Por Rafael Tomyama*

Nestes dias em que o Partido dos Trabalhadores faz mais um aniversário, muita gente parece que foi acometida de um surto de saudosismo e resolveu compartilhar o Manifesto de Fundação do PT.

Sem problema, afinal, mais do que um documento histórico o texto traz os princípios estruturantes do que nos faz até hoje um partido que pretende a superação da ordem capitalista por uma sociedade socialista.

Hã? E o PT ainda se reivindica socialista? Sim, apesar de todas as tentativas de retirar ou amenizar esta concepção, apesar de toda a sua metamorfose burocratizante e institucionalizante, apesar do inchaço e artificialidade que campeia sua vida real, a militância do PT tem reafirmado o seu caráter socialista!

Por isso, soa esquisito que o sítio do partido estampe uma notícia com a seguinte manchete: “PT faz 38 anos tão próximo a seus princípios como sempre esteve” http://www.pt.org.br/pt-faz-38-anos-tao-proximo-a-seus-principios-como-sempre-esteve/

Ora, ao dizer assim, parece que não houve um conjunto de acontecimentos entre o momento fundante e os dias atuais.

Mais esquisito ainda é que até uns dirigentes, que passaram os últimos anos operando na prática a desfiguração dos fundamentos originais do PT, não se sintam constrangidos em se dizerem defensores de uma coerência que não praticam.

Haja cera de carnaúba pra passar em cara de pau.

Não que depois de quase quatro décadas o mundo e o partido não tenham passado por intensas mudanças. Mas supor-se herdeiro ou continuador do que surgiu nos anos 1980, quando se passou a praticar exatamente o oposto, está muito além do que uma reles incompreensão do processo histórico e chega às raias da hipocrisia mesmo.

Talvez haja algo de positivo nisso, afinal. Pode ser que o que defina a necessidade de aparentar a retomada desse “espírito de raiz” seja a confusão dos tempos atuais – a que chegamos em parte por conta dessas escolhas e (des)caminhos.

Parte desta confusão mental advém da queda do socialismo real na extinta União Soviética e leste europeu. Muita gente começou a refluir para um social-liberalismo. Dizendo que o PT deveria renunciar ao seu papel de classe e se tornar uma espécie de “interlocutor social”.

A crescente institucionalização do PT, sua responsabilidade enquanto mandatário e gestor de importantes administrações no país, chegando até a presidência da República com Lula e Dilma, reforçou este alinhamento com uma visão de melhorias progressivas na ordem. Sem rupturas, sem confrontos. Tudo pactuado e negociado com a classe dominante numa transição pacífica e harmoniosa rumo a… sabe-se lá o quê. Já que o socialismo, para estes, virou apenas uma utopia inalcançável.

Um desdobramento dessas teses foi a ilusão de que o “modo petista de governar” fosse algo “republicano”, acima da luta de classes dos conflitos sociais, e que se mantinha em movimento por inércia democrática. Outra prima-irmã dessa bobajada é a tese de que a chegada do PT ao governo representaria uma “revolução democrática”. Se isso tudo fosse verdade, teria havido golpe?

Enfim acabou-se o doce sonho dourado. Todo esse besteirol esvaiu-se num sopro quando a burguesia usou a institucionalidade para aplicar um golpe com fachada de legalidade. O capital financeiro transnacionalizado aplicou a rasteira porque não precisa de distribuição de riqueza para auferir lucros astronômicos. Aliás, prefere a superexploração porque aumenta sua capacidade de acumulação com o endividamento e a usura.

Enquanto isso, o partido abandonou o trabalho de base, a organização em núcleos, a formação política. O partido passou a ser vergonhosamente dependente de doações empresariais. Perdeu sua autonomia e abalou sua credibilidade perante a base. Some-se a desmoralização da maioria dirigente por ações indevidas, à revelia do conjunto do PT. O partido incapaz de uma autocrítica, incapaz de apurar responsabilidades, incapaz de punir quem errou.

Nos dias atuais, um importante dirigente declarou numa reunião partidária que “o PT é o lugar (sic) de quem luta por algo. (sic)“. Quem faz essa fala agora, parece que não só não entendeu nada sobre o golpe que derrubou o governo petista. Muito menos entende o que está em jogo na guerra de classes no mundo.

Mesmo com tudo isso, a generosidade do povo ainda mantém o PT como sua principal referência. É o que indicam as ruas e as pesquisas de opinião. Em função disso, ainda há gente que imagine que esta aprovação signifique um salvo-conduto para insistir nos mesmos erros. Pasmem: Tem até quem insista em aliança eleitoral com golpista, depois de tudo o que houve!

É preciso que a direção partidária não se quede omissa e leniente, como tem sido a tônica da maioria de dirigentes nas últimas gestões. É preciso agir com firmeza quanto a isso. O primeiro teste de fogo vem aí, na eleição.

O PT para se reinventar como força de esquerda sintonizado com as forças populares, precisa sim retomar sua sintonia com a classe trabalhadora. Precisa se livrar dos vícios e acomodações da institucionalidade e atuar como seu instrumento consciente, organizador e independente, de emancipação do povo. Só assim seremos livres da exploração e das opressões. Por nossas próprias mãos.

*Rafael Tomyama é dirigente nacional da tendência petista Articulação de Esquerda

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