Por Gustavo Freire Barbosa (*)

Artigo enviado para a Revista Esquerda Petista em 14/12/21 

Ainda em meados de 2018, quando foi anunciado que seria produzido um filme sobre a vida de Carlos Marighella, certo professor de história, famoso por suas posições revisionistas, fez uso do espaço que tinha em uma rádio para descarregar o seu descontentamento. Segundo ele, um filme sobre o militante comunista e guerrilheiro baiano bateria de frente com a Constituição de 1988, já que, uma vez que a mesma proíbe o terrorismo, proibiria também que fosse feito um filme sobre um terrorista. Imagino o que o comentarista diria sobre filmes que tratam de eventos como a Revolução Francesa e, em especial, das cenas que representassem o espetáculo público das guilhotinas, maneira não tão limpinha com que a burguesia se apresentou ao mundo como classe dominante.

Vê-se que o filme sobre Marighella – que superaria toda sorte de sabotagens, ameaças, invasões das filmagens, tentativas de censura e só entraria em cartaz dois anos depois da previsão original – já incomodava quando ainda era um projeto. Pudera. Sendo o protagonista uma figura que foi considerada o inimigo número um da ditadura militar brasileira, difícil acreditar que os herdeiros ideológicos do Comando de Caça aos Comunistas não tentariam reeditar o famoso ataque à peça Roda Viva em 1968, procurando intimidar diretor, produção e elenco mesmo que ainda na fase de produção.

O filme, dirigido por Wagner Moura, se inspira na biografia escrita pelo jornalista Mário Magalhães. Não trata, porém, de toda a vida de Marighella, mas sim dos seus últimos anos, quando, à frente da Aliança Libertadora Nacional (ALN), estava engajado na luta armada contra o regime militar.

Assim, algumas questões interessantes em sua trajetória não foram desenvolvidas no filme, como costuma acontecer em adaptações. Exemplos: sua ancestralidade malê por parte de mãe, descendente dos responsáveis pela Revolta dos Malês em 1835 – de origem sudanesa e muçulmana, um escritor da época definiu os revoltosos como “inteligentes, rebeldes, bonitos e esbeltos” -;  o engajamento contra o governo Vargas e o interventor Juracy Magalhães, o que rendeu sua primeira prisão em 1932; o período parlamentar na segunda metade dos anos 40; a cassação e o rompimento com o Partido Comunista Brasileiro, do qual fora dirigente; o processo que o levou a optar pela luta armada e a crise que o acometeu após o relatório Kruschev em 1956 são alguns desses momentos marcantes.

O rompimento com o PCB chega a ser registrado no filme, ainda que sem muitos detalhes. Marighella, interpretado por Seu Jorge, expressa a um dirigente suas divergências quanto à linha política adotada na oposição à ditadura militar. Suas posições sobre o assunto estão registradas em alguns textos da época, dos quais se destacam “Por que resisti à prisão” (1965), “Carta à Comissão Executiva do Partido Comunista Brasileiro” (1966) e “Crítica às teses do Comitê Central” (1967).

No primeiro, Marighella demonstra não alimentar ilusões quanto à democracia burguesa. Por ter sido instituída pelas classes dirigentes, tal pecado original ajuda a explicar por que os poucos, porém relevantes, direitos conquistados pelas massas populares tenham vindo a fórceps, somente depois de muita luta e mobilização. “Era uma democracia do poder econômico, tutelada pelas forças armadas”, escreve Marighella. E prossegue: “agora, após o golpe de 1º de abril, já não temos aquela democracia – cujas benesses, aliás, eram encaminhadas inexoravelmente para o poder econômico”. Com efeito, as restrições a direitos já existiam antes do golpe, deflagrado com o propósito de aprofundá-las: “o fato real é que direitos e conquistas sociais vão sendo revogados e abolidos, e continuarão a sê-lo enquanto persistir e subsistir a atual ditadura, precária, mas feroz e traiçoeira”.

No segundo texto, Marighella critica a pouca disposição do PCB de enfrentar o regime. Ao pedir sua demissão da Executiva, acusa-a de “ficar à espera das regras do jogo político, burocrático e convencional que impera na liderança”, de maneira que não lhe restou outra opção que não a de “lutar revolucionariamente, junto com as massas”. Marighella acusa seus companheiros de entrarem no terreno da abstração e do agnosticismo kantista ao verem pertinência na primeira parte de “Por que resisti à prisão”, onde há o relato de sua detenção pela ditadura, mas discordarem da segunda, onde constam suas conclusões e formulações políticas e teóricas, contrárias à linha do partido. O fatalismo histórico de que a burguesia ainda seria a força dirigente da revolução ainda estava presente no PCB, orientando para uma política de aproximação. Ao apontar os equívocos dessa concepção, Marighella chega à conclusão de que “a Executiva subordina a tática do proletariado à burguesia, abandona as posições de classe do proletariado. Com isto, perde a iniciativa e fica à espera dos acontecimentos”.

Marighella também não poupa o frenteamplismo: “as ilusões da Executiva – perdoem-me os companheiros – permanecem intactas. Daí por que a vimos refletidas nas ilusões de uma boa parte dos dirigentes e militantes que acreditaram em líderes burgueses, como Juscelino, Jânio, Adhemar, Amaury Kruel, Justino Alves e outros, e tinha esperança da resistência que prometiam fazer contra a ditadura. A disposição da Executiva do PCB em se aproximar desses setores bate de frente com a linha de apontar ao proletariado os criminosos golpistas, denunciar ‘à maneira plebeia’, segundo diria Marx em seu tempo”. Se tivesse se valido do mesmo materialismo histórico duas décadas antes, talvez houvesse confiado menos na legalidade burguesa como obstáculo à cassação do registro eleitoral do PCB.

O filme poderia ter dedicado um pouco mais de atenção a essa discussão, destacando o que Marighella pensava da conciliação com setores golpistas, apoiadores ou ex-apoiadores da ditadura militar como Carlos Lacerda, líder fascista que “quer fazer seu próprio partido, exibindo-se como popular e reformista”. Mas, ainda que não adentre nesse campo com maior profundidade, o fato de ter incomodado ainda em estado embrionário evidencia o mérito da escolha em, na quadra histórica em que nos encontramos, registrar no cinema a vida de uma figura “maldita”, como bem definiu seu biógrafo. Em tempos de governo de orientação neofascista, orgulhoso dos anos de chumbo, a pedra no sapato virou um paralelepípedo.

Não sem razão. Marighella dedicou sua vida exatamente a enfrentar o “bolsonarismo de ontem” devidamente representado por alguns de seus convivas no parlamento, como o petebista Abelardo Mata, que reclamava da “fobia pelo fascismo”, e o deputado Wilson Leite Passos, que expunha com orgulho uma pistola alemã que pertencera a um oficial nazista. “Deve ter matado muito comunista”, gabava-se. Em uma sessão legislativa, ao pedir um aparte a um correligionário do governo Dutra, Marighella ouviu: “não permito que elementos de cor como vossa excelência se intrometam no meu discurso”. Sabemos muito bem quem são e onde estão os herdeiros políticos dessa tradição.

Por mais que tudo isso não esteja no filme, está óbvio que a insígnia de Marighella é mais do que suficiente para causar calafrios e destemperos como o do comentarista mencionado nas primeiras linhas. Abundam relatos de gritos de “Fora Bolsonaro” ao final das sessões do filme, que já é o mais assistido desde o início da pandemia. Fenômeno semelhante ocorreu em 2016 com “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, onde o “Fora Temer” ganhava as salas de cinema quando os créditos despontavam na tela.

Dado o fato de comungarem do mesmo programa de desmonte, morte e destruição, Bolsonaro e Temer hoje estão mais do que alinhados. Em suas entrevistas, Wagner Moura costuma dizer que um dos propósitos do filme é mostrar para quem luta hoje que houve quem lutou ontem. Acerta mais uma vez, ainda que o filme pudesse ter explorado as posições políticas do protagonista que o levaram a pegar em armas, além do seu afinco na luta pelo socialismo.

Só posso recomendar que assistam ao filme e, sobretudo, leiam a biografia “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo”, de Mário Magalhães.

(*) Advogado e professor. Coautor de “Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução”. Escreve para a CartaCapital.

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