Por Waldemar Azevedo (*)

O posicionamento que você vai ler é de um profissional que dedicou 34 anos de sua vida para a construção do Sistema Único de Saúde (SUS) e que está preocupado com a vida das pessoas no Brasil e também com alguns amigos que estão se iludindo com o teatro que o Sr. Mandetta, Ministro da Saúde recém demitido, tenta conduzir, enganando parcelas significativas dos brasileiros com a suposição de que era um Homem do SUS.

Em que pese a defesa do isolamento social do povo brasileiro frente à pandemia do COVID, minha discordância é com aqueles que dizem que o Sr Mandetta tinha se proposto a fazer um trabalho sério e tecnicamente correto, pois essa afirmativa não tem base na realidade. Esse “gestor público” foi indicado para ser ministro, pelo governador de Goiás Ronaldo Caiado (ex-dirigente UDR), como é de conhecimento público, e apoiado pelas empresas de medicina de grupo, das Bigs Farmas, entre outros lobbies.

Durante seu mandato de deputado federal foi ativo na articulação do Golpe de 2016, votou a favor da PEC 95, que tirou 22 Milhões da Saúde, sempre foi ardoroso inimigo das políticas públicas desenvolvidas pelo SUS, como as de redução de danos e do Mais Médicos.

Como ministro operou para o desmonte da Farmácia Popular, da Saúde Bucal, do Mais Médicos, da Saúde da Família, da Saúde Indígena, das Pesquisas e Inovação em Saúde, da subordinação da ANVISA. E ainda transformou ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) em um órgão das Operadoras de Medicina de Grupo, chegando em março/20 a assinar junto com Bolsonaro a criação da Agência de Desenvolvimento da Atenção Primária de Saúde – ADAPS. Então, não tenho ilusão sobre esse gente e suas pseudo boas intenções.

O problema é que a realidade é mais cruel do que possamos imaginar. A epidemia chegou aqui no Brasil, apesar da OMS ter informado em Janeiro/20 que estávamos em Emergência Internacional. Ele demorou a tomar as medidas de prevenção e nunca foi a público pedir a revogação da EC 95. Todos nós que construímos o SUS sabemos que poderíamos estar em melhor cenário se o Ministério da Saúde tivesse tomado as medidas preventivas 20 ou 15 dias antes.

As nossas dificuldades aumentam muito, pois temos um presidente adepto da necropolítica genocida, que levará à aceleração de mortes das pessoas pobres e negras em números astronômicos, que vibra com a possibilidade de ter vários corpos estirados pelas ruas, assim como vimos no Equador há poucos dias.

As desavenças entre Mandetta e Bolsonaro não têm o condão de fazê-lo um construtor do SUS que sonho – democrático, altivo, inclusivo e solidário.

Eu e outros defensores da vida e do SUS, que estamos preocupados com a possibilidade de ocorrer um genocídio brasileiro, gostaríamos de propor que no fim da pandemia seja aberto um Tribunal Internacional, semelhante ao de Nuremberg, para que sejam julgadas as autoridades nacionais que tenham contribuído para o genocídio que estamos vendo passar à nossa frente. Temos que fazer isso chegar à OMS, assumir essa bandeira para que possamos ter esperanças em mundo mais fraterno e solidário. Discutir como ficam as patentes das medicações e das vacinas, pois as Bigs Farmas se articulam, em plena pandemia, visando apenas seus lucros.

Neste cenário corremos RISCOS REAIS de chegar ao Reino da Barbárie, onde somente alguns terão direito a receber vacina, e a VIDA SERÁ PARA QUEM PUDER PAGAR POR ELA.

AbraSUS.

(*) Waldemar Azevedo é Engenheiro Sanitarista.

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