Da revista Esquerda Petista, leia abaixo ou descarregue aqui:

Por Valter Pomar

Só derrotaremos Bolsonaro e os golpistas, só libertaremos Lula,
só retornaremos ao governo, só faremos reformas estruturais e só
caminharemos em direção ao socialismo se o PT mudar de linha
política. Se esta mudança não ocorrer, novas derrotas
virão. E o Partido corre sérios riscos de não sobreviver a
sua “crise dos 40”.

Entre 2016 e 2018 o Partido dos Trabalhadores foi derrotado três vezes: o golpe contra Dilma, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro.

Frente a derrotas tão profundas, esperava-se que o atual grupo dirigente do PT mudasse de linha politica.

Foi o que aconteceu, mesmo que parcialmente, depois das eleições de 1989 e também depois da crise de 2005. Foi o que começou a ocorrer em 2017, no Sexto Congresso do Partido. É o que buscamos fazer, quando convocamos o Sétimo Congresso do PT: fazer um balanço do ocorrido, aprovar uma nova linha política e mudar o funcionamento partidário.

Mas o atual grupo dirigente do Partido resiste a isso. Adiou a convocação do Sétimo Congresso. Aprovou um regulamento que favorece o continuísmo. Apresentou uma tese que defende manter e aprofundar a linha política adotada nos últimos anos. E opera pesado para vencer a eleição marcada para o próximo 8 de setembro de 2019.

Caso o atual grupo dirigente – a tendência conhecida pelo nome de Construindo um Novo Brasil (CNB) – seja majoritário no Sétimo Congresso nacional do PT, certamente haverá muita polêmica sobre se esta maioria resultou do legítimo debate político, de um processo eleitoral em que o peso dos filiados suplanta o dos militantes, de fraudes estrito senso ou de tudo isto junto e misturado.

Polêmicas à parte, se o atual grupo dirigente sair política e eleitoralmente vitorioso do Sétimo Congresso, quais seriam as consequências?

No fundamental, a resposta depende da luta de classes no Brasil e da incidência, em nosso pais, da crise do capitalismo e do conflito entre os Estados.

A situação no Brasil segue muito tensa. Há conflitos na coalizão golpista.

Prossegue a resistência popular. Setores importantes da classe trabalhadora, ainda paralisados, mais cedo ou mais tarde vão se colocar em movimento. E o ambiente internacional contribui para aumentar a tensão. Destas e de outras variáveis decorrem múltiplas possibilidades, mas podemos trabalhar com quatro grandes cenários políticos.

No primeiro deles, persiste a situação atual (lembrando o período 1964-68: não estava claro se o golpe seria aprofundado ou revertido).

No segundo cenário, o país “vira a página do golpe” através de uma aliança entre setores da centro-direita e da esquerda (lembrando aspectos do que ocorreu depois do suicídio de Vargas).

No terceiro cenário, o golpe se aprofunda (lembrando o que ocorreu depois do AI-5).

No quarto cenário, o golpe é derrotado por uma retomada vigorosa das lutas populares.

Por definição, o primeiro cenário (persistência da situação atual) não duraria indefinidamente. Portanto, mais cedo ou mais tarde a situação evoluirá para uma das seguintes alternativas: uma saída pela esquerda, pelo centro-direita ou pela extrema-direita.

Descrente na possibilidade de uma ruptura popular e obviamente contrário ao aprofundamento do golpe, o atual grupo dirigente acredita ser possível um acordo com a centro-direita (por pudor,

alguns falam em “forças para além do centro”). Se vencer o Sétimo Congresso, esta será a estrela-guia da CNB.

Na história recente, ao menos por duas vezes acordos deste tipo foram explicitamente recusados pelo Partido dos Trabalhadores.

Não é possível saber o que teria ocorrido com o Partido, se tivéssemos apoiado a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral ou se tivéssemos participado da composição do governo Itamar. O que sabemos é que, recusando aqueles acordos com a centro-direita, o PT de início amargou um certo isolamento, mas depois cresceu vigorosamente.

O atual grupo dirigente do PT prefere citar, em favor das vantagens de sua tese, o acordo que entregou ao Partido Liberal de José Alencar a vice de Lula, assim como elogiam inúmeros outros acordos, feitos em eleições estaduais e municipais.

Por motivos óbvios, evitam falar do acordo que entregou a vice para Michael Temer, da ala mais tucana do PMDB; assim como preferem não tirar as devidas conclusões da relação entre certas coligações, as limitações programáticas de nossos governos e o decréscimo de nossa bancada federal a partir de 2006. Nem gostam de falar do que ocorrerá, a partir de 2023, em alguns estados atualmente governados pelo PT.

Seja como for, o principal argumento do grupo dirigente em favor de um acordo com a centro-direita parece ser a ausência de alternativa melhor: acreditam que a crise vai se aprofundar, duvidam de uma ruptura popular, logo concluem que ou fazemos um acordo com a centro-direita (em defesa da democracia, do Estado de Direito etc.) ou o golpe se aprofundará.

Quais seriam os efeitos táticos e estratégicos desta almejada aliança com a centro-direita? Evidentemente, não há como ter certeza. Mas o mais provável é que um acordo deste tipo empurre o PT para uma situação de desonra & guerra.

A expressão foi usada por Winston Churchill, em setembro de 1938, quando analisou as concessões feitas por Chamberlain aos nazistas: “Entre a desonra e a guerra, escolheste a desonra e terás a guerra”. Churchill, que preferia fazer a guerra contra os nazistas, acabou assumindo o governo inglês, época em que fez o famoso discurso acerca de sangue, suor e lágrimas.

A busca de uma aliança com a centro-direita golpista é, de um certo ponto de vista, a desonra, Afinal, foi a centro–direita (e não a extrema-direita) quem protagonizou o impeachment e deu sustentação para a condenação e prisão de Lula. Resta saber se a desonra (aliança com a centro-direita) evitará a guerra (o avanço da extrema-direita). Tudo indica que não.

Do ponto de vista estratégico, a dinâmica que gerou o impeachment, a condenação e prisão de Lula, a eleição de Bolsonaro, a ascensão dos cavernícolas e as reformas ultra-liberais não é um acidente casual. Trata-se de uma resposta estratégica da classe dominante, aos impasses do capitalismo brasileiro e internacional.

Esta opção estratégica não será alterada por acordos políticos como os que pretende o atual grupo dirigente do PT. O que ajuda a entender por quais motivos a extrema-direita não reduz a pressão contra o PT. Isso independe da linha que adotemos, das alianças e acenos que façamos.

Para quem gosta de analogias (claro, sempre defeituosas), vale lembrar que a Frente Ampla entre Lacerda e Jango não impediu a radicalização da ditadura militar.

Do ponto de vista tático, uma aliança com a centro-direita não vai contribuir para ampliar a luta social ou fortalecer a luta por Lula Livre. Pelo contrário, estar junto da centro-direita nos comprometeria, em maior ou menor medida, com posições antipopulares como a reforma da previdência. Aliás, a turma liderada por Rodrigo Maia já deu várias demonstrações de quais são seus limites: manter o programa ultraliberal e manter Lula preso (em Curitiba, mas preso).

Este tipo de aliança tampouco contribuiria para produzir um resultado melhor para o PT e para o conjunto da esquerda, nas próximas eleições. Pelo contrário, as concessões à centro-direita tendem a enfraquecer o desempenho do Partido nas municipais de 2020, o que terá efeitos colaterais em 2022. Sem falar que a aliança com a centro-direita implica em seguir tolerando a manutenção de duas táticas na relação com o governo Bolsonaro: a da bancada e a dos governadores.

Outra consequência da estratégia proposta pelo atual grupo dirigente seria o aprofundamento dos problemas organizativos vividos atualmente pelo PT, ou seja, a subordinação do Partido aos mandatos e governos, muitos filiados mas pouca militância organizada, sem instâncias funcionando, uma formação política e uma comunicação aquém das necessidades, sem capacidade de auto-sustentação financeira, mais focado em organizar eleições do que em participar das lutas sociais.

Imaginemos por um momento que esta política proposta pelo atual grupo dirigente tenha êxito. Neste caso, o “Estado de direito” e a “democracia” seriam mantidos às custas de nossa conversão em só- cios de uma nova “transição conservadora”; noutros termos, o deslocamento do Partido muitos graus a mais em direção à centro esquerda, à social-democracia e ao social-liberalismo. Ou seja, o que o atual grupo dirigente do Partido está propondo é um caminho que já foi percorrido pelo PSDB, pelo velho MDB e pelo PCB da “Declaração de Março” de 1958. Na melhor das hipóteses, nos transformaríamos em um partido tradicional. Na pior das hipóteses, passaríamos por situações já vividas pelo PPS brasileiro, pelo PRD mexicano, pelo PCI italiano, todos partidos com um longo passado pela frente.

Em qualquer dessas situações, o que seria da esquerda petista e, de maneira geral, o que será da grande Nação petista, daquela militância de base que não está vinculada a nenhuma tendência, mas que deseja “ter seu partido de volta”?

Provavelmente teremos novas defecções e divisões, por exemplo entre os que se acomodariam no desalento, os que desistiriam de acreditar e disputar, os que seguiriam lutando e acreditando ser possível um cenário ao estilo Jeremy-Corbin- -no-Labour-Party.

Fora do PT, no restante da esquerda brasileira, a perpetuação do atual grupo dirigente e de sua linha política provocaria respostas diferentes, mas certamente alimentaria as (legítimas) expectativas daqueles que pretendem ocupar o “lugar” do PT. Claro que na ausência de grandes lutas sociais, a ascensão de novas (e não tão novas assim) esquerdas transcorreria em clima de slow motion eleitoral. Isto se a extrema direita não prevalecer. Neste caso, o roteiro será mais trash.

Há alternativa? Há, sempre há várias alternativas, até porque a luta de classes sempre nos surpreende com variantes que nossa vista limitada não consegue prever.

A única coisa líquida e certa, na atual quadra histórica, é que sem o PT e contra o PT não há como viabilizar uma oposição de esquerda e uma ruptura popular. Mas só derrotaremos Bolsonaro e os golpistas, só libertaremos Lula, só retornaremos ao governo, só faremos reformas estruturais e só caminharemos em direção ao socialismo se o PT mudar de linha política. Se esta mudança não ocorrer, novas derrotas virão. E o Partido corre sérios riscos de não sobreviver a sua “crise dos 40”.

Por tudo isto, todo esforço vale a pena no sentido de construir uma nova maioria no dia 8 de setembro e no Congresso de novembro. E o ponto de partida para construir uma nova maioria é derrotar o atual grupo dirigente. Dentro do qual, certamente, há quem concorde com parte do que foi dito neste texto. E que se disporia, inclusive, a participar de uma nova maioria. Mas como já foi dito antes, não se faz omelete sem quebrar alguns ovos.

 

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