Por Valter Pomar (*)

Washington Quaquá

Redes sociais, cada um tem a sua.

Ontem, as minhas estavam particularmente agitadas.

Motivo: as declarações de Quaquá à imprensa, em favor do apoio do PT à candidatura de Arthur Lira à presidência da Câmara dos Deputados.

Arthur Lira é candidato de Bolsonaro.

Quaquá é deputado federal eleito pelo PT do Rio de Janeiro, injustamente cassado, ex-prefeito de Maricá, vice-presidente nacional do PT e autor de uma frase que já considero clássica: “Waguinho não é bolsonarista, é malandro”.

Tal frase foi dita quando o Diretório Nacional decidia se autorizaria ou não uma aliança com um bolsonarista, na cidade de Belford Roxo, Rio de Janeiro.

Quaquá era a favor da aliança, que aliás foi aprovada pela maioria do Diretório. Waguinho foi eleito e, recentemente, foi tomar café da manhã com Bolsonaro. Não sei o que foi tratado, alguma malandragem talvez.

Pois bem: talvez preocupadas com este passado recente, minhas redes sociais estão em polvorosa, reclamando de Quaquá e acusando-o de quase tudo.

Menas, gente! Quaquá não é malandro, muito menos bolsonarista (como alguns exaltados chegaram a insinuar). Quaquá é “apenas” oportunista. E um oportunista mais coerente do que outros oportunistas, diga-se de passagem.

Oportunismo, é sempre bom lembrar, não é um estado de espírito, nem uma falha de caráter. É uma conduta política que consiste em definir a linha política levando em consideração apenas ou principalmente os resultados de uma determinada batalha, sem levar em devida conta o conjunto da obra.

Um grande oportunista foi Pirro, que para ganhar uma determinada batalha, desgastou tanto seu exército, que depois perdeu as batalhas seguintes e, por conseguinte, a guerra. Daí surgiu a famosa expressão “vitória de Pirro”, que por enquanto ainda é mais conhecida do que “Waguinho é um malandro”.

Na trajetória recente do PT, inclusive nos governos Lula e Dilma, tivemos vários casos de oportunismo, com os resultados que todos conhecemos: supostas vitórias táticas, grandes derrotas estratégicas.

Quaquá é um oportunista, porque para ele o que conta é quanto pode extrair de benefícios da batalha da eleição da presidência da Câmara dos Deputados, sem levar em consideração os efeitos disto sobre as demais batalhas políticas, presentes e futuras.

E, num certo sentido, Quaquá é um oportunista coerente, pois ele sabe muito bem que — no âmbito estritamente parlamentar — apoiar Lira pode ser mais vantajoso do que apoiar Baleia ou qualquer outro que venha a ser lançado pelo grupo de Rodrigo Maia.

Como disseram recentemente: temos que apoiar quem vai ganhar!

Neste sentido, apesar de estar cassado e, portanto, não estar podendo exercer a atividade parlamentar, Quaquá opera coerentemente, nos marcos daquilo que algum dia já foi chamado de “cretinismo parlamentar”: achar que não existe um mundo do lado de fora da “Casa”.

Como no ditado, Quaquá está levando a fama, mas ele não é o único a pensar e agir desta forma. Apenas é mais coerente, tira todas as consequências da linha política que ele defende.

Agindo assim, exatamente por todo o alvoroço que causa, Quaquá pode inclusive estar funcionando como boi de piranha para os que defendem a posição de apoiar o candidato de Rodrigo Maia. Posição defendida, inclusive, por alguns que para a plateia gostam de posar de radicais.

Assim, em nome de impedir o mal maior (apoiar Lira), passaria a ser aceitável apoiar o outro, seja lá quem for. Sendo que ambas posições padecem do mesmo problema de fundo: apoiar uma candidatura da direita, no fundo sob o pretexto de que se trataria de um “assunto parlamentar”, que supostamente não afetaria nossa tática geral.

Como se apoiar um candidato da mesma direita que venceu as eleições 2020 não tivesse implicações nas lutas de 2021 e inclusive sobre o que possa ocorrer em 2022.

Espero que a bancada do PT ou, pelo menos, o Diretório Nacional do Partido, não cometam nenhuma das duas formas de oportunismo e se decidam por lançar uma candidatura petista e buscar uma aliança verdadeiramente de oposição para disputar a presidência da Câmara dos Deputados.

Ou é isso, ou no lugar da estátua dedicada aos que no passado recente defenderam “Petista não vota em golpista”, vamos ter que colocar outra estátua, dedicada quem sabe ao Pirro de Maricá.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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