Por Luiz Sérgio Canário (*)

Um número pode ser visto de várias maneiras. 500.000 é também meio milhão, 5.000 centenas, 500 milhares. 500.000 também pode ser muito ou pouco. 500.000 grãos de arroz ou de areia podem ocupar pouco espaço e ter um preço pequeno. 500.000 diamantes é muito dinheiro e 500.000 elefantes ocupam um espaço infinito. Florianópolis e Niterói têm 500.000 habitantes cada uma.

Mas 500.000 PESSOAS tem um sentido diferente. Não podem ser valorizadas, não têm preço. São vidas, são potências que podem ser realizadas. Fazem história, produzem riqueza, conhecimento. Constroem famílias, constroem suas vidas, amam, odeiam, choram, vão ao cinema. Fazem cinema, músicas e peças de teatro. Não fazem nada, vivem a vida. Constroem o mundo a partir de suas histórias e das relações que estabelecem umas com as outras e com o mundo que as cerca. Vivem!

Quando 500.000 pessoas morrem não é possível exprimir em nenhum número o significado disso. O que perdemos, cada um de nós e a sociedade em que vivemos, nunca saberemos. 500.000 futuros viraram passado. E deixaram dor, saudade e sofrimento no presente. São 500.000 indivíduos insubstituíveis socialmente e nos seus universos pessoais. E a pandemia de coronavírus matou 500.000 pessoas em nosso país. E segue matando e ainda matará mais.

Uma pandemia é um evento da natureza. Uma doença qualquer que se espalha pelo mundo ou por uma grande região e afeta muitas pessoas. A história está repleta de exemplos. Assim é essa pandemia que estamos vivendo agora. Veio muito rápida e se espalhou por todo o mundo com muita velocidade. É uma pandemia causada por um vírus, uma estrutura biológica muito simples e que nem é considerada uma forma de vida pelos cientistas. Mas altamente contagiosa. Não é muito letal, muitas vezes a pessoa infectada nem percebe que foi contaminada. Mas é muito letal quando as pessoas precisam ir para o hospital. E deixa sequelas que ainda não são conhecidas. Ainda se conhece pouco da doença causada pela infecção desse vírus.

Mas já há vacina e há várias orientações sobre o que se pode fazer para diminuir a quantidade de pessoas infectadas. Uma parte dessas 500.000 pessoas poderia não estar morta. Poderia estar aqui entre nós. A morte dessas pessoas tem um culpado: Jair Messias Bolsonaro. Foi ele que decidiu não comprar vacinas, é ele que ataca a vacinação, que não usa máscara e fala para as pessoas não usarem, é ele que indica o uso de remédios que além de ineficazes podem causar mal, é ele que não só vai para aglomerações como incentiva as pessoas a se aglomeraram, dentre várias e tantas decisões e comportamentos. A terrível marca de 500.000 mortos é responsabilidade direta e intransferível de Jair Bolsonaro, o Bozo. O governo seguiu suas orientações, no que pesem as responsabilidades individuais de cada um.

A quantidade de mortos na conta de Bozo é maior que a de genocídios reconhecidos historicamente. O genocídio na Bósnia, por forças sérvias, nos anos 90, matou 40 mil pessoas. O dos Curdos no Iraque, pelas forças de Saddam Hussein, cerca de 150 mil. Já morreu mais gente aqui que nos dois principais genocídios do século XXI: em Darfur, quando milícias árabes mataram perto 400 mil negros, e no Mianmar, que as forças de segurança mataram cerca de 30 mil pessoas da etnia rohingya. O que está havendo aqui entre nós não tem outro nome que não seja genocídio.

Pode até haver discussões técnicas que caracterizem ou não as 500.000 mortes aqui como genocídio. A lei brasileira define como genocídio:

Lei Nº 2.889, de 1 de outubro de 1956 define o crime de genocídio e determina suas penas. É considerado crime de genocídio:

Art. 1º Quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:

A) Matar membros do grupo;

B) Causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo;

C) Submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial;

D) Adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;

E) Efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo.

Considerações técnicas e leis à parte, Bolsonaro provocou, por ações e omissões, e a CPI da Covid está reunindo provas, 500.000 mortes. Essa culpa nada irá tirar das costas dele. A história será implacável com seu julgamento. E o presente precisa puni-lo exemplarmente. Ele precisa ser imediatamente afastado do governo para poder responder por seus crimes. Gritar Fora Bolsonaro hoje não é somente um ato político pelo afastamento de um presidente ruim. É um brado pela interrupção do genocídio do povo brasileiro em curso por ele e seu governo.

As manifestações de 19 de junho, reunindo dezenas de milhares por todo o país, mostra que o povo está acumulando forças para varrê-lo da presidência.

(*) Luiz Sérgio Canário é militante petista em São Paulo-SP


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

Comente!