Por David Soares de Souza (*)

Anísio Maia, candidato do PT à Prefeitura de João Pessoa; e Ricardo Coutinho, candidato do PSB — Foto: TV Cabo

No primeiro texto sobre este assunto (que pode ser conferido neste link: https://www.pagina13.org.br/ricardo-coutinho-e-o-pt-debitos-ou-licoes/), apresentamos um balanço que indica que o PT não tem débitos com a figura do ex-governador Ricardo Coutinho: foi a construção e consolidação do PT que projetaram Ricardo como liderança política, o seu êxito como gestor público não pode ser desvinculado da agenda de investimentos dos governos dos presidentes Lula e Dilma e, finalmente, o líder do PSB/PB não teve nenhum ônus ao defender o campo democrático e popular a partir do segundo turno de 2014.

Deveria causar estranheza algum cálculo eleitoral em uma postura que, em tese, deveria ter como pressuposto um princípio político: a defesa da democracia. No entanto, considerando apenas o cálculo eleitoral, ter apoiado as candidaturas de Dilma e Haddad em um estado como a Paraíba, no qual Lula ganharia já no primeiro turno de 2018, não é algo que possa ser chamado de sacrifício. Também devemos ressaltar que o apoio de Ricardo Coutinho à democracia não evitou que seus aliados no Congresso Nacional deixassem de apoiar o golpe. Sim, a ascensão de Ricardo Coutinho nunca representou o enfraquecimento de setores da direita.

Estes fatos trazem ao próprio PT uma importante lição. Todo o capital político que hoje Ricardo Coutinho acumula se deve à sua postura de enfrentamento e tomada de posição, nadando contra a corrente, considerando o contexto político do país. Na Paraíba, ao menos desde 2006, o PT vem adotando uma postura de coadjuvante em nome do projeto nacional. Por óbvio, quem não disputa, não cresce, basta comparar o PT na Paraíba com os demais estados no Nordeste.

No entanto, quem não fala de um suposto débito, usa um segundo argumento para legitimar a intervenção da Direção Nacional em João Pessoa: é importante apoiar Ricardo Coutinho para melhor enfrentar a extrema-direita.

Primeiro. Devemos reconhecer que não há nada a comemorar na dispersão dos partidos de esquerda nas disputas eleitorais deste primeiro turno. Muito embora também se verifiquem pulverizações de candidaturas à direita, a unidade da esquerda é fundamental para o fortalecimento do campo popular agora e depois. No entanto, não é coerente usar esse argumento para justificar uma intervenção em João Pessoa quando se trata, na verdade, de um problema nacional.

Segundo. Não é correto colocar na conta do PT a falta e unidade das esquerdas no primeiro turno em João Pessoa. Desde o fim de 2019 e durante quase todo o primeiro semestre de 2020, o PT procurou construir essa aliança. Não havendo respostas por parte do PSB, a instância municipal passou a construir de forma unânime a candidatura do deputado estadual Anísio Maia.

Também é verdade que o PSB manteve até quando foi possível seu histórico de optar por não construir aliança com o PT. Em 2004, aliança com foi com o então PMDB. Em 2008, chapa partidária. Em 2012, aliança com o DEM. Em 2016, ano do golpe, aliança com o PTB (mantendo o DEM na chapa). E agora, em 2020, a proposta inicial foi de aliança com o PV. Apenas horas antes da convenção petista, Ricardo Coutinho lança sua candidatura e, sem nenhum outro partido aliado, procurou a Direção Nacional do PT. Estes são os fatos.

Terceiro. Fica evidente, portanto, que a busca pelo PT em João Pessoa foi uma contingência no legítimo projeto do PSB e não uma construção de unidade das esquerdas. O presidente nacional Carlos Siqueira  já deixou claro que não quer o apoio do PT (Segue link com matéria: https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/09/18/psb-nacional-rejeita-apoio-do-pt-em-joao-pessoa-e-descarta-alianca-em-2022.ghtml) em 2020 ou mesmo em 2022, recomendando para nossa DN respeito ao Diretório Municipal de João Pessoa. As movimentações do PSB nacional estão de acordo com as diretrizes aprovadas em sua Convenção Nacional em novembro de 2019, de distanciamento do PT. Na lógica do PSB, o cenário ideal para o Brasil é este que já foi construído na Paraíba, com um PT enfraquecido e, paradoxalmente, esta política contra com muitos aliados no Diretório Nacional petista.

Quarto. Mas isto não quer dizer que os petistas e o conjunto da esquerda desconheçam a importância e o peso político do ex-governador. E, exatamente por isso, é legítimo perguntar por qual motivo o que Ricardo Coutinho defende para Lula em nível nacional, não serve para ele próprio no município? Na já citada Convenção Nacional do PSB realizada em 27 de novembro de 2019, o ex-governador comentou o seguinte sobre o discurso do presidente Lula quando de sua saída da prisão política em Curitiba: “Lula se portou mais como chefe de partido. O papel dele dever ser de um líder com estatura para aglutinar mundialmente setores afinados com a democracia. Não entendi essa expressão mais localizada”. (segue link da matéria: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/11/psb-critica-discursos-recentes-de-lula-e-busca-se-descolar-do-pt.shtml).

Em 21 de maio deste ano, na live “Café com o MST”, Ricardo Coutinho reafirmou seu entendimento de que o presidente Lula não deveria se preocupar com o PT ou com sua eventual candidatura, mas fortalecer o campo democrático e dar espaço para novas lideranças. Dadas as circunstâncias de João Pessoa e considerando as devidas proporcionalidades, Ricardo não poderia desempenhar o mesmo papel nestas eleições municipais? O “engraçado” é que para algumas pessoas o PT não deveria disputar por conta do antipetismo. Mas, para estas mesmas pessoas, Ricardo Coutinho é o melhor nome para uma disputa, mesmo tendo os maiores índices de rejeição.

Quinto. Não é possível enfrentar a extrema-direita e defender os interesses da classe trabalhadora enfraquecendo o PT. A garantia de que teremos um partido orgânico e mobilizado contra o governo o Bolsonaro e, no caso das eleições de 2022, defendendo nosso projeto nacional na Paraíba, é desde já reverter a desidratação do partido e fortalecê-lo para os próximos embates. Em português castiço: a intervenção da Direção Nacional em João Pessoa, na vida prática, terceiriza para a pessoa de Ricardo Coutinho a condução de todo PT da Paraíba, não apenas de João Pessoa. Uma peça em seu tabuleiro a ser utilizada quando conveniente.

Sexto. Nas últimas eleições municipais em João Pessoa, o PSB não conseguiu chegar ao segundo turno. Por que agora seria a melhor opção? Alguém pode dizer que nas vezes anteriores não era Ricardo o candidato, o que é verdade. Mas, também é verdade que é Lula e não Ricardo o principal cabo eleitoral da esquerda em João Pessoa e na Paraíba. Como estaríamos, praticamente um mês após a convenção, se o companheiro Anísio Maia, ao invés de reafirmar sua candidatura diariamente estivesse contando com o apoio e engajamento de nossas principais lideranças nacionais?

Sétimo. A unidade da esquerda não implica um cheque em branco para ninguém. Afinal, qual é o programa que nos unifica? Quem constrói o PT da Paraíba ou quem acompanha a política no estado mais perto, sabe que há divergências programáticas importantes entre os dois partidos. O PT colocou-se contrário às medidas de terceirização da gestão e dos serviços públicos, notadamente na saúde e educação, bem como a política de ajuste fiscal que penalizou os servidores públicos, para citar alguns exemplos. Então, o que o PSB oferece para a esquerda em João Pessoa considerando que, nos últimos 16 anos operou mobilizando grupos da direita? Qual programa de governo foi formulado para uma candidatura construída de forma extremamente improvisada?

Como até então o maior partido da esquerda na Paraíba, o PSB tem maior responsabilidade neste balanço, da política de alianças que construíram até o modelo de gestão que implementaram. Bem diferente do que aconteceu com o PT no governo federal, o PSB local não houve um golpe, ao contrário, elegeram o sucessor de Ricardo Coutinho já no primeiro turno de 2018. Todavia, todo este espólio político hoje fortalece a direita e não campo popular. Este é um problema que o PSB está trazendo para o conjunto da esquerda, em João Pessoa, resolver. Não é intelectualmente honesto colocar na conta do PT de João Pessoa um problema que ele não construiu.

Finalmente, a candidatura própria do PT não é contra Ricardo Coutinho ou contra o PSB. Assim como em dezenas de cidades em todo o país, infelizmente em João Pessoa não foi possível a unidade da esquerda já no primeiro turno. Espera-se que esta unidade não tarde a acontecer e que ocorra em bases programáticas o quanto antes.

A intervenção no Diretório Municipal também expressa algo já conhecido de quem milita politicamente na Paraíba: a falta de disposição de Ricardo Coutinho em dialogar de igual para igual com seus aliados. Ou submissão ou nada. O episódio também explicita a falta de zelo da Direção Nacional do PT com as instâncias municipais, sobretudo quando em cidades “longe demais das capitais”.

A reunião do Diretório Nacional convocada para tratar das eleições de 2020 em João Pessoa, ocorrida em 15 de setembro, deliberou pela orientação por aliança com o PCdoB e PSB, o que foi observado. Todo o processo de construção da candidatura própria esteve em rigorosa fidelidade ao estatuto e às deliberações partidárias. Decidir retirar uma candidatura por meio de um aplicativo mensagens, de maneira improvisada, não consta no estatuto do PT. A observância do estatuto é garantia de respeito às minorias partidárias.

A candidatura do deputado Anísio Maia é fruto de um politizado e intenso processo de mobilização. E, os “soldados vietnamitas”, como um dia David Capistrano chamou a base petista, não estão dispostos a recuar. É com esta postura que se enfrenta o bolsonarismo. O Diretório Municipal é de João Pessoa. Mas, chame de Bacurau se quiser.

(*) David Soares de Souza  é sociólogo e militante do PT

 

 

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