Por Patrick Araújo (*)

Recife é um dos casos nas eleições municipais de 2020 em que o Partido dos Trabalhadores sofreu uma derrota eleitoral, mas obteve uma importante vitória política. Contra o boicote e os ataques promovidos por mais de setenta por cento das direções do PT em Recife e em Pernambuco; contra o poder econômico e os aparelhos do PSB na prefeitura do Recife e no governo do estado; contra as forças ditas de centro que guinaram à direita; contra o bolsonarismo e o antipetismo, a candidatura petista de Marília Arraes chegou ao segundo turno e obteve 348.126 votos, que representaram 43,73% dos votos válidos, numa das batalhas mais brutais destas eleições.

No primeiro turno, extremamente disputado, a candidatura petista de Marília Arraes conseguiu chegar com uma diferença de menos de dez mil votos para o candidato do PSB, João Campos, até então favorito em todas as pesquisas que indicavam larga vantagem dele contra qualquer adversário. João Campos alcançava pouco mais de trinta mil votos à frente do candidato do DEM, o ex-ministro da educação de Michel Temer, Mendonça Filho. A pequena margem acendeu todas as luzes de emergência para o PSB.

Assim como fez com Pernambuco em 2018, quando tratou o estado como sua maior prioridade, chantageando o PT para retirar a candidatura de Marília ao governo do estado em troca de sua neutralidade na disputa presidencial, o PSB tratou Recife como sua maior prioridade em todo o país nessas eleições. Mas diferente de 2018, quando eles queriam o apoio e não enfrentar uma candidatura petista, agora consolidaram seu giro à direita no estado construindo uma campanha de segundo turno sustentada no mais puro e reacionário antipetismo.

De tal forma que, pouco mais de 24h depois do anúncio do resultado do primeiro turno, Recife amanheceu enfestada de cartazes apócrifos que atacavam Lula, Dilma e Marília com frases como “PT Nunca Mais”. As inserções de TV da candidatura do PSB passaram a ter como único foco conjurar o antipetismo, de um jeito que sequer as candidaturas do DEM e dos candidatos bolsonaristas chegaram a fazer no primeiro turno. Aquilo que muitos diziam que deveria ser feito pelas candidaturas petistas para combater Bolsonaro, que era nacionalizar e polarizar o debate e a disputa, foi feito pelo PSB em Recife contra o PT.

E quanto mais as pesquisas de opinião passaram a indicar uma virada, com a candidatura petista de Marília Arraes liderando o segundo turno, mais cresceram os ataques contra o PT, sendo lançado mão de fake news e fundamentalismo religioso. Chegou-se a divulgar que Marília teria roubado uma bíblia da Câmara de Vereadores, com panfletos sendo distribuídos nas portas das igrejas evangélicas, dizendo que ela praticou rachadinha em seu gabinete, que ela era contra o PROUNI e que a direção nacional do PT estava de malas prontas para ir “mandar” em Recife.

Todos esses ataques foram proferidos e contaram com o silêncio, cumplicidade e a conivência de partidos da chamada centro-esquerda, como o PDT e o PCdoB, e com o entusiasmo dos aliados à direta, como MDB, PP e Republicanos. Nos últimos dias de campanha e nos últimos debates, o candidato do PSB foi taxativo em afirmar que na sua gestão não teria absolutamente nenhum petista e questionava se era possível contar nos dedos das mãos a quantidade de pessoas do partido que tinham sido presas.

Foi apenas quando a campanha do PSB adotou essa tática que uma parte dos membros da direção do partido, que até então seguiam calados e fora da campanha petista, saíram em defesa da candidatura e do partido. Fizeram isso, no entanto, mantendo os espaços e cargos ocupados pelo PT no governo do estado. Quem também apareceu somente no segundo turno, mas isso merece um comentário à parte, foram os militantes de organizações como a Consulta Popular, Levante Popular da Juventude e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Apesar de tudo isso, o resultado obtido pela candidatura petista em Recife pode ser caracterizado como uma vitória política. Seja por ter conseguido fazer existir a candidatura e fazê-la chegar no segundo turno; seja por ter conseguido mobilizar a base do petismo que foi quem sustentou a campanha, principalmente no segundo turno, contra a maioria das direções locais do partido, a força do poder econômico e a ausência de outras organizações do campo popular que vacilaram no enfrentamento à campanha de ódio promovida pelo PSB.

Com este resultado e a derrota eleitoral, cabe agora travar a luta no interior do partido para que a força expressa nas urnas não seja perdida e diluída na manutenção da aliança com o PSB. O PT precisa romper com a “frente popular” e imediatamente dar seguimento ao caminho que começou a ser construído em Recife. Esse caminho é o da oposição a essa nova oligarquia que tem como um dos elementos de seu projeto a derrota do PT.

Essa oposição deve começar desde já e não se orientar pelo calendário eleitoral. Em Recife e no estado de Pernambuco, a classe trabalhadora tem amargado uma piora brutal em suas condições de vida sem que nenhuma medida seja tomada para enfrentar as barbaridades das políticas ultraneoliberais de Bolsonaro. É por isso que desde já é fundamental o papel de organizar o povo e fazer muita luta social, acumulando forças para derrotar o bolsonarismo e aqueles que lançam mão de seus métodos para derrotar o PT.

(*) Patrick Araújo é integrante do Diretório Nacional do PT.

 

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