Editorial: Quando as botas deixam de ser um rumor

O fechamento desta edição de Página 13 coincidiu, não apenas com o aniversário do PT e com mais uma tentativa fracassada de aprovar a “deforma” da previdência, mas também com uma intervenção militar no estado do Rio de Janeiro.

Esta intervenção não vai resolver o problema da segurança pública existente naquele e noutros estados da federação. Pelo contrário, pode agravar e muito a situação.

Mas o mais importante não é ineficiência, o pretexto, a demagogia, nem mesmo os interesses e desdobramentos políticos imediatos envolvidos na decisão. O mais importante é que trata-se de mais um passo na escalada golpista.

Por todos estes motivos, o PT deve atacar e votar contra a intervenção.

Por caminhos tortos, aprofunda-se a ruptura com a institucionalidade anterior ao golpe do impeachment. Se nosso lado não quiser ou não conseguir promover uma ruptura popular, mesmo assim o outro lado vai implementar uma ruptura reacionária.

É isto que não entendem ou fingem não entender aqueles que falam em “plano B”, os que sonham com candidaturas de esquerda que sejam “alternativas” à de Lula, bem como os que questionam o bordão “eleição sem Lula é fraude”.

Antes que alguém diga, vale esclarecer: o PT deve e precisa ter fortes candidaturas a governador, a senador, a deputado federal e estadual nas eleições de 2018.

O problema não reside nisto, mas no seguinte: mesmo supondo que o PT tenha um ótimo resultado nas eleições de 2018, inclusive elegendo Lula presidente da República, isso não teria as mesmas implicações que teve em 2002, 2006 e 2010. Desta vez, se ganharmos, o lado de lá agirá como em 2014 e continuará operando na frequência golpe; e fará de tudo para impedir nossa posse e para sabotar de maneira violenta nosso governo.

Contra isso, não basta ter uma política eleitoral exitosa. É preciso ter outra linha política, acompanhada de níveis de organização e mobilização totalmente diferentes dos que tivemos até hoje.

O mesmo raciocínio vale para o caso de uma derrota total ou parcial nas eleições de 2018: o que virá depois disso não serão menos, e sim mais ataques violentos. Contra os quais adiantarão muito pouco as posições institucionais que tivermos conquistado em 2018, especialmente se estas posições tiverem sido conquistadas numa linha de “respeito à ordem” e “conciliação de classe”.

Não há quem fale contra a necessidade de outra linha politica. Nem quem discorde abertamente de mudar profundamente os métodos de funcionamento do conjunto da esquerda. Aliás, “retomar o trabalho de base” está virando um chavão.

Mas há uma distância enorme e evidente entre o discurso e a prática. Em parte isto ocorre por inércia, noutros casos por falta de imaginação e/ou de experiência, mas principalmente porque um pedaço importante do nosso partido simplesmente não tirou todas as consequências do que ocorreu em 2016 e segue acreditando na possibilidade de mudar o país sem impor uma derrota profunda à classe dos grandes capitalistas brasileiros.

A dificuldade de compreender o papel da classe dos grandes capitalistas não é um problema cognitivo. Não é que as pessoas “não entendam”. O problema é de outra natureza: existe um setor do Partido, assim como existe um setor na classe trabalhadora, que não considera necessário impor uma derrota profunda à classe dos grandes capitalistas. Pelo contrário, acham que o caminho de “derrotar profundamente” nossos inimigos de classe é, além de inviável, prejudicial aos nossos objetivos de curto e médio prazo: seria como o ótimo utópico virando inimigo do bom possível.
Daí provém, igualmente, a indiferença ou até repulsa destes setores a qualquer referência ao socialismo – e sua predileção por palavras de ordem do tipo “nação”, “soberania”, “Estado” e “desenvolvimento”.

Em última análise, é aquela postura que está por detrás das políticas de aliança com forças de direita e centro-direita, por detrás das ilusões republicanas nas instituições do “Estado democrático de direito”, por detrás das atitudes que não tomamos contra o oligopólio da mídia. No fundo, no fundo, tudo remete a um problema de classe, mais exatamente de como tratar a classe dominante.

Parte importante da resposta saberemos nos próximos dias, semanas e meses. A nossa reação frente a uma possível ordem de prisão contra Lula, assim como nossa postura frente às eleições de 2018 terão, para o futuro do PT, um significado similar ao que tiveram a nossa postura frente ao Colégio Eleitoral e frente à Constituição de 1988.

Seja como for, no ano que completa seus 38, o PT seguirá vivendo momentos historicamente inesquecíveis. 

Os editores

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