Por Franciéli Barcellos*

¿Por qué el norte es rico y el sur pobre? El río Bravo señala mucho más que una frontera geográfica. El hondo desequilibrio de nuestros días, que parece confirmar la profecía de Hegel sobre la inevitable guerra entre una y otra América.

Este é um trecho do livro “Las venas abiertas de América Latina”, de Eduardo Galeano, publicado em 1970, que ainda se mantém atual para compreensão dos processos latino-americanos.

O manifesto comunista nos ensina que a “história de toda sociedade existente até hoje tem sido a história das lutas de classes” e, desta forma, podemos compreender que não menos a história da América Latina é a história deste mesmo embate, que até hoje não ganhou a guerra e venceu insuficientes batalhas. Se nossa história começou com os povos indígenas, em seus mais diferentes agrupamentos e culturas, a história que aprendemos na escola, nos livros tradicionais, começa com as invasões, cunhadas de “descobrimentos”, há mais de cinco séculos. Desde lá fomos espaço de exploração de todos os povos e matérias-primas possíveis: minério, açúcar, algodão, café, cacau e, agora, fundamentalmente o petróleo. Em todos esses momentos, em nome de um falso progresso, que jamais pediu desculpas pelo estrago feito nem deixou ganhos aos países e às classes trabalhadoras, em maioria negros e/ou indígenas escravizados que construíram os apogeus econômicos.

É fato que ao longo da história latino-americana sempre houve tentativas de intento popular/revolucionário, nas figuras de Bolívar, Zapata, Prestes e Perón, e que as mesmas foram desmanteladas, mas foi durante os anos de 1950 e 1980 que foi orquestrado o maior golpe contra as “ameaças comunistas” da América Latina. Durante este período se instalaram as ditaduras mais sanguinárias de nossa história recente. Com apoio político e econômico dos Estados Unidos por meio do Plano Condor, países como Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai foram laboratórios do neoliberalismo yankee, enquanto eliminavam grupos revolucionários e lideranças políticas que questionassem o sistema.

A redemocratização chegou, mas a passos cambaleantes e burgueses, o que permitiu que o processo democrático voltasse a ser questionado e fraudado em nossos territórios. Por mais uma crise do capital e, assim, pela necessidade estadunidense de aumentar os campos de exploração de matéria-prima e mão de obra barata, os ataques sob o território latino-americano e seus povos se intensificaram. Em meio à disputa comercial com a China, os donos do capital não vêm medindo esforços, por meio de golpes e de violência, para voltarem a aplicar suas políticas neocoloniais nefastas na América Latina.

É verdade que recentemente está sendo possível acompanhar diferentes movimentações por parte da população latino-americana em descontentamento aos pacotes neoliberais e autoritários propostos e/ou implementados pelas elites de seus países – que aceitaram ser sócias menores dos interesses de uma elite internacional imperialista. No Equador, a população, com destaque os povos originários, esteve nas ruas contra o pacote de maldades de Moreno, no Chile o povo segue nas ruas por um basta à precarização da vida e por uma nova constituinte, e na Argentina, Macri perdeu nas urnas para o projeto peronista de Fernández.

Mas não podemos nos iludir: a Venezuela segue sob ataques, nem equatorianos nem chilenos tiveram vitória efetiva em suas reivindicações, no Uruguai o pleito presidencial vislumbra para a direita, o plano de governo de Fernández para a Argentina é bem mais moderado do que foram os da Kirchner, a soltura de Lula não significa imediata mudança na correlação de forças no Brasil e, além disso, na Bolívia, Evo sofreu um golpe.

A lisura dos processos democráticos, principalmente aos moldes que conhecemos, é peça descartável aos interesses do capitalismo, sistema que em nome das maiores quantias de lucro convive sem preocupações com o conservadorismo, ditaduras, violação de direitos mínimos e violência. O sistema representativo hoje não representa suas populações em raça, gênero e, fundamentalmente, em classe, logo, não representará os interesses destes. Participação popular não é poder popular.

Devemos ter nítido que sim, os governos progressistas reformistas que governaram nossos países nas últimas décadas fizeram muito por suas populações, permitiram a milhões melhorarem de vida, acessarem direitos e bens de consumo necessários à concepção de dignidade e cidadania. Foram estes governos que levaram milhões a acreditarem na política, através de figuras que os representassem, forjadas na luta popular – como com um operário no Brasil, um indígena na Bolívia e um agricultor na Argentina. Porém, não fizeram as reformas necessárias, acreditaram que a conciliação era possível, confundiram poder com governo e se iludiram com os ideais de democracia construídos pela e para a elite. Venezuela e Cuba, países que seguiram o caminho da revolução e não do reformismo, mesmo sob constantes ataques e acusações de antidemocráticos, conseguem manter o poder em nome do povo, em que pesem suas próprias fragilidades.

A luta anticapitalista deve ser por óbvio internacionalista, mas também deve ser radical – às condições e meios específicos de cada país. Devemos alicerçar a luta na base popular, aqui com realce junto aos povos que verdadeiramente construíram estes territórios, as e os indígenas, originários destas terras, e as e os negros/as, trazidos/as forçadamente e escravizados/as. Partir de uma leitura da situação concreta e fazer a crítica – necessária – às estratégias que falharam, uma vez que a concepção leninista do socialismo nos auxilia a compreender que “sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário”, é essencial para se pensar o contexto latino-americano.

Ainda há muito pela frente, se o povo está despertando a não quer pagar com suas vidas uma crise que não é sua, o capital por seu turno está aprimorando e endurecendo seus métodos de exploração. A América Latina é central ao projeto do capital e por isso não basta que “aquí se respire lucha”, devemos construir luta, mas uma luta socialista, que radicalize na disputa dos meios e da cultura, com o apoio do povo – não só nas urnas, mas nas ruas – de forma organizada, mobilizada e consciente.

*Franciéli Barcellos é militante do PT e AE-RS, estudante de Jornalismo na UFSM e diretora de Relações Internacionais da União Estadual dos Estudantes (UEE) do Rio Grande do Sul.

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