Estes setores assumiram uma tarefa de desmobilização popular para qual nem mesmo a direita golpista neoliberal se empenhou e foram derrotados pela realidade

Por David Soares de Souza (*)

Se a partir do dia 8 de março, com a recuperação dos direitos políticos do presidente Lula, o campo democrático e popular recuperou forças, com o sucesso das manifestações do último dia 29 de maio conseguiu sair das cordas e consolidou uma mudança na conjuntura do país ao recuperar, não apenas as ruas, mas sua condição de polo alternativo na política brasileira.

Com derrotas sucessivas desde 2015, desta vez rompemos nossas bolhas, sem baixar bandeiro e chamando as coisas pelos seus nomes: denunciando um governo de extrema-direita, negacionista e por isso, genocida. Ainda em 29 de maio, o jornal britânico The Guardian, o mais influente naquele país, trouxe a seguinte manchete: “Dezenas de milhares de brasileiros marcham para exigir o impeachment de Bolsonaro”. Esta mesma linha foi seguida por outros veículos como a agência Reuters, a revista Forbes, o La Nación, da Argentina, o Le Monde da França, o estadunidense New York Post, o espanhol El País, a rede árabe Al Jazeera do Catar, só para citar alguns veículos, além de agências de notícias da Rússia e Índia.

Talvez ainda na espera de uma terceira via, a cobertura das grandes empresas de comunicação do país foi mais discreta que a cobertura da grande imprensa internacional. Ainda assim, houve repercussão e foram relativamente bem neutralizadas as narrativas que poderiam tornar equivalentes aglomerações as bolsonaristas defendendo a volta da ditadura e a negação da ciência com as manifestações populares contra o governo, a favor da vacina e de auxílio emergencial. Ressaltou-se ainda antes e durante os atos políticos houve intensa divulgação da necessidade do uso de máscaras e álcool gel e distanciamento mínimo entre os manifestantes.

Mas, por que parte da esquerda foi e ainda permanece contrária às manifestações de rua? O argumento formal não é político, é sanitário. Os setores de esquerda que se opuseram aos protestos de 29 de maio agem como se as pessoas que foram às manifestações, enfrentando os seus riscos, ignorassem o que vem acontecendo no país. Falam como se a ida às ruas não fosse exatamente para enfrentamento desta situação.

E não bastava apenas não apoiar. Algumas lideranças agiram contra as manifestações. O presidente do PT da Bahia, Éder Valadares, publicou postagem no perfil oficial do Diretório Regional chamando de insanidade os protestos e os igualando às manifestações bolsonaristas. O Diretório Regional do PT de Pernambuco, presidido por Doriel Barros, foi além e enviou ofício aos Diretórios Municipais informando que o partido atenderia a recomendação do Ministério Público Estadual e solicitou cumprimento rigoroso desta decisão. No caso de Pernambuco, consta que esta decisão do PT não teve apoio da base partidária, mas recebeu apoio do PSOL/PE.

Em português castiço, estes setores assumiram uma tarefa de desmobilização popular para qual nem mesmo a direita golpista neoliberal se empenhou e foram derrotados pela realidade. Neste aspecto, merece destaque o empenho do vice presidente nacional do PT, Washington Quaquá, em desrespeitar quem teve disposição de luta. Quaquá escreveu artigo no jornal O Dia dizendo que “não pode ser a esquerda que vai dar de braços a Bolsonaro, para sair as ruas pisoteando o túmulo de mais de 450 mil mortos e abrindo covas para caber mais tantos outros”. Sim, para este dirigente os manifestantes da esquerda estariam contribuindo com o genocídio.

Washington Quaquá é o mesmo que em artigo publicado na Revista Forum, em 30 de agosto de 2017 assumiu a defesa de um projeto burguês já que a burguesia não o faz. Sim, para ele o melhor seria se tivéssemos mesmo um projeto burguês. Disse Quaquá naquela ocasião: “O Brasil precisa de um novo partido burguês, com programa reformista mínimo, pactuando com as lideranças políticas regionais. Um partido que banque a proposta de uma nova constituinte e que avance na construção do estado burguês de bem estar social. O socialismo é uma aposta futura e de transição. Nesse período, a transição ainda é burguesa e o será por muitos anos. Por isso, é centro da estratégia política montar um partido lulista, burguês e reformista!”

Estudo divulgado no último dia 27 de maio, realizado pela Consultoria Legislativa do Senado para subsídio da Comissão Parlamentar de Inquérito que segue naquela Casa, mostra que entre 29 de dezembro de 2020 e 6 de abril de 2021, sem auxilio emergencial, a média móvel de mortes pela Covid 19 ficou quatro vezes mais alta, saindo de 632 para 2.757 óbitos e atingindo diretamente a população mais vulnerável que precisou se expor para buscar alguma fonte de renda.

Os setores da classe trabalhadora que conseguem manter o isolamento social são cada vez mais minoritários. Hoje, o maior grupo de risco é composto por quem precisa se expor ao vírus diariamente, em transportes públicos lotados, para trabalhar ou tentar trabalhar. Se estes setores da esquerda contrários às mobilizações populares tivessem algum vínculo com esta realidade enfrentada pela esmagadora maioria da classe trabalhadora, teríamos mais respeito com quem foi às ruas. Se não atrapalham, já ajudam.

Porém, há motivos para acreditar que, na prática, a teoria é outra.

Estes companheiros e companheiras foram corretamente entusiastas do movimento “Vidas Negras Importam” nos Estados Unidos, durante o ano de 2020, em reação ao assassinato de George Floyd por um policial branco. Naquele país, houve manifestação de massas nas ruas e hoje podemos afirmar que foram determinantes para a derrota de Donald Trump. Não custa lembrar que em 2020 ainda não tínhamos vacina.

Além disso, a preocupação que tiveram com a pandemia em maio de 2021, não tiveram em outubro e novembro de 2020 nas eleições municipais com campanha de rua e sob o argumento de que era preciso derrotar o neofascismo nas urnas.  Ou seja, resta que apoiar lutas de massas em outro país tudo bem, gera até bom conteúdo para as redes sociais, mas aqui no Brasil só pode ir às ruas em caso de eleições.

Para estes companheiros e companheiras as eleições não são mais um momento de luta política, mas o momento da luta política. Não à toa, nossos partidos de esquerda têm se tornado formidáveis máquinas eleitorais, com bom funcionamento em anos pares, mas com pouquíssima capacidade de mobilização popular. Eleitores sim, trabalhadores em luta, não.

A hipótese para responder à pergunta do título é que este setor da esquerda tem grande dificuldade de se reposicionar politicamente porque, na prática, assume um papel de ala progressista do liberalismo político burguês. Há muito já trocaram Marx por Bobbio, e o seu limite de atuação é defesa das regras do jogo, mesmo que a classe dominante seja a dona da bola. Coerentes com essa linha de atuação, todas suas fichas estão na eleição de Lula em 2022, quando despertaríamos deste pesadelo provocado pela ascensão da extrema-direita e voltaríamos à “normalidade democrática”. Para isso, seria necessário atrair setores do “lado de lá” para uma nova conciliação de classes e movimentos de ruas poderiam até mesmo atrapalhar, causando tensões.

Se esta hipótese estiver correta, estes companheiros e companheiras não entenderam como chegamos até aqui. Logo, é provável que acreditem que conseguiremos sair deixando incólumes todas as políticas aprovadas contra a classe trabalhadora desde o golpe contra a presidenta Dilma, políticas apoiadas pelos setores que, em tese, deveríamos atrair.

Apesar da retória antiestablishment da extrema-direita, o bolsonarismo e a direita neoliberal fazem parte do mesmo sistema e defendem o mesmo projeto econômico. O PT e a esquerda brasileira precisam recuperar o apoio perdido entre setores da classe trabalhadora e construir juntos com suas organizações uma alternativa de futuro que não se dará com um novo pacto pelo alto.  Por isso, não é possível esperar 2022. É preciso se colocar em movimento já! É força que acumularmos agora que determinará o que conseguiremos fazer em seguida. Ademais, dezenas de milhares de vidas teriam sido poupadas se este governo tivesse sido derrubado. Se o povo foi às ruas, à revelia de parte das esquerdas, é porque, como disseram os protestos, o governo é muito mais perigoso que o vírus.

Que possamos aprender com o povo chileno que não esperou uma nova Concertación e foi às ruas em protestos massivos, de início contra o rejuste na tarifa do metrô, avançando para uma pauta econômica e resultando na eleição de uma Assembleia Constituinte que derrubará resquícios da era Pinochet, mesmo em meio à pandemia. E toda nossa solidariedade aos povos que, consciente de seus próprios interesses, se colocam em movimento como faz neste momento o povo colombiano. Vamos às ruas em 19 de junho!

(*) David Soares de Souza é sociólogo e militante do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

 

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