Por Wladimir Pomar*

Não são poucos os que, pela esquerda ou pela direita, consideram a atual conjuntura nacional não só extremamente confusa, mas também muito parecida com a de 1989, quando ocorreu a primeira eleição direta para a presidência da república após a ditadura militar. Mas isso não pode esconder diferenças e agravantes perversos do momento presente.

Naquela época, os golpistas militares e civis ainda estavam em retirada estratégica, enquanto as forças populares e democráticas estavam em ofensiva, embora não com a unificação e a radicalidade necessárias. Na atualidade, são os golpistas civis e militares que estão em ofensiva, enquanto as forças populares e democráticas se encontram em retirada estratégica ou estão sem saber o que fazer.

Naquela época, o governo de transição (Sarney) causou um brutal desarranjo econômico e social no país, agravando a recessão econômica e a inflação, intensificando o desemprego e piorando ainda mais as desigualdades sociais. Atualmente, os golpistas à frente do governo, além do brutal desarranjo econômico e social que impingiram ao país, se esforçam em liquidar todas as políticas de afirmação da soberania nacional e de proteção social, assim como as demais conquistas democráticas da Constituição de 1988.

Com sua política e como aprendizes de feiticeiro incompetentes, mais do que em 1989, os comandantes golpistas implodiram a unificação social e política das diversas frações da burguesia e dos extratos superiores da classe média, que haviam obtido no processo de impedimento de Dilma. Implosão que se tornou ainda maior com a política adotada pela fração policial e judicial da classe média para legitimar as operações de perseguição a Lula e ao PT através do indiciamento de grandes empresários e de seus representantes políticos (inclusive do grupo golpista de Temer).

As operações policiais e judiciais da Lava Jato tornaram-se fonte de atritos e de fragmentação política daquelas classes e de seus representantes nos órgãos de poder de Estado e de comunicação social. A multiplicação do número de partidos políticos atualmente registrados no Brasil é apenas um dos aspectos visíveis dessa fragmentação golpista, neoliberal, conservadora e reacionária, expressando os interesses materiais diferenciados das diversas frações da burguesia (nativa e estrangeira) e da fração superior da pequena-burguesia ou classe média de alta renda.

Para piorar essa situação das forças antipopulares, quanto mais Lula e o PT foram atacados, mais Lula colheu os dividendos das lembranças positivas de seus governos. Isso apesar das divisões nas correntes de esquerda, da falta de uma clara política de defesa estratégica do PT e da passividade da classe trabalhadora, dos excluídos e dos setores de baixa renda da classe média.

Criou-se, assim, uma conjuntura em que a sociedade brasileira está politicamente muito fragmentada, talvez pela ausência de uma forte luta de classes. Algo idêntico ao que ocorreu em 1989, com a redução das lutas operárias e populares a partir de 1986. Na atualidade, de poucas lutas sociais de peso, as correntes de esquerda (falsamente divididas entre reformistas e revolucionários), em geral defendem os interesses populares e democráticos e pretendem modificar o atual sistema de poder através de uma Assembleia Constituinte democraticamente eleita, enquanto as correntes de centro e da direita, tanto liberais quanto neoliberais, são adeptos das desigualdades sociais e da manutenção da dependência e da subordinação do sistema de poder aos interesses capitalistas externos.

Por outro lado, uma das novidades da atual conjuntura, em comparação com a de 1989, consiste em que a forte corrente de extrema direita, tendo por base frações da burguesia e da classe média de alta renda, não tem disfarces (Collor era encoberto) e é de caráter fascista. E, como em 1989, defende mudanças radicais (antipopulares e antidemocráticas) no sistema de poder político através de medidas executivas e militarizadas.

Por paradoxal que possa parecer, tais propostas contra o atual sistema de poder atraem parcelas populares importantes, que podem migrar para elas se Lula for impedido de concorrer às eleições. Nessas condições, à esquerda cabe não só se confrontar com os golpistas, cujo principal representante é Meirelles, e com os neoliberais, representados principalmente por Alckmin, mas também com Bolsonaro, que comanda o eleitorado de ultradireita.

Nesse sentido, o conjunto da esquerda atual terá que ficar alerta para não cometer o erro de 1989, quando custou a acreditar no perigo representado por Collor, a considera-lo inimigo principal, a direcionar as baterias contra ele e, pior ainda, a considerar Lula como o que reunia as condições para enfrenta-lo e derrota-lo.

Para comprovar essa dicotomia da esquerda com a realidade perversa da conjuntura atual basta ver como se comportam os imitadores de Brizola e de outros candidatos esquerdistas daquela ocasião, assim como os tropeços estratégicos e táticos da direção do PT na decisão de seu plano B e na possível escolha de um substituto do candidato Lula que pouco tem a ver com a natureza e o perfil do ex-presidente. Talvez não se tenham dado conta da gravidade da situação e estejam fazendo escolhas e ações políticas que não levam em conta os perigos embutidos na presente disputa.

Em 1989, defeitos do mesmo tipo foram em parte superados pela campanha massiva, pelos discursos diretos do candidato Lula, e pela articulação realimentadora dos atos massivos que caracterizaram a campanha com os programas eleitorais gratuitos de rádio e TV. Foi esse tipo de campanha que tirou do principal candidato da direita massas consideráveis do eleitorado popular enganado pela propaganda supostamente antimarajá (ou antissistema).

Talvez essa relembrança histórica possa ajudar o PT e as demais correntes que se consideram de esquerda a reavaliar sua estratégia e suas táticas para enfrentar o perigo à frente.

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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