Por Valter Pomar (*)

Os grandes ilusionistas atraem a tua atenção para um ponto, para que noutro ponto possam fazer a “mágica”.

É, em parte, o que está ocorrendo com as pesquisas sobre a eleição em São Paulo capital.

A grande imprensa e suas pesquisas chamam a atenção da esquerda para a queda de Russomano e para a disputa do eleitorado petista.

Enquanto isso, vão fazendo sua “mágica”: empurrando Covas para uma vitória no primeiro turno.

A manchete da Folha de S.Paulo de hoje é “Covas vai a 32%; Boulos, em triplo empate, está com 16%”.

Repito aqui o destacado por uma amiga: “Em 2016, no mesmo ponto da eleição, João Doria (PSDB) tinha 35% dos válidos (e 30% dos totais), e acabou eleito no primeiro turno –quando o candidato precisa de 50% mais um voto para vencer”.

Ao ler a manchete, os candidatos em “triplo empate” são estimulados a lutar entre si para decidir quem vai ao segundo turno. Mas esta luta (que, por motivos óbvios, não vou chamar de fratricida) não altera a soma geral dos blocos de votos, nem afeta a transferência de votos em direção a Covas, que poderá seguir crescendo em direção a vitória.

Por quais motivos a mágica pode funcionar?

Um motivo: a aceitação acrítica das pesquisas. Aliás, ocorre algo pior: o debate político, o debate sobre os problemas nacionais, estaduais e municipais; o debate sobre o perfil das candidaturas e de seus programas de governo; tudo isto vai perdendo espaço para… as pesquisas. A coisa chega a tal ponto que uma das candidaturas da esquerda dá grande espaço, no seu horário de TV, para um esquete com bonequinhos que fazem uma corrida (infelizmente, a descaracterização não para por aí, mas falar disso fica para outro momento).

Outro motivo: uma percepção indevida sobre a dinâmica da eleição em dois turnos e sobre a composição social das diferentes candidaturas. Aliás, quando comparamos a votação das candidaturas de esquerda em 2016 e em 2020, percebemos que um de nossos problemas continua mais ou menos o mesmo: nosso núcleo duro gira em torno de 20% do eleitorado. Portanto, nosso esforço deveria ser ganhar votos para além deste núcleo duro, conquistar os votos de quem não tem candidato, ou de quem vota nas candidaturas da direita.

Um último comentário: a mais recente pesquisa DataFolha diz que Boulos teria crescido de 14% para 16% e diz que Tatto teria ido de 6% para 4%. É possível que isto tenha ocorrido? Claro, até porque o Paraguai também é aqui. Além disso, o dado é compatível com uma das afirmações feitas acima: a disputa (no caso, fratricida) é, no que diz respeito a forçar um segundo turno, um jogo de soma zero. Mas a mesma pesquisa DataFolha contém várias outras informações (conhecimento entre os eleitores, composição social do voto etc.) que sugerem números diferentes. A mais importante é a famosa margem de erro: 3 pontos percentuais. Logo, Boulos pode ter subido ou pode ter caído, Tatto pode ter subido ou pode ter caído, pois alterações dentro da margem de erro podem simplesmente não ter ocorrido.

Mas, claro, isto faz parte da mágica.

No mundo real, se os paraguaios não atrapalharem demais, quem vai decidir é o voto do povão e a militância vietnamita.

Portanto, vamos a luta: no dia 15, é Tatto 13.

ps1.no país, várias candidaturas petistas crescem na reta final.

ps2.no país, as candidaturas bolsonaristas caem na reta final.

ps3.no país, as candidaturas da direita não bolsonarista são a grande aposta de uma boa parte das elites.

(*) Valter Pomar é professor e integrante do Diretório Nacional do PT


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

Comente!