Por Valter Pomar (*)

No dia 29 de dezembro de 2021, o vice-presidente nacional do PT Washington Quaquá deu uma entrevista atacando gratuitamente a presidenta Dilma Rousseff.

A entrevista pode ser lida no endereço abaixo:

https://www.metropoles.com/colunas/guilherme-amado/vice-presidente-do-pt-diz-que-dilma-nao-tem-mais-relevancia-eleitoral

As declarações de Quaquá foram rebatidas prontamente pela companheira Gleisi Hoffmann, como se pode ler no endereço a seguir:

https://www.metropoles.com/colunas/guilherme-amado/gleisi-hoffmann-rebate-vice-do-pt-e-elogia-dilma-merece-respeito

No dia 30 de dezembro, o assunto também foi objeto de uma nota assinada por 27 secretarias estaduais e pela secretaria nacional de mulheres do PT. A referida nota pode ser lida abaixo:

https://pt.org.br/nota-sobre-dilma-e-a-relevancia-eleitoral-de-mulheres-na-politica/amp/

Além disso, tivemos inúmeras declarações, posts, mensagens e textos, entre os quais:

 1/um de minha autoria, disponível no endereço abaixo:

http://valterpomar.blogspot.com/2021/12/quaqua-ataca-dilma.html

 2/um do “Diálogo e Ação Petista”, reproduzido a seguir:

Repúdio ao ataque de Quaquá contra Dilma

São inaceitáveis as declarações do vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, contra a ex-presidente e companheira Dilma Roussef. Grosseiras, deturpadoras da história e politicamente nefastas.

Comentando a ausência de Dilma no jantar de Lula com Alckmin, Quaquá disse que Dilma é “eleitoralmente irrelevante” e chegou a atribuir-lhe a responsabilidade pelo impeachment. Foi além, afirmando que temos de esquecer o golpe, “desconsiderar o passado para pensar no futuro”

Esquecer o golpe, Sr. Vice-presidente, é repetir os erros, as mesmas alianças, a mesma fé nos inimigos. É desarmar politicamente o partido, num momento crucial.

O Diálogo e Ação Petista repudia as declarações de Quaquá e exige que ele faça uma retratação pública.

Manifestamos nossa integral solidariedade à companheira Dilma, vítima ontem de um golpe e hoje do ataque gratuito de Quaquá.

31 de dezembro de 2021.

Comitê Nacional do Diálogo e Ação Petista

Também no dia 31 de dezembro, Quaquá divulgou um texto a respeito da polêmica, no seguinte endereço:

https://www.brasil247.com/blog/olhem-para-cima

Por uma dessas ironias do destino, estava exatamente assistindo “Don´t Look Up” quando cometi o erro de ler o texto de Quaquá. E simplesmente não consegui terminar de ver o filme, sem antes fazer alguns comentários a respeito das opiniões expressas pelo referido vice-presidente nacional do PT.

Vou pular as partes que são mera agressão, inclusive a piadinha boboca feita com meu sobrenome. Também vou pular a parte em que Quaquá lembra de suas origens (embora sempre me dê vontade de citar a esse respeito o suposto diálogo em que Chu afirma para Brejnev que ambos traíram suas origens de classe). Igualmente vou deixar de lado as várias afirmações demagógicas, tipo “deixar de ser candidato” e se apresentar como vítima de uma tentativa de “calar a sua voz” etc. Tudo isto que deixo de lado é parte importante do estilo literário de Quaquá, mas não acrescenta nada ao debate de mérito.

Sobre o mérito: Quaquá deu uma entrevista falando sobre a ausência da companheira Dilma Rousseff em um jantar promovido pelo grupo Prerrogativas, bem como falando sobre o papel de Dilma na campanha de Lula. Segundo ele próprio relata, Quaquá teria dito o seguinte para a imprensa:

 Não sou da coordenação (que aliás não foi formada) e não tenho influência sobre isso, mas “a Dilma não tem mais muita densidade eleitoral para ter um papel eleitoral central na campanha do Lula”.

Quaquá tem todo o direito de achar isso, assim como tem todo o direito de dar opiniões públicas sobre o que bem entender. Mas quem fala o que quer, está sujeito a ouvir o que não gostaria.

Para começo de conversa: Dilma tem mais densidade eleitoral do que grande parte dos integrantes da direção do PT, Quaquá inclusive. Dilma foi eleita e reeleita presidenta da República e teve cerca de 2,7 milhões de votos para senadora em Minas Gerais em 2018.

Na verdade, se aceitássemos como válido o critério de Quaquá – segundo o qual seria preciso ter “muita densidade eleitoral para ter um papel eleitoral central na campanha de Lula” – Dilma sem dúvida alguma faria parte da lista das pessoas  habilitadas a ter este papel eleitoral central.

Quaquá não respeita seu próprio critério, mas isso não importa, pois o que ele buscava era uma maneira supostamente objetiva para “desqualificar” a presidenta Dilma, ou seja, para sustentar a tese de que a opinião de Dilma não tem relevância no que diz respeito a campanha de Lula em 2022.

Quaquá diz ter falado em seu nome e não em nome do PT. O que é verdade em termos: se Quaquá não fosse vice-presidente nacional, suas opiniões não teriam recebido destaque algum.

Quaquá diz, também, não ter falado “nenhuma mentira” e que não desrespeitou em nenhum momento a ex-presidenta. Entretanto, como lembramos acima, a afirmação de Quaquá sobre a densidade eleitoral de Dilma não é verdadeira; e na opinião de muita gente, eu inclusive, é um “desrespeito” desmerecer o papel dela.

Mas vamos dar a Quaquá o benefício da dúvida e acreditar que ele não tinha a intenção de desrespeitar Dilma. Um problema é que – mesmo depois da reação de muita gente contra seus comentários iniciais– Quaquá segue se fazendo de desentendido.

Contudo, o que foi dito até agora é parte do problema, não o problema inteiro. Pois o maior desrespeito, o maior ataque e o maior erro político de Quaquá não envolve o tema da “densidade eleitoral”; diz respeito ao tema do golpe de 2016.

Segundo o próprio Quaquá, perguntado se “não achava ruim o presidente Lula fazer aliança com quem apoiou o golpe”, ele teria dito o seguinte: “A direita brasileira e o centro romperam o pacto democrático de 1988, é isso foi uma tragédia pro Brasil. Deu no que Deu! Mas também precisamos reconhecer que à presidente Dilma faltou habilidade para tratar com a base aliada no Congresso”.

Ou seja: houve golpe, mas faltou “à presidenta Dilma habilidade para tratar com a base aliada no Congresso”. Ou seja: coloca-se no mesmo plano o golpe e o trato com a base aliada. Não é preciso nenhum esforço interpretativo para concluir que – segundo Quaquá – o golpe aconteceu porque Dilma não teve habilidade.

Historicamente, isso é simplesmente falso. Politicamente, como disse alguém que não posso citar, trata-se de “miopia política da mais desqualificada esta suposição de que com negociação fisiológica tudo se resolve”. E do ponto de vista “pessoal”, é um desrespeito sem tamanho imputar a vítima a culpa pela violência.

Talvez por não conseguir enxergar a lógica por detrás desse seu modo de pensar – culpar a vítima pela violência – Quaquá não entenda o motivo de ter sido criticado por uma nota da secretaria nacional de mulheres do PT.

Um detalhe importante é que Quaquá não inclui, nas frases que afirma ter dito ao jornalista, o seguinte: “Existe um pedaço pequeno do PT que ainda fica nesse negócio de golpe. Política não se faz com ressentimento, se faz pensando em estratégias para transformar a vida do povo” (…) Temos que desconsiderar o passado para pensar no futuro”.

Novamente, vou partir do princípio de que Quaquá está falando a verdade e que, portanto, as frases acima transcritas foram inventadas pelo jornalista. Mas o que ele assume ter dito já é o suficiente para confirmar que ele “viaja na maionese” no debate sobre a densidade eleitoral e que sua “narrativa” sobre o golpe é do tipo “vamos lembrar da culpa da vítima” etc.

O final do texto de Quaquá pode ser resumido em duas partes.

Numa delas, ele critica a (supostamente) esquerda do PT. O método desta crítica é o seguinte: ele faz uma caricatura, depois espanca a caricatura. Com este método ele obviamente vence todas as polêmicas; mas por outro lado torna-se inútil debater suas afirmações.

A segunda parte do final é uma exposição da estratégia, do programa e da política de alianças que Quaquá defende “para os próximos 30 anos”.

Num resumo: ampliar ao máximo as alianças em direção ao centro; depois, rachar as elites e atrair uma parte do empresariado para um programa econômico reformista. Esse programa vai começar de “baixa intensidade”, mas vai em direção a um “Estado de Bem Estar Social pujante e verdadeiro, que avance a consciência popular e sua organização rumo a um socialismo democrático.

Para viabilizar estes objetivos “é preciso construir um pacto que garanta por 30 anos três eixos essenciais para o país”. Ou seja, o caminho para mudar profundamente o Brasil seria um pacto (como ninguém pensou nisso antes!!!) em torno do “fortalecimento da democracia”, “da soberania nacional, com o controle das riquezas nacionais sob comando do Estado” e da “distribuição de renda e riqueza de forma paulatina”.

Atentem para as palavras “pacto” e “paulatino”

Como é óbvio, Quaquá considera que o governo Lula 2023-2026 é o ponto de partida desses “30 anos”: só Lula tem força pra construir um pacto de 30 anos de prosperidade! Prosperidade para o Brasil e para o povo brasileiro! Um pacto Lula + 30! Um pacto para além do próprio Lula biológico.

Mas para isso tudo dar certo, não podemos fazer “um governo de confronto”, mas sim um “pacto” com “forças sociais amplas” etc.

Pacto, pacto, pacto.

Obviamente alguém pode perguntar como devemos fazer para evitar que este “plano” seja atropelado pelas classes dominantes, mais ou menos como ocorreu com Vargas, com Jango e mais recentemente com os governos do PT.

E é exatamente neste ponto que Quaquá vincula o seu plano de 30 anos com seu ataque contra Dilma. Vejamos:

E o que tudo que falei tem a ver com esse histerismo em relação a uma declaração simples e nada desrespeitosa que dei em relação a ex presidenta Dilma?  Tem a ver que não podemos cometer os mesmos erros cometidos. E tem muita gente querendo cometer. Em essência esses que criticam o ato do grupo prerrogativas e a foto do presidente Lula com Geraldo Alkimin. Não podemos nem cometer os erros de:

– Não organizar o povo;

– Não fortalecer os partidos de esquerda e organizações populares;

– Escolher mal ministros de Supremo; STJ etc;

– Dar autonomia político/persecutória/ilegal a PF;

– Deixar que uma corporação se autogoverne e faça o que quer, inclusive escolhendo seu procurador geral, como no caso do MPF;

– Criar leis como a do terrorismo; MP conduzir inquéritos e investigação; Delação premiada sem nenhum critério; etc etc etc…

E nem os erros de:

– descuidar e tratar mal a base aliada no congresso e não saber fazer conta na hora de disputar o comando da câmara e do senado;

– não entender que o congresso, para o bem e para o mal, represente s sociedade brasileira e suas virtudes e deficiências, é que nenhuma sociedade é uma loja de perfume francês, cherosinha… E que é preciso fazer política com base na realidade existente (…)”

O mínimo que se pode dizer do raciocínio acima é tratar-se de uma mixórdia.

Em primeiro lugar: os erros cometidos pelo PT no governo federal possuem muitas causas, algumas das quais têm relação com as concessões feitas aos neoliberais e golpistas.

Portanto, para não cometer os mesmos erros cometidos entre 2003 e 2016, podemos começar não fazendo alianças com golpistas e neoliberais, muito menos dando a um deles a candidatura a vice-presidente da República.

Em segundo lugar, os erros cometidos pelo PT no governo federal não foram cometidos apenas nos mandatos de Dilma, nem são erros individuais da companheira Dilma.

Neste ponto voltamos ao ponto de partida da polêmica toda:  Quaquá pesa a mão contra Dilma.

Em terceiro lugar, a relação de erros citados por Quaquá demonstra que, na visão dele, nosso sucesso depende essencialmente de operar corretamente no plano das instituições de Estado.

A organização popular e o fortalecimento da esquerda são citados no estilo “saudação à bandeira”. Toda a sua lógica é de disputar o Estado a partir do Estado, o que é algo necessário, mas totalmente insuficiente, até porque as instituições de Estado não são neutras nem integradas por gente desatenta, como demonstram os vários “golpes de Estado” ocorridos no Brasil.

Em quarto lugar, a relação elaborada por Quaquá inclui, ainda que de maneira discreta, a defesa de alianças com bolsonaristas e outros setores da direita.

Mas o mais interessante é a seguinte passagem: citar Dilma tem a ver que não podemos cometer os mesmos erros cometidos. E tem muita gente querendo cometer. Em essência esses que criticam o ato do grupo prerrogativas e a foto do presidente Lula com Geraldo Alkimin.

Eu não faço a menor ideia dos motivos pelos quais Dilma não esteve presente no jantar do Prerrogativas, assim como não sei o que ela pensa da candidatura Alckmin. O que sei é que – ao contrário do que diz Quaquá – defender a vice para Alckmin é reincidir em parte importante dos erros cometidos entre 2003 e 2016.

Resumo da ópera: Quaquá está errado ao atacar Dilma, Quaquá está errado na avaliação do golpe e está errado em defender o pacto como estratégia de transformação da sociedade brasileira.

A rigor, Quaquá só me parece “coberto de razão” num único ponto,  a saber, na afirmação feita por ele numa postagem em sua conta do Instagram, no dia 30 de dezembro de 2021. Segue abaixo:

De fato, a opinião de Quaquá não é só dele. Mas não vejo motivo de gáudio no fato de se fazer na vida pública o que outros fazem apenas na privada.

(*) Valter Pomar é professor e membro do diretório nacional do PT

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