Por Valter Pomar (*)

Baleia Rossi e Michel Temer

O sítio da revista Veja (aquela mesma) tornou disponível, às 18h18 minutos de 29 de dezembro de 2020, uma entrevista com Washington Quaquá.

Quaquá é vice-presidente nacional do PT e deputado federal eleito.

O título que Veja deu à entrevista é: “Para apoiar Baleia Rossi do MDB, PT topa até esquecer o passado”.

Evidentemente, Quaquá não responde pelo título. E como estamos falando da Veja, não tenho certeza nem mesmo de que suas respostas foram corretamente editadas.

Feita esta ressalva (que estendo preventivamente a todos os comentários que farei a seguir), achei a entrevista deveras interessante, uma inestimável contribuição que Quaquá e Veja dão para que nós petistas tenhamos “paz de espírito” entre o Natal e o Ano Novo.

Segundo Quaquá, o PT vai apoiar Baleia Rossi para presidente da Câmara. O motivo?

Segundo ele, “o PT já entendeu por maioria (…) que é preciso ocupar os espaços do Parlamento para defender as nossas posições”.

Uma declaração sincera, embora deva soar pouco heroica para quem defende apoiar Baleia como parte de uma “tática antifascista”.

Perguntado acerca de Arthur Lira, Quaquá diz que “era o defensor de que o Lira tinha condição mais firme para manter acordos”, mas “depois que o Bolsonaro embarcou de vez no Lira, o PT não podia mais defende-lo”.

Quaquá faz questão de enfatizar que “se o partido tivesse fechado com Lira antes de o governo o ter feito (…) o PT teria bebido água limpa”.

Novamente, pouco heroico mas sincero: a equação de Quaquá envolve essencialmente a capacidade de “manter acordos” e o devido timing.

Perguntado sobre qual é a divergência na bancada, Quaquá afirma que “uma parte minoritária acha que o partido tem de lançar candidatura própria para depois desistir e apoiar o Baleia”.

Para Quaquá, fazer isto seria “desnecessário e até infantil”.

Motivo, segundo ele: não estaria em disputa a sociedade, mas sim espaços no parlamento.

A tese pode soar tosca, mas tem lá a sua lógica: afinal, se o objetivo principal é disputar espaços, o melhor é chegar primeiro para poder “beber água limpa”.

O detalhe é que uma parte da sociedade tem o hábito de acompanhar, opinar e avaliar os movimentos que os partidos fazem no parlamento.

Portanto, gostemos ou não, há uma disputa na sociedade, não havendo como escapar de explicar o que estamos fazendo ao lado de golpistas.

É nesse contexto que Quaquá afirma que “o PT está buscando o comprometimento político, de defesa da democracia, da Constituição, enfim, acho que o Baleia está sob influência do Doutor Ulysses Guimarães”.

Não sei com base no que Quaquá afirma isso, mas como todo mundo é livre para achar, eu “acho” que Baleia está sob influência mesmo é do Michel Temer.

Aliás, a própria Veja pergunta sobre Baleia ser do MDB de Temer, articulador do golpe.

A esse respeito, a resposta de Quaquá é absolutamente temerária.

Diz ele: “quando a gente na vida e na política se apega ao passado, a gente perde o futuro. Eu quero ganhar 2022. Não quero rever o golpe de 2016. Ele já aconteceu, entrou para a história e quem o fez vai ser cobrado pela História. Devemos olhar para o futuro. Quem olha demais para o passado não consegue construir o futuro. Na política, quem faz política grande tem para-brisa, não tem retrovisor”.

Lendo este tipo de raciocínio, fica evidente um dos motivos pelos quais sofremos um golpe em 2016: alguns de nós escolheram ignorar alguns ensinamentos do passado.

Sob o pretexto de “não se apegar ao passado”, de não “olhar demais para o passado”, simplesmente não quisemos enxergar o que vinha atrás de nós, em alta velocidade.

O golpe de 2016 é, efetivamente, “parte da história”. Mas a história não cobra nada de ninguém.

Quem cobra (ou desiste de cobrar) responsabilidades são as pessoas, as forças sociais e políticas, as instituições.

Se não fizermos a nossa parte nesse sentido, os crimes do passado seguirão se repetindo no presente e no futuro.

Aliás, um dos motivos pelos quais o cavernícola ocupa o Palácio do Planalto, é porque os crimes do golpe militar e da ditadura não foram devidamente punidos.

No caso em tela, acreditar em acordos com o MDB de Baleia & Temer é pior do que um crime, é um erro.

Pois crimes podem ser cometidos, sem que haja punição. Mas erros, não. Erros custam caro, para todos nós.

Talvez por não entender de onde Quaquá tira tanta segurança, Veja pergunta como a eleição do Baleia pode ajudar o PT em 2022.

A resposta de Quaquá, em síntese de minha responsabilidade, é a seguinte: os documentos a que a defesa de Lula agora vai ter acesso vão deixar “claro” que queriam tirar Lula da eleição de 2018 e “vão devolver a elegibilidade ao presidente. Aliado a isso, precisamos garantir, via presidência da Câmara, que tenhamos democracia”.

Pode acontecer do STF declarar Moro suspeito? Pode.

Lula pode recuperar seus direitos? Também pode.

Mas se isso vier a ocorrer, não é porque surgiu um “documento-bala-de-prata” que finalmente vai deixar “claro” aquilo que os ministros do Supremo estão cansados de saber.

O que pode formar uma maioria no Supremo a favor da suspeição de Moro?

Considero pelo menos três alternativas:

1/uma grande pressão popular;

2/uma garantia de que, mesmo recuperando seus direitos, Lula não disputaria as eleições 2022, limitando-se a apoiar uma das candidaturas;

3/um interesse, por parte de uma das frações do golpismo, de que Lula efetivamente dispute as próximas eleições presidenciais.

Deve haver outras alternativas. Mas pelo menos agora, não está claro para mim qual a relação que Quaquá acredita existir entre uma eventual presidência de Baleia Rossi e o objetivo de “garantir a democracia”, no que diz respeito a devolução dos direitos políticos a Lula.

Talvez por suspeitar que seu próprio otimismo é excessivo, ou talvez por algum outro motivo que ele não explicitou na entrevista, Quaquá diz que Lula é o candidato número um, mas não seria o único candidato do PT.

Afirma também que “precisamos ter um plano B”; que o “erro da eleição passada foi não ter apresentado o plano B com antecedência”; que o plano B desta vez “pode ser o Haddad, o senador Jaques Wagner”. E anuncia que o PT vai informar “ainda em 2021” quem será este plano B.

Não sei quando nem onde se adotou esta decisão anunciada por Quaquá; até onde eu sei, nem o Diretório Nacional do PT, nem a Comissão executiva nacional deliberaram isso.

Notem que não se trata de uma decisão trivial, por diversos motivos:

1/na prática enfraqueceria a luta pela recuperação dos direitos de Lula;

2/tenderia a ocorrer disputa em torno de quem seria esse tal “plano B”;

3/obrigaria o Partido a entrar 2021 em modo-campanha-eleitoral.

Aliás, a última questão de Veja é a seguinte: “Está descartada, portanto, a ideia de o PT abrir mão da cabeça de chapa para compor com outros partidos?”

Quaquá responde que “não somos contra. O problema é matemático. Sempre querem tirar um petista que aparece à frente nas pesquisas para que o PT apoie alguém que esteja atrás. Nós queremos uma frente ampla, mas queremos que o partido que tenha o melhor candidato, com mais chances de ganhar, encabece a chapa”.

Na verdade, o problema não é matemático, é político.

Não haverá frente ampla em torno de uma candidatura petista.

O que existe desde já, isto sim, é uma “frente ampla” que pretende:

1/nos impedir de vencer,

2/nos tirar do segundo turno das próximas eleições presidenciais,

3/nos impedir de ter candidatura.

Com Lula candidato teremos boas chances, mas ainda assim será muito difícil.

Sem Lula, o PT terá que fazer um imenso esforço, provavelmente solitário, para ter alguma chance na disputa presidencial.

E essa chance será maior ou menor, em grande medida, se conseguirmos fazer de 2021 um ano de imensas lutas sociais, políticas e culturais contra o governo Bolsonaro e contra as políticas ultraliberais.

Acontece que apoiar Baleia Rossi não contribuirá em nada neste sentido, muito antes pelo contrário.

Por sinal, estou certo de que Quaquá deve ter falado, na sua entrevista à Veja, do desemprego, da ajuda emergencial, da pandemia, da miséria, da fome, do Fora Bolsonaro, seu governo e suas políticas, entre outros temas do interesse de toda a sociedade.

Por fim: quem acredita mesmo que apoiar Baleia faz parte da “frente antifascista”, deveria exigir que seu patrono Rodrigo Maia faça tramitar imediatamente o processo de impeachment do cavernícola.

Mais fácil, óbvio, é ter candidatura da esquerda (preferencialmente do PT) para disputar a presidência da Câmara.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT

Este post tem 4 comentários

  1. SALMY DA SILVA SOBRINHO

    Apoiar “Baleia” é perder militância e votos nas eleições, o que pode resultar em derrota em 22

  2. Kleber Wagner Machado

    Esse Quaquá tá falando demais. Será um erro o PT ou outro de esquerda não bater chapa. Enquanto isso o PSOL vai ganhando simpatizantes devido essa soberba do PT. Basta ver o que aconteceu em SP com Boulos bem posicionado no 1º turno e o PT ficando bem atrás. Parabéns pelo texto Valter Pomar.

  3. Valter Kunitaki

    Respeito muito as divergências internas dentro do partido. E entendo como salutar que existam várias correntes com pensamentos divergentes, mas que primam pelo diálogo construtivo. Agora, não é aceitável, muito menos tolerável que setores graduados da direção permaneçam abraçados a um infantilismo que já se mostrou deveras mortal. Compor-se com um dos mais corrosivos tentáculos do golpismo continuado, revela-se bem mais que uma ingênua defesa de um “republicanismo” trôpego. Revela-se como um consentimento para as aves de rapina, internas e externas, à direita e à “esquerda”, concluirem com êxito seu desiderato mais visceral que é a completa proscrição do Partido dos Trabalhadores. Candidatura própria do campo popular é um imperativo indeclinável, mesmo que a derrota seja certa. Servirá ao menos para ” marcar posição” e deixar o mais evidente possível que as feridas abertas pelo golpe ainda não foram cicatrizadas. Sem entender o passado, não há como se conduzir no presente, muito menos construir o futuro.

  4. Trindade JC

    Não apoiar Baleia não corre-se o risco de Arthur vencer e a ideologia bolsonarista tomar conta da câmera, ficando mais um reduto aparelhado e dificultando qualquer eleição democrática?
    Tendo a presidência da Câmera e vindo a se reeleger, poderá tentar mudar a lei para um terceiro mandato, com tudo dominado?

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