Esta tese vem sendo esgrimida, há tempos, por diversos setores. E pelo visto Rui está aderindo a tese. Aliás, muita gente boa acha que esta tese é, digamos, respeitável.

Proponho, então, simplificar o assunto e inverter a lógica.

Simplificar: diálogo fazemos com muita gente. Não precisa haver pré-condição para dialogar. Mas quais as condições para que este diálogo evolua no sentido de formar uma frente? Para isso, é preciso que exista um mínimo acordo programático e político. Assim, a pergunta é: no limite, o PT aceitaria formar uma frente com quem acha que Lula deve continuar preso?

Ou, de maneira mais ampla, o PT aceitaria formar uma frente com quem não acha que a bandeira Lula Livre é parte fundamental da luta pelas liberdades democráticas?

Dizer que o PT “não deve abrir mão dessa bandeira” e, ao mesmo tempo, dizer que o PT poderia formar uma frente com quem não compreende a centralidade da bandeira Lula Livre, é na prática aceitar como válida a tese segundo a qual a prisão de Lula é um “problema”  do PT.

Reitero: Rui defende Lula, diz que ele tem direito a um julgamento justo. Mas está abraçando a tese errada. Veja percebe a brecha e ataca com a seguinte pergunta: “O PT também não faz críticas a Maduro e às violações de direitos na Venezuela. O senhor concorda com isso?”

Segundo Rui, “a Venezuela enfrenta o mesmo momento que o Brasil, mas no oposto ideológico”.

A posição de Rui é uma agressão aberta contra a posição do PT, mas além disso Rui fala do seu (nosso) partido como se fossemos um bando de antas. Segundo ele, “manifestamos unilateralmente apoio a um dos lados na Venezuela, independentemente do que estivesse ocorrendo”.

Novamente, é um caso de Fringe. No mundo de que Rui fala, o Brasil está sob ameaça de um ataque militar iminente, está sob bloqueio econômico por parte dos Estados Unidos, e ademais Humberto Costa é reconhecido como presidente interino por várias nações.

O fato é: qualquer discussão em tese sobre as liberdades democráticas na Venezuela, ou em Cuba (que logo, logo vai ser vítima de algum comentário de Rui, pois por este caminho que ele vai, se sabe como começa e também se sabe como termina), que omita o bloqueio e a agressão militar, é uma comparação indevida.

Mas, registro feito, Rui ainda não chegou lá: perguntado se “a Venezuela é uma ditadura?”, Rui responde que “ainda” não tem “elementos para classificar a  Venezuela dessa forma”. Ainda…

Em seguida, Veja pergunta o que Rui acha “da recondução de Gleisi Hoffmann à posição de presidente do seu partido”. Rui responde que “não se trata de nomes, não gosto de estigmatizar as pessoas. Até porque a Gleisi não conduz nada só a partir da cabeça dela”.

Para bom entendedor, meia palavra basta. Mas Rui não para aí.

Ele critica a “burocratização” do Partido, ocorrida nas “últimas décadas que afastou o povo do PT”. Uma frase que poderia ter saído da boca de alguém da esquerda do Partido. Mas que no caso de Rui, serve como uma espécie de “tapa sexo” para ocultar o que está por trás do processo real de burocratização e perda de capilaridade social: a dinâmica cada vez mais institucional do Partido, sua subordinação a mandatos parlamentares, a governos e governantes. Assunto que, claro, não aparece na entrevista de Rui a Veja.

Mas não se pode negar que Rui é ousado.

Perguntado sobre a influência de Lula no PT, ele responde uma obviedade (“o peso dele é grande”) e, isto posto, fala sobre a necessidade de ampliar a presença capilar (sic) na sociedade. E agrega: “à medida que isso ocorrer, voce diminuirá a liderança individual de todas as pessoas, porque todo mundo passará a ser ouvido”.

Claro, pode ser que a edição tenha cortado alguma passagem essencial do raciocínio de Rui, mas se não houve adulteração, eu diria que ele (e outros) estão preparando o “pós-Lula”. O que é direito dele. Mas eu, como petista que não sou lulista, fico chocado com a ligeireza com que Lula é tratado por gente que chegou aonde chegou, em parte graças ao apoio de Lula.

É como se a maior liderança da classe trabalhadora brasileira, construída coletivamente desde os anos 1970, submetida hoje a uma prisão política, fosse excessivamente ouvida… porque falta capilaridade, porque faltam os meios para ouvir todo mundo.

Claro, esta leitura que faço pode ser produto de uma edição enviesada feita pela Veja. Mas convido-vos a próxima pergunta e resposta: “Em outros termos, o senhor está defendendo a tese de que está na hora de o PT pensar no pós-Lula?” E a resposta: “O Lula é intrínseco ao PT O debate não tem de ser com ou sem ele. Mas o cenário mundial mudou, a economia mudou. É preciso um novo olhar sobre gestão pública…” etc.

Novamente, para cobrir o flanco Rui fala uma obviedade (Lula é intrínseco ao PT), mas em seguida fica claro que a resposta dele é na verdade um sim, pois afinal “o cenário mudou”.

O curioso é que o cenário mudou, mas Rui não propõe mudar a estratégia política. No fundo, no fundo, o que Rui propõe é mudar… o candidato.

Aliás,  a edição de Veja desenha isto no final da resposta: “Na Bahia, por exemplo, eu já tenho uma política para atrair negócios em parcerias público-privadas”.

E, como nem mesmo desenhando há quem entenda, Veja vai além: “Nessa busca por novas lideranças nacionais, quais as características que o diferenciam de outros nomes?” Resposta de Rui: “Não tenho vocação para ser coruja que gaba o próprio toco. Mas diria que as marcas do meu governo são o ritmo de trabalho forte e a fala franca e sincera”.

Não vejo qual a conveniência e a oportunidade deste debate presidencial, especialmente de um que começa descartando a candidatura Lula. Mas ninguém pode negar: sinceridade não falta! Na pergunta seguinte, sobre Haddad, Rui sinaliza para a esquerda (“a força do PT não está em nomes… o PT é uma ideia de igualdade num Brasil muito desigual”) e vira para a direita (“é preciso trabalhar melhor essa ideia para reconstruir o partido, abordando temas a que o PT sempre se mostrou reticente, como a questão da segurança pública”).

Não sou reticente ao tema da segurança, mas simplesmente não consigo entender como falar a sério de igualdade e remeter em seguida ao tema da segurança, e não ao tem do capital financeiro, não ao tema da reforma tributária etc.

Nem consigo entender qual a relação entre a política de segurança pública do governo Rui Costa e a pretensão de trabalhar melhor essa ideia de igualdade num Brasil muito desigual. Aliás, não há lugar no mundo em que a postura de “endurecimento” defendida por Rui, ande de mãos dadas com liberdade, igualdade e fraternidade.

A verdade é que Rui, neste questão, é mais um prisioneiro da pauta do bolsonarismo.

Aliás, Rui chega a inventar que “a falta de propostas (sobre o tema da segurança) foi um dos fatores que levaram às derrotas das esquerdas na última eleição”.

Suo frio imaginando um debate sobre o tema entre Dória e Rui. Claro, como FHC, Rui já está aberto ao debate sobre legalizar drogas de menor porte, talvez para contribuir com que alguns suportem melhor e mais facilmente os tempos em que vivemos.

De conjunto, a entrevista de Rui Costa à revista Veja confirma que o atual governador da Bahia é um dos chefes da tendência mais radical do PT: a tendência à adaptação.

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