Página 13 divulga o artigo de Marcos Jacoby, militante petista, a respeito do nível de mobilização atual da classe trabalhadora no Brasil.

 

Por que a maioria da classe trabalhadora não está em movimento?

 

Uma das questões que nos perguntamos, por vezes, é porque a ampla maioria da classe trabalhadora não está em movimento, uma vez que nos encontramos diante de uma escalada brutal de ataques aos trabalhadores, aos seus direitos e às suas organizações. Qual seria o motivo da maioria da nossa classe não reagir de forma mais ativa e contundente? De forma suscinta, nos propomos aqui a fazer uma breve reflexão, com a única pretensão de problematizar e trazer alguns elementos para a análise, pois entendemos que se trata de uma questão crucial para a esquerda, com implicações tanto táticas quanto estratégicas.

Quando falamos em “classe em movimento” estamos nos referindo ao contingente de trabalhadores e trabalhadoras que estão se engajando em ações coletivas (greves, paralisações, mobilizações de ruas, atos etc.) que visam resistir aos ataques desferidos pela coalização que levou Bolsonaro ao governo. Certamente, há um conjunto de outras resistências e formas de lutas realizadas no cotidiano do mundo do trabalho: reclamações dirigidas aos patrões, ações judiciais, manifestações individuais, pequenas ações no local de trabalho, atuação nas redes sociais etc. Contudo, são resistências muitas vezes individuais e limitadas para alterar o quadro maior.

Talvez alguém se pergunte, a quem referimos quando falamos em classe trabalhadora? Estamos falando, sobretudo, da classe trabalhadora assalariada (sem propriedade dos meios de produção). O Brasil possui atualmente uma força de trabalho (ocupada e desocupada) próxima aos 104 milhões de pessoas. Se pegarmos a grande São Paulo, a partir de dados de junho de 2019, do DIEESE, a região metropolitana paulista tem uma população economicamente ativa de 11 milhões e 386 mil. Desta, quase 2 milhões (1.890.000) estão desempregados. Dos ocupados (quase 9,5 milhões), 67% são assalariados (com carteira, sem carteira e do setor público), 19% autônomos, 7% de trabalhadores domésticos e 7% “demais posições”.

Usando a grande São Paulo como parâmetro – isto é, 67% de assalariados (e distribuindo na mesma proporção entre os desocupados) – teríamos uma classe trabalhadora assalariada no Brasil na ordem de 70 milhões de pessoas (entre empregadas e desempregadas), num universo de 104 milhões de brasileiros ocupados ou buscando ocupação. Não estamos incluindo trabalhadores proprietários, familiares e autônomos.  Sabendo, também, que muito provavelmente entre os desempregados aqueles que buscam um trabalho assalariado (ou foram assalariados) estão numa proporção superior a referência que adotamos.

Em resumo, os trabalhadores assalariados são amplamente majoritários na sociedade brasileira e tem, potencialmente, uma força social enorme. São muito diversos, heterogêneos e fragmentados sob vários pontos de vista, mas, estruturalmente, possuem interesses comuns e muitos destes estão sob forte ataque. O que nos remete a questão inicial.

Se tomarmos as greves como um indicador da mobilização da classe trabalhadora, entre 2016 e 2018, temos os seguintes números:

AnoGrevesHoras Paradas
20162.093140.214
2017156694.066
2018145369.233

Fonte: Dieese.

Ou seja, entre 2016 e 2018 houve uma redução de 30% no número total de greves e 50% no número de horas totais paralisadas. São números expressivos e que indicam, num período muito recente, uma retração significativa no uso de uma ferramenta importante de luta dos trabalhadores que é a greve. É uma evidência que não se pode desprezar na avaliação da disposição e das possibilidades de engajamento da classe. Há que se salientar que em 2017 houve uma greve geral importante para barrar a reforma da previdência proposta por Temer, bem como uma mais recente, no dia14 de junho, que comparada com a de 2017 não teve a mesma força, o que também levanta sinais das dificuldades a serem transpostas.

Essa debilidade em colocar parcelas maiores da classe em movimento, tem, ao nosso modo de ver, não uma, mas várias motivações e elas são de diversas naturezas. Pontuaremos algumas, que no nosso entendimento são importantes e estão relacionadas com as debilidades da esquerda em geral e com o PT em particular. Ou seja, busco me limitar naquilo que compreendo que a esquerda falhou e foi insuficiente, e que precisam ser corrigidas.  Esse é o nosso recorte, por isso alertamos que não iremos explorar causas mais intrinsicamente relacionadas com as mudanças na organização do mundo do trabalho, determinadas pelo capital (terceirização, precarização, “uberização”), aquelas que são operadas pela direita (como a criminalização da política e da esquerda) ou a crise econômica e social (por exemplo, o quanto o desemprego ou a sua ameaça pode inibir  e frear a disposição de luta).

Começo com uma imagem que me marcou. Nas inúmeras marchas, atos e manifestações entre 2015 e 2016 contra o golpe que cassou o mandato da presidenta Dilma, uma questão parecia estar sempre presente no texto ou subtexto de muitos militantes: “a qualquer momento, amplos setores das massas populares perceberão o que está em jogo. Logo entenderão que um governo legitimo está sendo derrubado pelos inimigos do povo. Logo sairão em defesa de um governo que é seu. E que é seu, também, porque estes governos têm políticas que proporcionaram maior nível de emprego, de acesso à educação, à moradia, à melhores salários e outras conquistas importantes. Tanto é que por quatro vezes consecutivas elegeram esse projeto! Assim, a qualquer momento virão nos socorrer para derrotar esse golpe!” Mas as massas populares faltaram ao encontro. Foi uma luta aguerrida e digna. Mas que não conseguiu mobilizar milhões de trabalhadores e populares, o que seria fundamental para impor uma derrota ao golpe.

Essa é a principal lição que precisamos compreender, não somente do ponto de vista discursivo, mas sobretudo da formulação e da prática política: precisamos reconstruir nossos laços com a classe trabalhadora. Do contrário, amplas parcelas da classe continuarão faltando às batalhas em curso e em outras que virão. É crucial a esquerda se revitalizar, atualizar sua estratégia e alterar profundamente seu padrão de atuação. A inserção e presença da esquerda, mesmo o PT, não está enraizado como deveria na classe trabalhadora. Estamos nos referindo aos locais de trabalho, de moradia, de lazer, de cultura, nos ambientes associativos etc. Em decorrência disso, o trabalho de organização da classe para lutar por seus direitos elementares foi relativamente abandonado, perdendo-se grande parte dos laços orgânicos que existiam entre o partido e aqueles setores sociais.

Por outro lado, a mobilidade social experimentada por milhões de trabalhadores e trabalhadoras nos governos Lula e Dilma – possível , sobretudo, pela ampliação dos postos de trabalho – permitiu o aumento da capacidade de consumo via mercado, aumentando o acesso a bens de consumo individuais, mas não foi acompanhado na mesma proporção pelo acesso a consumo de bens coletivos e públicos (transporte, saúde, equipamentos etc. – fortalecimento da esfera pública), e muito menos por reformas que mexessem com a estrutura de desigualdade social. Além disso, esse processo esteve articulado com a ascensão de igrejas que tem como doutrina a “teologia da prosperidade”. Portanto, não surpreende que muitas pesquisas à época os entrevistados respondessem que antes das políticas públicas, estivessem o mérito próprio e a fé como os grandes responsáveis por sua mobilidade social e melhoria das suas condições de vida.

Lembremos que lideranças e setores importantes da esquerda diziam do “surgimento de uma nova classe média” e que o Brasil do futuro seria uma “país de classe média”. Ou seja, aqueles trabalhadores e trabalhadoras que experimentavam um poder de consumo  maior e melhora no seu padrão de vida eram influenciadas a se identificarem enquanto “classe média”.  Uma pesquisa realizada na periferia de São Paulo pela Fundação Perseu Abramo, em 2017, concluiu que “independente da renda e da ocupação, as pessoas tendem a se auto classificar como pertencentes à classe média, pois a pobreza está associada à falta de moradia e alimento e a riqueza está associada à abundância de patrimônios pessoais e familiares.” Ou seja, justamente quando milhões de trabalhadores alcançam uma melhoria no seu padrão de vida, isso não era celebrado e tratado como uma conquista da classe trabalhadora.

Trago aqui uma imagem elaborada pela Marilena Chauí, num debate ocorrido em 2014: se no início da década de 1960, alguém chegasse na Europa, vindo do Brasil,  seria surpreendido pois – tendo em mente e experiência a precariedade e pobreza enfrentada  pela maioria expressiva da classe trabalhadora brasileira – deparar-se-ia com trabalhadores que tinham carro, viajam, tiravam férias, onde seus filhos tinham acesso a creches e escolas públicas de boa qualidade, frequentavam escolas técnicas e universidades. Mas o curioso, segunda ela, é que essa situação não se articulava em um discurso de que a classe trabalhadora tinha virado classe média. Não se insistia nessa cantilena.

Ou seja, dispor de capacidade de consumo de massas e de direitos sociais não significa mudar de classe. Significava que a classe trabalhadora conquistava seu lugar e seus direitos. Ao invés de trabalharmos nessa perspectiva, durante o período dos governos Lula e Dilma, muitos dos nossos quadros, governantes, intelectuais, militantes e gestores preferiram ficar martelando – e colaborando com a ideologia conservadora – de que a nova classe trabalhadora se tornara uma “nova classe média”.  Essa operação ideológica e cultural teve e tem decorrências. Creio ser desnecessário discorrer sobre os valores hegemônicos na “classe média” tradicional. Por outro lado, contribuía-se para aumentar as dificuldades da classe trabalhadora organizada em elaborar uma cultura e uma identidade de classe frente a essa nova configuração social.

Isso nos leva a outro ponto e que torna inteligível os últimos. A estratégia hegemônica, na esquerda e no PT, desde meados dos anos 1990 até o golpe, foi marcada pela conciliação de classes. E durante quatro mandatos foi possível governar aplicando políticas públicas, as quais efetivamente melhoraram a vida do povo. E frente a uma determinada situação econômica no cenário internacional, foi possível conduzirmos uma política econômica com crescimento econômico combinado com distribuição de renda. No entanto, isso se deu sem tocar nas estruturas do poder político e econômico das classes dominantes. Durante o período estas fizeram oposição, mas toleram os nossos governos e aceitaram seguir as “regras do jogo”. Ao final do segundo turno de 2014, essa não era mais a realidade, e o pior: não tínhamos construídos as condições suficientes para resistir à reação das classes dominantes.

Enquanto foi exitosa a estratégia de conciliação, a maior parte da esquerda jogou quase que toda a sua força na luta institucional, relativizando a necessidade de organização da classe. Se a linha era a conciliação, não havia o porquê se preparar para o acirramento do conflito de classes (que muitos imaginavam que não viria). A própria governabilidade construída seguiu uma lógica institucional/parlamentar, com alianças que abarcavam setores da direita. Não se buscou construir uma governabilidade de outro tipo, que se apoiasse na mobilização social e que desse outro tipo de força ao governo, o que pressuporia muita organização, formação, comunicação de massas e disputa ideológica e cultural.

A crise econômica a partir de 2015 foi muito mais sentida pela periferia e pela massa de trabalhadores mais empobrecidos, que teve arrancadas as conquistas econômicas e, não raro, não tinham uma referência de política de esquerda próxima com quem dialogasse e se organizasse, o que ajudou a pavimentar caminho para que setores significativos fossem ganhos para direita e extrema-direita. Todo esse “déficit” da esquerda, que procurei abordar, pesam agora quando precisamos da mobilização popular e da maioria da classe trabalhadora para resistir aos ataques, sairmos da defensiva e construirmos as condições para voltarmos a ofensiva. Será inócuo militantes e pessoas ligadas à esquerda ficarem lamentando por não encontrarem a maioria da classe em movimento ou acreditar que isso pode ser resolvido com processos eleitorais. Não há atalho, será necessário muita transpiração e inspiração.

 

Marcos Jakoby, militante petista.

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