Por Valter Pomar (*)

Paladin

Só me faltava essa!

Alguém me perguntou, em mensagem privada, “qual a vantagem de ser o paladino na defesa da candidatura do Tatto?”

Na hora, pensei em dar uma resposta impublicável.

Afinal, “paladino”, segundo o pai dos burros, é um “cavaleiro errante da Idade Média que vagava em busca de façanhas que lhe comprovassem o valor e a correção”.

O próximo passo, depois dessa, é ser chamado de Brancaleone!

Mas depois respirei fundo, fiz coisa bem melhor e lembrei que podemos perder quase tudo, mas nunca a capacidade de tirar sarro de nós mesmos. E, sem sombra de dúvida, minha atitude pode parecer mesmo fora de propósito.

Afinal, não voto em São Paulo, não defendi a pré-candidatura de Tatto, não tenho influência na linha de sua campanha, não acho que perder uma eleição seja o fim do mundo, sempre achei que a eleição de 2020 seria uma pedreira difícil em todo o Brasil e, para completar, meu tempo livre é meio escasso. Sendo assim, por qual motivo mesmo eu estou queimando pestana com este assunto?

Remexendo nas camadas, acho que o motivo é o seguinte: discordo profundamente dos argumentos que embasam a campanha em favor de que o PT retire a candidatura de Tatto.

Não me refiro, portanto, aos argumentos de quem deseja votar no Boulos, porque o acha mais preparado para governar a cidade de São Paulo, porque simpatiza com o PSOL, porque adora a Erundina ou porque, comparando fulano com beltrano, prefere o aluno de Stanislavski. Não concordo com nenhum desses argumentos, mas votar no Boulos, assim como em Tatto e Orlando Silva, são opções legítimas para quem é de esquerda.

Agora, fazer uma campanha pública em favor da retirada de uma candidatura, aí já é algo de outra natureza, que não considero atitude legítima, nem de esquerda. Especialmente quando seus patrocinadores consomem mais recursos nesta campanha, do que na luta por conquistar votos indecisos ou votos de quem, hoje, defende a direita.

Já abordei, noutros textos, vários dos argumentos desta campanha: pesquisas, voto útil, “levar a esquerda ao segundo turno”, “demonstrar que o PT é respeitável”, “fazer do PT novamente um partido de esquerda”, “colocar a parte a serviço do TODO” etc.

Na minha opinião, estes argumentos não são apenas politicamente incorretos; são eleitoralmente incorretos. Num resumo: se prevalecesse o desejo dos autores da campanha, isso prejudicaria os esforços de quem realmente pretende que haja segundo turno, de quem realmente pretende colocar a esquerda no segundo turno.

O mais grave, na minha opinião, são algumas questões estratégicas e de princípio envolvidas nesta polêmica. As questões estratégicas dizem respeito ao papel do PT, na luta de classes em curso no Brasil. Sobre estas, como é óbvio, quem está noutros partidos de esquerda ou está em partido nenhum, dificilmente concordaria comigo. Mas resta uma questão de princípio, que diz respeito a como tratar as divergências existentes no interior de um partido (e, por tabela, no interior da esquerda). Sobre isto, quem é de esquerda, mesmo que milite em partidos diferentes, pode e deveria ter acordo.

Indo ao grão: se o PT de São Paulo tivesse decidido apoiar uma candidatura de centro-direita, eu provavelmente daria apoio à rebeldia ativa, mesmo sabendo que esta rebeldia poderia vir a ser punida.

Mas não é esse o caso. O PT de São Paulo decidiu apoiar uma candidatura do próprio PT. E não um recém-chegado, filiado para ser candidato, mas alguém que pode ser acusado de muita coisa, menos de não ser um típico militante petista. Goste ou não, as decisões foram validadas por ampla maioria, no Diretório Nacional do Partido.

Pois bem: se naturalizarmos que um petista pode, sem deixar de ser petista, abandonar uma candidatura de seu partido para apoiar uma candidatura de outro partido (seja do PSOL, seja do PSB, seja do PSDB, seja de quem for), a conclusão é que o PT deixará de ser um partido político e se converterá, sei lá, num estado de espírito. E como eu aprendi desde criancinha que partido é coisa séria, não consigo ver militantes experientes achando que seu gesto na eleição de São Paulo não terá efeitos que vão além da eleição e além de São Paulo.

Portanto, paladino é a vovozinha. Eu “apenas” estou defendendo o PT e uma postura sem a qual não existirá partido algum de esquerda. Além do que sigo achando que nosso desafio, em São Paulo, não é crescer nos setores médios, mas sim nos setores populares. E quem tem maiores chances de fazer isso é Tatto.

(*) Valter Pomar é professor e membro do Diretório Nacional do PT


(**) Os textos assinados não necessariamente expressam a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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