Por Valter Pomar (*)

Rodrigo Pacheco e Rogério Carvalho

O senador Rogério Carvalho, líder do PT no Senado, concedeu uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

A entrevista está disponível no seguinte endereço:

https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,nao-temos-condicoes-de-escolher-candidato-de-oposicao-a-bolsonaro-diz-lider-do-pt-no-senado,70003578793

Nesta entrevista, o senador fala sobre o apoio da bancada de senadores petistas a Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

A decisão de apoio foi unânime.

Segundo Rogério Carvalho, Pacheco se “mostrou com muita qualidade individual. É uma pessoa com formação extraordinária, sereno, com capacidade de representar o Senado à altura. É óbvio que ele defende uma agenda liberal. Não temos condição de escolher um candidato de oposição ao Bolsonaro porque não tem”.

Não tem onde, cara pálida?

Na bancada do PT qualquer um dos senadores poderia ser candidato de oposição ao Bolsonaro.

Mas esta alternativa foi desconsiderada, ao que parece por dois motivos.

Primeiro: do outro lado estaria uma lavajatista, a senadora Simone Tebet.

Segundo: a participação do PT na Mesa, nas comissões e relatorias estaria prejudicada, caso o PT decidisse lançar candidatura própria.

Rogério Carvalho admite que há um “prejuízo político para o PT” em apoiar o mesmo candidato de Bolsonaro.

Mas minimiza o prejuízo, usando entre outros o seguinte argumento: “Nós perdemos a capacidade de fazer um discurso mais duro contra o Bolsonaro, mas isso ia adiantar o que para a vida das pessoas?”

Deixemos de lado a contradição entre este discurso e o discurso que é feito, na Câmara dos Deputados, para apoiar Baleia Rossi já no primeiro turno.

E nos concentremos na lógica de fundo: fazer um discurso mais duro não adiantaria nada para a vida das pessoas.

Ou seja: o país está indo ladeira abaixo, as lutas sociais escasseiam e no Senado não faremos “discurso mais duro”, porque isso não adiantaria nada.

Além de ser falsa (a história do PT mostra que fazer discurso duro, marcar posição, demarcar o campo, é uma parte importante da luta política, especialmente quando se está na oposição), esta lógica adotada por Rogério Carvalho conduz o PT a se tornar linha auxiliar de qualquer coisa, sendo que a coisa qualquer muda ao sabor das circunstâncias.

Muda tanto, que parte da entrevista de Carvalho é dedicada a criticar o MDB, partido de Baleia Rossi: “qual foi a independência do MDB em relação ao governo? Vamos ver a vida real, na prática. Vale o que se faz, não o que se diz. O MDB foi líder do governo. Esse negócio de mais ou menos independente não existe. Quem dá poder ao Bolsonaro é a base que ele constrói”.

Verdade. Assim como a recíproca é verdadeira. Mas como a bancada do PT no Senado não quer lançar candidatura própria, resta apoiar alguém, mesmo que seja o candidato de Bolsonaro.

Outro argumento utilizado por Rogério Carvalho é de que “nós somos garantistas. Essa pauta que coloca em risco as garantias individuais, constitucionais e coletivas não nos agrada. Não queremos mudar o estado de consolidação das liberdades, presunção da inocência e garantias difusas por inovação de um ativismo judicial desproporcional. Não nos agrada aqueles que professam esta fé. Esta fé não é a nossa fé”.

Não é genial? Esses argumentos garantistas deveriam levar Rogério Carvalho a querer distância de Bolsonaro e de qualquer candidatura apoiada por ele.

Mas não!

Os argumentos são utilizados para justificar o apoio ao mesmo candidato de Bolsonaro, apesar deste ser o grande “messias” da “fé” que ameaça todas as garantias.

O problema é que Rogério Carvalho parece meio rendido… a Bolsonaro.

Perguntado sobre quais propostas a bancada vai tentar pautar após a eleição, Rogério responde e acrescenta ao final: “Bolsonaro acena para os controlistas que estão no governo dizendo que não vai aumentar gastos, aí o Congresso aprova e ele capitaliza. Foi assim antes e vai ser assim agora”.

Foi assim antes e vai ser assim agora!

Mas fiquemos tranquilos, que vamos ter nossa parte em comissões e vagas na Mesa. Que parte? Uma parte proporcional ao tamanho da nossa bancada.

Não é maravilhoso, uma grande conquista do povo?

E como tudo que está ruim sempre pode piorar, Rogério Carvalho termina sua entrevista elogiando o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP): “Davi cumpriu um papel importante. Eu não votei nele em 2019, mas ele foi capaz de abrir espaço para algumas agendas. Todos tiveram possibilidade de apresentar projetos e acesso às relatorias. Ele manteve o papel de mediador. Foi menos agressivo nas críticas aos exageros que o governo cometeu, às ameaças à democracia, mas conseguiu manter a relação com o governo mantendo o diálogo com a oposição e compatibilizando as agendas”.

Abriu espaço para os senadores mas… “foi menos agressivo nas críticas aos exageros que o governo cometeu, às ameaças à democracia”.

Um detalhe.

O governo fez ameaças à democracia e o presidente do Senado foi menos agressivo nas críticas ao governo.

Um mero detalhe!

Reitero: a direção nacional do Partido não pode fazer cara de paisagem frente a esta tática abertamente oportunista.

Discordo da tática adotada pela bancada do PT na Câmara dos Deputados, tática que também deveria ser revista, especialmente depois que Baleia Rossi deixou explícita sua postura frente ao impeachment.

Mas a tática na Câmara pelo menos vem embalada em uma “narrativa”: oposição a Bolsonaro.

Já a tática do Senado não tem narrativa alguma. É uma vergonhosa desmoralização.

ps. todo apoio à proposta do José Genoíno: nacionalizar a Ford.

(*) Valter Pomar  é professor e membro do Diretório Nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

 

SEGUE ABAIXO O TEXTO COMPLETO DA ENTREVISTA

DF: BRASÍLIA – O líder do PT no Senado, Rogério Carvalho (SE), justifica a escolha do partido de oposição à candidatura de Rodrigo Pacheco (DEM-MG) na disputa pelo comando da Casa pela falta de opções. “Não temos condição de escolher um candidato de oposição ao Bolsonaro porque não tem”, afirmou o ele ao Estadão/Broadcast.

A decisão da bancada petista, anunciada nesta segunda-feira, 11, chama a atenção porque Pacheco, líder da bancada do DEM, é o concorrente que tem o aval do presidente Jair Bolsonaro. Na Câmara, o PT aderiu à campanha do deputado Baleia Rossi (MDB-SP) ao comando da Casa justamente sob o argumento de que não poderia estar do mesmo lado do “candidato de Bolsonaro”, que ali é Arthur Lira (Progressistas-AL).

No Senado, o PT rejeitou uma aliança com o MDB, que deve lançar Simone Tebet (MDB-MS) na disputa. A senadora é vista como defensora da Lava Jato, o que gerou resistências entre os petistas. “Não nos agrada aqueles que professam esta fé. Esta fé não é a nossa fé”, disse Carvalho. A bancada, formada por seis senadores, foi unânime no apoio a Pacheco.

Com o apoio a Rodrigo Pacheco (DEM-MG), o PT está ao lado do candidato do presidente Jair Bolsonaro?

A pergunta que não quer calar:‘se fosse do MDB, seria menos próximo ou mais próximo?’. O Rodrigo, pelo menos na conversa com a gente, se mostrou com muita qualidade individual. É uma pessoa com formação extraordinária, sereno, com capacidade de representar o Senado à altura. É óbvio que ele defende uma agenda liberal. Não temos condição de escolher um candidato de oposição ao Bolsonaro porque não tem. Estamos falando de eleição no Senado, e não do Brasil. Votamos várias pautas com a base do governo porque eram iniciativa dos próprios parlamentares. O interesse maior é diminuir o sofrimento das pessoas, ainda com prejuízo político para o PT.

Qual é esse prejuízo político?

O Bolsonaro tira vantagem, mas não importa. O que importa é diminuir o sofrimento das pessoas. Evitamos uma catástrofe maior e fomos responsáveis. Tem um custo essa responsabilidade. Nós perdemos a capacidade de fazer um discurso mais duro contra o Bolsonaro, mas isso ia adiantar o que para a vida das pessoas?

No MDB, a Simone Tebet (MS) tem o discurso de independência em relação ao governo. Como o sr. avalia essa candidatura?

Com respeito, mas qual foi a independência do MDB em relação ao governo? Vamos ver a vida real, na prática. Vale o que se faz, não o que se diz. O MDB foi líder do governo. Esse negócio de mais ou menos independente não existe. Quem dá poder ao Bolsonaro é a base que ele constrói.

A proximidade de Simone Tebet com o ‘Muda, Senado’ e a pauta da Lava Jato são uma barreira?

Nós somos garantistas. Essa pauta que coloca em risco as garantias individuais, constitucionais e coletivas não nos agrada. Não queremos mudar o estado de consolidação das liberdades, presunção da inocência e garantias difusas por inovação de um ativismo judicial desproporcional. Não nos agrada aqueles que professam esta fé. Esta fé não é a nossa fé.

Quais foram os compromissos acertados para apoiar Rodrigo Pacheco?

O compromisso com a democracia, autonomia do Senado em relação às outras instituições republicanas, ao debate sobre temas de interesse dos trabalhadores. Não há compromisso de resultado, mas que a gente possa fazer o debate.

Que propostas a bancada vai tentar pautar após a eleição?

Queremos mais seis meses para o estado de calamidade pública e para o auxílio emergencial. A realidade vai ser imperativa. Quem é oposição não tem muita ilusão de ter força para pautar um tema desse porque o governo vai mobilizar a base. Mas a realidade vai ser tão imperativa que nos obrigará a fazer. Bolsonaro acena para os controlistas que estão no governo dizendo que não vai aumentar gastos, aí o Congresso aprova e ele capitaliza. Foi assim antes e vai ser assim agora.

O PT negociou comandar comissões e vagas na Mesa do Senado?

O compromisso é ter participação proporcional. Tem o compromisso da Comissão de Assuntos Sociais (CAS), mas pode ser a Comissão de Direitos Humanos (CDH) e uma outra. Na Mesa, a Terceira Secretaria é proporcional ao tamanho do PT. Mas tudo vai depender do resultado da eleição.

A indicação do atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), pesou na escolha por Rodrigo Pacheco?

Davi cumpriu um papel importante. Eu não votei nele em 2019, mas ele foi capaz de abrir espaço para algumas agendas. Todos tiveram possibilidade de apresentar projetos e acesso às relatorias. Ele manteve o papel de mediador. Foi menos agressivo nas críticas aos exageros que o governo cometeu, às ameaças à democracia, mas conseguiu manter a relação com o governo mantendo o diálogo com a oposição e compatibilizando as agendas.

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