Po Jandyra Uehara (*)

O objetivo da classe trabalhadora na atual conjuntura deve ser o fim imediato do governo Bolsonaro/Mourão, o que significa barrar a ofensiva de crescente destruição da democracia e o avanço do neofascismo, defendendo os direitos da classe trabalhadora, a soberania nacional, o emprego, o salário e a renda, as políticas públicas e sociais.

Bolsonaro vai desnudando de forma obscena e cruel a essência da política da extrema direita, das odes à ditadura militar à referência explícita ao racismo exterminador da Ku Klux Klan e a símbolos nazistas. As ameaças de extermínio que fazia à época da campanha eleitoral contra petistas, sindicalistas, comunistas, militantes do MST, entre outros ( e é sempre bom lembrar que não tais ameaças não ensejavam, então, qualquer sinal de desagrado por parte dos golpistas do centro político, dos ministros do STF e das “instituições”), agora se voltam contra o Congresso Nacional, o STF e figuras proeminentes da centro direita que apoiaram e continuam apoiando, sem contradições, a politica ultraneoliberal de destruição de direitos, da nação e de benesses crescentes ao capital financeiro, ao agronegócio e ao grande empresariado, mesmo diante da pandemia.

Apesar de todas as barbaridades e a aberração política que representa, o governo Bolsonaro segue existindo porque nenhum setor das classes dominantes e consequentemente de seus representantes no Congresso e demais instituições se dispõe a enfrentá-lo de conjunto. As divergências políticas e a reação aos ataques estão vários degraus abaixo das convergências na política econômica ultraneoliberal. O enfrentamento a Bolsonaro, que supõe a defesa de medidas para por fim ao governo, traz um risco que o andar de cima não quer correr: o desmantelamento da política econômica de Paulo Guedes.

Além é claro, do risco crescente do acirramento da luta social e de que, com ela, apareçam as condições para que a esquerda e o PT se apresentem e se viabilizem novamente como alternativa. Não é à toa que um dos manifestos supostamente em defesa da democracia faz um generoso apelo para que “partidos, seus líderes e candidatos deixem de lado projetos individuais de poder em favor de um projeto comum de país”.  Isto sem uma linha que seja acerca do que seria um projeto comum para o país; fica claro, salvo para quem deseja se iludir, que para o “Juntos” quem deve abrir mão do projeto de poder deve ser a classe trabalhadora.

Embaralhar o jogo, sepultar a possibilidade de uma virada que recoloque no cenário político o projeto democrático e popular, utilizar os partidos e forças populares como linha auxiliar para lhes imprimir legitimidade e verniz democrático, ao mesmo tempo em tentam um acordo para “domesticar” Bolsonaro, é o principal objetivo das propostas que falam em união nacional & frente ampla, sem apresentar posicionamento claro em relação ao governo Bolsonaro e defendendo, portanto, a democracia como abstração e tão pouco se comprometendo com uma pauta mínima de direitos , de defesa de políticas públicas ou da soberania nacional.

É evidente que podem e devem ser feitas ações e movimentos comuns com setores do centro, do empresariado, do congresso nacional, enfim dos segmentos burgueses responsáveis pelo golpe e pela eleição de Bolsonaro, para por fim ao governo do facínora. Mas os que mal comparam a tal frente ampla expressa em iniciativas como o “Juntos”, à luta unitária pelas Diretas Já, escondem o óbvio que o próprio nome traz, ou seja, que o ponto concreto da convergência política era a defesa da emenda constitucional das Diretas.

Todos juntos pela democracia, união pelo Brasil, pelo bem comum ou por “valores humanitários” soam bem aos ouvidos apressados por uma solução mágica, que venha sem luta e sem luta de classes, nas palavras dos defensores desta política de ampliar para o lado de lá, reduzindo a ação do lado de cá. Portanto, é hora de olhar a floresta e não a árvore. Na floresta dos sonhos de alguns, não tem predadores, não tem luta pela sobrevivência, não tem contradições e tão pouco luta de classes. Mas a selva em que vive a classe trabalhadora é outra.

E para fechar a semana de manifestos insossos aqui e manifestações potentes acolá, mais uma pérola: um texto assinado pelas centrais sindicais reforçando a política reducionista dos “amplos”, texto assinado também pelo presidente da CUT, mais uma vez sem consulta à executiva nacional e publicada no jornal O Globo no sábado, 6 de junho.

Neste texto pode-se ler o seguinte: “O caminho que vislumbramos para superar a crise é o da união nacional entre governantes, parlamentares, juízes e promotores, gestores públicos, empresários, líderes comunitários, ativistas, artistas, intelectuais, jornalistas e todas as pessoas de bem, pelo nosso querido Brasil. Só através de uma construção democrática e soberana projetaremos um desenvolvimento assentado em uma economia mobilizada por valores humanitários. Seguiremos juntos, com propostas, diálogo e determinação”.

Ao que parece, finalmente alguns acharam um caminho para “furar a bolha”- se não pode com eles, una-se a eles! Acontece que a tal bolha só será furada (e destruída) com organização e com luta, com as ruas tomadas, quando for impossível ignorar a nossa determinação em virar o jogo, respaldados e legitimados pela classe em movimento. A política dos amplos acordos é reducionista e estreita, e será uma tragédia se a maioria da CUT capitular a essa política burocrática, imobilista e de submissão de classe.

Na CUT é preciso romper com a política de setores da maioria, dar prioridade para a luta social e sindical, para a organização de base, para uma comunicação social independente e classista, para a construção da unidade com os movimentos populares e centrais sindicais que atuam nas Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. Com as Centrais pelegas, as alianças devem ter caráter pontual, em agendas de luta concreta, sem concessão a rebaixamentos políticos e programáticos com a cúpula da burocracia sindical conservadora, como se vê neste “manifesto”.

Para que a luta pela democracia ganhe amplitude real, é preciso priorizar a construção cotidiana de uma frente de esquerda, popular, programática, que realmente represente a maioria, não baseada em pesquisas de opinião, mas porque está realmente enraizada nas lutas do povo e da classe trabalhadora.

(*) Jandyra Uehara integra a direção executiva da CUT Nacional e o Diretório Nacional do PT

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