Por Marcel Frison (*)

Estamos somente visualizando a superfície da crise provocada pela pandemia do coronavírus, ou seja, as consequências econômicas inerentes às medidas de isolamento social implementadas por governadores e prefeitos pelo território nacional. E, por outro lado, uma evolução, no caso de São Leopoldo (RS), “vagarosa” do número de vitimados pela COVID-19.

Nesta esteira, embalados pela irresponsabilidade criminosa do presidente da República, que se porta como garoto propaganda de uma campanha contra as orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de 99% da comunidade científica, sustentados por premissas falsas, e desesperados pelas pressões econômicas, ampliam-se os movimentos contra o isolamento social.

Descartemos, de imediato, para nos mantermos dentro de um debate racional, as teses propaladas pela horda bolsonarista de que estamos vivendo uma conspiração comunista que quer acabar com o capitalismo utilizando-se da pandemia, ou que se trata de uma gripezinha.

Concentrados na superfície muitos se questionam, se de fato, a epidemia no país acompanhará os terríveis resultados colhidos em outros países como a Itália, Espanha, EUA e os demais que cederam às pressões econômicas e demoraram a adotar medidas de contenção da doença.

Igualmente percebem, não sem alguma razão (e aí se impõe o ponto de vista), de que a dramaticidade do refluxo econômico atualmente é muito maior do que aquele no vivido nas emergências dos hospitais.

Eis que adentramos num enorme paradoxo, quanto mais eficiente é o isolamento social, ou seja, menos se dissemina o vírus e pessoas ficam doentes, mais aparenta que estas iniciativas são irrelevantes e fortalece a pressão pela liberação geral.

E o que deveríamos comemorar, vira arma contra a única estratégia viável de enfrentamento à epidemia defendendo a vida.

Como sabemos existe uma outra estratégia que foi cotejada em muitos países, e foi adotada de início nos EUA e na Inglaterra, centrada no que se tem denominado de “imunidade de rebanho” (nome apropriadíssimo), ou seja, deixa-se livre a contaminação, a mesma atingirá um número significativo da população, a curva crescerá enormemente, muitos adoecerão e morrerão, mas uma larga maioria ficará imune e o ciclo da presença da doença se torna bem mais curto.

Foi abandonada depois que projetaram o número de mortos.

Conscientemente ou não, na cidade de Bergamo na Itália, promoveram uma campanha para que as pessoas mantivessem sua vida normal e ignorassem as solicitações de resguardo.  Quando a epidemia se alastrou e começou a matar em massa, tiveram que acionar caminhões do exército para retirar os corpos e os conduzir à cremação coletiva.

Por razões óbvias, esta é uma estratégia que transita pelo subterrâneo, perambula pelas sombras em meio às elites empresariais e raramente é admitida abertamente. Deriva dela, as formulações do isolamento vertical e do remédio milagroso, que compõem o discurso do presidente.

Para ilustrar melhor o que estou afirmando, estes dias ouvi de um empresário aqui da nossa cidade, em tom de desabafo, “tomara que umas 60 mil pessoas se contaminem para acabar rápido com esta crise”. Reproduzindo o conceito daqueles que querem um ciclo explosivo e rápido de manifestação da COVID-19.

Nos dediquemos a esta hipótese, segundo as estatísticas consolidadas sobre a covid-19 encontramos uma taxa de 5% de necessidade de atendimento hospitalar e uma mortalidade de 2% dos infectados. Num universo de 60 mil, teríamos a necessidade de 3 mil internações hospitalares (5%), cerca de 1200 óbitos (2%) e supostamente imunizaríamos 58,8 mil pessoas.

Repito, para imunizar 58,8 mil habitantes teríamos que matar 1200 leopoldenses. Num período de três meses, representaria, grosso modo, 14 mortos por dia. Isto seria aceitável? Talvez, se estivéssemos tratando de bois e vacas.

Mas, como sabemos, estamos falando de nós, dos nossos avós, pais, filhos, parentes e amigos. E o pior de tudo, numa entrevista com o infectologista Jamal Suleiman do Instituto Ribas, veiculada na manhã d dia 18 de abril de 2020 no GloboNews, o mesmo afirmou de que não existem estudos suficientes que garantam a imunidade para aqueles que contraem a doença, portanto, a sua disseminação ampla poderá potencializar o seu ressurgimento.

Por outro lado, ancorada nesta visão superficial, tem a tese de que o isolamento social é o problema central da economia. E a ilusão de que com abertura generalizada tudo voltará ao normal. Pelo contrário, num cenário de encerrarmos as medidas de isolamento, o aumento exponencial das mortes gerará pânico e as pessoas fugirão das ruas, o comportamento de consumo será ainda mais retraído e forçará que os governos, para não se responsabilizarem pelos óbitos, as retomem de maneira mais radical, suspendendo, inclusive, o funcionamento do setor primário e de outros setores que estão em atividade.

O inimigo da economia (e do povo) não é o isolamento, mas sim o vírus.

A solução passa pelo governo federal que detém 60% dos impostos e os instrumentos macroeconômicos para resolver os problemas gerados pela crise e sustentar os setores duramente atingidos. Para tanto, precisa disponibilizar subsídio direto às pequenas empresas para pagamento da folha e aluguéis, linhas de crédito desburocratizadas, com carência superior a seis meses e taxa 0% de juros, inclusive, para o financiamento de inovações e adaptações dos empreendimentos para enfrentar o momento.

Passa necessariamente pela manutenção dos níveis de consumo e neste sentido, faz-se necessário duplicar os investimentos nos programas de transferência de renda.

Existem recursos para garantir estas e outras iniciativas. Todavia será necessário romper com paradigmas e promovermos grandes transformações, como por exemplo, inverter a lógica da política fiscal sobre a renda, estabelecendo um IR progressivo que atenua o impacto sobre os mais pobres e a classe média e passe a taxar fortemente as grandes fortunas. Isto poderia ser feito, nos padrões moderados dos EUA que capturam cerca de 50% do capital acumulado dos bilionários. No Brasil não chegamos aos 20%.

Devemos encerrar a política de superávit fiscal e colocar os excedentes a serviço da reconstrução da nação. Devemos reformular a Lei de Responsabilidade Fiscal e libertar os gastos públicos. E abrir diversas linhas de financiamento para investimentos em saneamento básico, urbanização, infraestrutura, e na rede de atendimento à saúde, destinadas aos estados e municípios.

Porém, alguns preferem atacar o prefeito que busca proteger a vida das pessoas, enquanto Bolsonaro promove um verdadeiro genocídio.

(*) Por Marcel Frison é ex- secretário de governo da prefeitura de São Leopoldo.

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