Publicamos, a seguir, editorial do mês setembro do Jornal Página 13. A edição na íntegra você pode acessar aqui. Boa leitura!

No dia 12 de setembro, o MBL (Movimento Brasil Livre) convocou atos pelo Fora Bolsonaro. Os atos reuniram um público modesto mas com personagens graduados, entre os quais o governador Leite, o governador Dória e o coronel Ciro.

Mesmo reconhecendo ser positivo que o MBL & aliados façam manifestações de rua pelo impeachment, a maior parte da esquerda preferiu não comparecer a atos convocados por uma organização que – nos últimos anos – esteve na vanguarda das ações da direita.

Vale dizer que a convocatória inicial falava explicitamente que os atos seriam nem-nem: nem Bolsonaro, nem Lula. Este mote saiu da convocatória, mas reapareceu nas ruas, com direito a faixas, palavras de ordem, discursos e inclusive um inflável que mostrava Bolsonaro usando camisa de força e Lula usando roupa de presidiário.

Apesar disso, algumas figuras da esquerda compareceram ao ato do MBL, como é o caso do deputado comunista Orlando Silva e da deputada psolista Isa Penna. Aliás, o PCdoB parece ter decidido formalmente a favor do comparecimento, algo coerente com a linha frenteamplista deste partido.

Esta linha foi explicitada por Orlando Silva, que discursou o seguinte: “não importa que a minha opinião sobre economia, sobre privatização, [seja] diferente da opinião de quem está aqui o que importa é que eu e todo mundo aqui defende a democracia”.

Mais do que demagogia de palanque, trata-se de uma “tese” que fundamenta a versão maximalista da “frente ampla”. Pois uma coisa é dizer que a esquerda e o MBL defendem o Fora Bolsonaro e o impeachment; outra coisa é dizer que a esquerda e MBL defendem a “democracia” e o “direito do povo”.

A verdade é outra: o MBL não defende a democracia e não defende os direitos do povo. O MBL é golpista e neoliberal. O MBL pode xingar Bolsonaro o quanto quiser, mas ambos são antidemocráticos e antipopulares. Quem defende a “frente ampla” com esta gente deveria pelo menos falar a verdade.

A deputada Isa Penna (PSOL) também foi no ato organizado pelo MBL. Fez um discurso cheio de ataques a Bolsonaro. Mas sua crítica ao cavernícola se limitou à pandemia. Isa Penna não falou nada acerca das políticas neoliberais de Bolsonaro, que são apoiadas pelo MBL. Diversionismo que faz todo sentido para quem enfatiza a necessidade de passar por cima do “rancor do passado” e “romper as bolhas”. Mas não faz sentido algum para quem deseja superar os problemas que o povo está sofrendo no presente, problemas que decorrem de Bolsonaro, mas também de seu governo e de suas políticas, que como já dissemos são também as políticas do MBL.

Seja como for, o fato é que os atos convocados pelo MBL foram menores do que os atos da esquerda e muito menores do que os atos bolsonaristas. Portanto, as ruas refletiram algo que as pesquisas já indicavam: a dificuldade de uma “terceira via”.

Entretanto, é preciso lembrar que o verdadeiro MBL – o “Movimento nem Bolsonaro nem Lula” – inclui um quarto elemento: a direita neoliberal tradicional, por exemplo o MDB, o DEM e o PSDB.

O sonho de consumo de quem defende a “frente ampla” é que estes partidos – e os setores da classe dominante por eles representados – aceitem defender o impeachment e/ou se comprometam a apoiar Lula, no primeiro turno, no segundo turno ou no governo.

A preços de hoje, ontem e anteontem, não há sinal algum de que isso ou aquilo possam vir a acontecer. Muito antes pelo contrário. A direita neoliberal tradicional segue temendo que o processo de impeachment paralise as reformas neoliberais. Além disso, a a direita neoliberal não quer contribuir para a reversão das “conquistas” de 2016-2021, reversão que (ainda bem) eles acreditam que aconteceria em caso de vitória de Lula.

Por isso – a preços de hoje – a direita tradicional prefere um acordo com Bolsonaro. Acordo que não é contraditório com o esforço que a direita tradicional vem fazendo para tentar construir uma alternativa eleitoral que derrote Lula (já que, majoritariamente, entendem que o cavernícola está marcado para perder). Tampouco é contraditório, se necessário for, com uma aliança com Bolsonaro nas eleições presidenciais.

O acordo com Bolsonaro só parece contraditório para quem acredita que a classe dominante tem mesmo compromisso com a democracia e com a pureza das instituições. A verdade é outra: os neoliberais colocam em primeiro lugar a liberdade dos mercados e em último lugar as liberdades democráticas.

É isso que explica a “operação mordomo”: preservar as políticas neoliberais, mesmo que às custas de manter um golpista assumido na presidência. Golpista que não foi até o fim (agora) porque tampouco interessa – ao núcleo duro do Partido Militar – cruzar (nesse momento) a “linha vermelha”.

O acordo de Bolsonaro “com Temer, STF e tudo” é péssimo para o povo e para a esquerda. Primeiro, porque cada dia do cavernícola na presidência é mais um dia de sofrimento para a maioria da população. E, também, porque reforça as ameaças contra o processo eleitoral, contra a verdade das urnas, contra a posse de quem vencer, contra um futuro governo de esquerda.

Salvo ocorra fato novo, só haverá impeachment se a mobilização popular crescer enorme e autonomamente. E o povão só vai se mexer se – entre outras coisas – a esquerda vincular a defesa das liberdades democráticas com a defesa da “pauta do povo”. E isto será muito difícil de fazer, se insistirmos numa “frente ampla” com aqueles que são cúmplices de Bolsonaro no ataque aos direitos do povo.

Por isso, devemos jogar todas as energias para que a manifestação do dia 2 de outubro seja uma grande festa de casamento da bandeira do impeachment com a pauta do povo.

Os editores

 

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