Por Marcelo Zero (*)

Em sua característica linguagem castiça, o presidente Bolsonaro afirmou, na latrina de caserna em que se transformou o Palácio do Planalto, que “eles querem nossas hemorroidas”.

O, por assim dizer, pensamento do presidente é tortuoso e de difícil exegese. Porém, no contexto das miasmas externadas na surreal reunião tornada pública, é razoável supor que por “eles” o supremo capitão estivesse se referindo aos “comunistas”, que, após mais de três décadas da queda do Muro de Berlin e mais de seis décadas depois do macartismo, ainda teimam em conspirar para implantar uma ditadura nestas paragens tropicais.

Afinal, no mundo delirante e submerso em fake news do fascismo bolsonarista tudo é possível.  Conspirações comunistas, marxismo cultural, globalismo maléfico, mamadeiras de pênis, terra plana e drogas miraculosas não cientificamente testadas para outros usos, como a cloroquina. O astrólogo da Virgínia, maravilha da intelectualidade tupiniquim, atesta.

Nesse mundo de delirantes fantasias ideológicas, avulta a fantasia singular de que o governo Bolsonaro apoia os interesses populares contra as elites e os políticos corruptos.

Com efeito, em toda a reunião o presidente e ministros reservaram a si mesmos o surpreendente papel de “defensores do povo”.

Nós somos “diferentes”, chegou afirmar o ministro Guedes, egresso das fileiras de organizações populares que defendem o rentismo do proletariado e do campesinato.

Bolsonaro, povero capitão que ingressou com toda sua família no mundo da política, se viu obrigado a fazer “rachadinhas” e a ingressar no doce mundo achocolatado das milícias, já que seus parcos vencimentos de deputado federal não conseguiam satisfazer seu apetite voraz de “atleta”. Uma tragédia popular, sem dúvida.

Weintraub, nosso fulgurante Gene Kelly, disse, confundindo cidade com relações políticas, como muitos, que odeia a Brasília afastada do povo (como se a cidade não tivesse povo) e que colocaria todos esses “vagabundos” na cadeia, a começar pelos ministros do STF. Um homem do povo, semelhante àqueles que habitavam os subúrbios da Alemanha, nas décadas de 1920 e 1930.  Só falta o uniforme das Sturmabteilung (SA).

Contudo, apesar dessa fantasia coletiva de serem gente “diferente”, que defende os interesses do povo brasileiro, o que dizem e, sobretudo, o que fazem indicam o oposto.

Na realidade, para ficar no mesmo nível argumentativo dos “diferenciados” da latrina palaciana, Bolsonaro e sua “coproequipe” de anões desbocados e incompetentes querem mesmo é ir com tudo nas doloridas hemorroidas do povo do Brasil.

De preferência, armados. Armados contra a população, que não tem dinheiro para comprar armas e pode apenas vender sua força de trabalho para os “diferentes”. Querem armas para formar milícias e escravizar o povo. Só faltam as vistosas camisas negras de Mussolini, que poderão ser eventualmente substituídas por camisetas da CBF.

O capitão protervo e sua turma de boçais foram colocados lá para isso mesmo. Essa é a missão política que justifica sua malcheirosa existência e sua presença hedionda no poder.

Guedes, que leu Keynes três vezes sem conseguir entender uma vírgula sequer, façanha intelectual de vulto, considerando-se a clareza de pensamento do Lorde do King`s College, resumiu bem os objetivos.

O negócio é reduzir substancialmente o papel do Estado, aniquilar direitos sociais, sucatear serviços públicos e aumentar as desigualdades, a pobreza e a precariedade laboral.

O negócio é colocar os custos da crise, que se arrastra há anos, nas costas, ou nas hemorroidas, dos trabalhadores, dos aposentados, dos funcionários públicos e da população que necessita de serviços públicos.

Agora mesmo, vão tentar ampliar a redução dos direitos trabalhistas com o projeto da carteira verde e amarela, cheio de cores, mas vazia de direitos. Ademais, Guedes confessou, na reunião, que colocou uma bomba no bolso dos funcionários públicos, seus “inimigos”.

Ante essa sociopatia econômica e política, entende-se a indiferença com relação à tragédia da saúde humana criada pela pandemia, ignorada na reunião, e o desprezo pela saúde do meio ambiente, a ser atropelada pela “boiada” proposta pelo ministro Salles, atitude que vais nos custar muito caro, em termos comerciais e econômicos e políticos.

Outra atitude que vai nos custar muito caro foram as absurdas agressões à China, nosso principal parceiro comercial, com o qual estabelecemos frutíferas relações bilaterais desde 1974, no governo “comunista” do general Geisel.

Mas afinal, nada, nem mesmo a vida dos brasileiros pobres, pode atrapalhar o “ambiente de negócios”.  Dado o evidente corte social, racial e etário dos afetados pelo Covid-19, é melhor deixar a seleção natural seguir seu curso, de forma a promover salutar eugenia da raça e conveniente eliminação de gente inativa e inútil.

No entanto, se o povo e o planeta merecem indiferença, o destino da família palaciana merece a irrestrita solidariedade da máquina governamental.

Aliás, a reunião foi convocada para esse exato propósito: fazer com que não apenas a Política Federal, mas todo o aparelho de Estado proteja o capitão, filho, sobrinhos e demais das investigações sobre “rachadinhas”, lavagem de dinheiro, articulação com criminosos agrupamentos milicianos, interferências na Polícia Federal etc.

A reunião demonstrou claramente que o capitão está, por assim dizer, com as “hemorroidas na mão”, crescentemente isolado e com a popularidade em queda. Nessas circunstâncias, o capitão, encurralado, ataca. Tudo e todos. Ataca a razão, a ciência, a Constituição, o STF, o Congresso, a democracia, a vida etc. Tudo para tentar permanecer politicamente vivo, com o apoio daqueles que querem reabrir a economia a qualquer custo. A morte (dos outros) lhe cai bem.

O capitão está se tornando, cada vez mais, um inconveniente para os poderosos interesses nacionais e internacionais que o colocaram lá. Sua incompetência monumental e a sujeira que arrastra atrás de si o tornaram disfuncional.

É ingênuo pensar, porém, que tais interesses estão realmente preocupados com a restauração da democracia brasileira e com o destino do povo do Brasil.

A bem da verdade, eles desejam que a agenda antipopular e autoritária continue, porém de forma mais discreta e eficiente.

Nesse sentido, o bolsonarismo é o perigoso inimigo tático imediato da democracia e dos interesses populares, mas o ultraneoliberalismo é o grande adversário estratégico.

Ambos querem, talvez com métodos distintos, as hemorroidas do povo.

(*) Marcelo Zero é sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado

(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião do Página 13.

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