Por Milton Pomar (*)

Em tempos de Indústria 4.0, o Brasil certamente pode conseguir com a China cooperação muito mais intensa.

Qual China chegará em 2049, e em que mundo? No que nos diz respeito, os próximos 30 anos ganham importância extraordinária, porque a tendência é a China se distanciar tanto do Brasil nesse período, que assusta pensar. A menos que até lá ocorra um cataclisma no “Império do Centro”, ou que o Brasil volte a crescer na velocidade necessária, a China será a maior potência tecnológica do mundo, a maior economia e o maior mercado consumidor, e estará tão avançada em tantos aspectos que o seu maior fornecedor de minérios e matérias-primas agrícolas da América do Sul talvez então continue a ser não mais do que isso.

Explico: agora que completa 70 anos da fundação da República Popular (RPC), dia 1º de outubro, a China comemora seus feitos não apenas olhando para trás, mas principalmente mirando em 2049. Sim, ela está focada nos 70 anos das Reformas, que ocorrerão dentro de 30 anos. Os discursos recentes dos dirigentes chineses não deixam margem para dúvidas: até lá deverão ter toda a população acima da linha da pobreza, reduzido as desigualdades econômicas e sociais entre as populações do litoral e do interior, modernizado a agricultura e revitalizado as áreas rurais, questões que ainda hoje são o “calcanhar de Aquiles” da China e preocupação permanente dos governos nos três níveis.

Analisando as grandes ações da China para esse próximo período, fica evidente que a sua estratégia se baseia em cinco pilares:

1) o programa de conectividade mundial, por ferrovias e via marítima, conhecido pela sigla em inglês BRI (“Belt and Road Initiative”);

2) o programa de modernização do setor industrial e de desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação, denominado “Made in China 2025”, (apesar do 2025, o término previsto será em 2049);

3) o financiamento de infraestrutura em dezenas de países, principalmente da Ásia Central e da África;

4) a participação acionária em empreendimentos privados e públicos em todo o mundo;

5) a articulação política permanente, para garantir que tudo isso aconteça.

O Brasil pode continuar na estação ferroviária do Século 20, ou entrar nesse trem de alta velocidade e beneficiar-se dos avanços que o desenvolvimento chinês pode proporcionar para o país em todas as áreas, priorizando educação, ciência, tecnologia e inovação, como fez a China há 40 anos – no período 1978/2018, foram estudar no exterior 5,8 milhões de jovens chineses, dos quais mais de 3 milhões já retornaram.

Em tempos de Indústria 4.0 e celulares 5G, o Brasil certamente pode conseguir com a China cooperação muito mais intensa, que lhe permita romper com os fatores limitantes do acesso e custo do capital e logística insuficiente e precária, itens que mantêm o Brasil no 17º lugar, entre 18 países analisados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) no Ranking de Competitividade Industrial 2018/2019 – nele, a China aparece em 4º lugar.

Trabalhando com planejamento de Estado, horizonte de 2050 e planos quinquenais, a China tem todas as condições para “chegar lá” nos próximos 30 anos.

(*) MILTON POMAR , profissional de marketing e geógrafo. Mestre em “Estado, Governo e Políticas Públicas” (Flacso/SP).

Publicado originalmente em: www.amanhã.com.br

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