Por Lucas Reinehr (*)

Nos últimos meses, algo que tem me chamado atenção é a forma como certas vozes da direita brasileira almejam uma espécie de redenção. Diante de tudo que tem acontecido no Brasil pandêmico (ou apocalíptico), muitos jornalistas, políticos e outras lideranças buscam, cada vez mais, se distanciar de Bolsonaro através de posicionamentos nas redes sociais ou declarações nos meios de comunicação. Fazem campanha pela vacinação, criticam o governo e maldizem o presidente na esperança de se redimir. Alguns até reclamam “não votei em Bolsonaro em 2018”. Como se o voto em si fosse o único problema.

Apesar das inúmeras tentativas de se distanciar do presidente e de se isentar da responsabilidade por sua eleição, estas figuras, no fundo, sabem que fazem parte da lista de progenitores de Bolsonaro. Lista, é claro, pois o presidente não possui apenas um pai e uma mãe. Pelo menos, não no sentido a que me refiro neste texto. Como criatura política, Bolsonaro tem pais, mães, padrinhos e uma lista incontável de pessoas físicas e jurídicas que contribuíram para sua concepção, gestação e nascimento. Agora, passados mais de 2 anos desde o processo eleitoral fraudulento que lhe deu a vitória, os progenitores querem se desfazer da guarda do filho delinquente e rebelde. Querem lavar as mãos e deixar órfã uma responsabilidade que é sua.

Devemos entender Bolsonaro não apenas como mero resultado de sua própria trajetória ou dos esforços da extrema direita. O presidente genocida é a síntese da construção de inúmeros antagonismos propagados pela mídia hegemônica e seus porta-vozes no último período. Do kit gay à criminalização do Movimento Sem Terra, da guerra às drogas à Operação Lava Jato, da ideologia de gênero à criação de diversos pânicos morais, Bolsonaro é resultado desta ultrapolítica difundida pela direita brasileira como forma de enfraquecer o PT e a esquerda.

Para viabilizar a implementação do programa ultraneoliberal e servil, precisava-se enfraquecer a esquerda. Para enfraquecer a esquerda, precisava-se de um inimigo interno: o PT e tudo que o partido representa. Soma-se a isso os nossos erros estratégicos, parecia o cenário perfeito para tirar a esquerda de cena e colocar em prática as reformas neoliberais. O que a direita não esperava, era que com a criação deste “inimigo interno”, surgiria também o messias do infortúnio. Ou será que esperava?

Tentar se isentar da responsabilidade por ter ajudado a criar Bolsonaro ou atribuir seu surgimento ao PT e à esquerda é covardia desses indivíduos. Indivíduos, não sujeitos, pois não merecem ser chamados assim. Quando a direita brasileira se articulou para construir hegemonia cultural no Brasil, não poupou esforços para moldar na população uma mentalidade anti-esquerda, pró-violência e negligente com a noção de cidadania. Tudo que Bolsonaro prega. Propagaram discursos orgásmicos de criminalização ao PT, de ódio aos pobres, de misoginia à presidenta Dilma, e agora querem fingir não reconhecer sua prole.

O nascimento de Bolsonaro não se restringe a votos no processo eleitoral de 2018, como tentam afirmar alguns para aliviar suas consciências medíocres. Sua ascensão está diretamente ligada aos discursos alimentados nos últimos anos, que vão desde a agenda econômica a questões ligadas aos direitos reprodutivos das mulheres, à luta contra a homofobia e o racismo, entre outros temas. Além disso, na árvore genealógica, é inegável o parentesco de Bolsonaro com sua avó, a ditadura brasileira. Para nos ajudar a ilustrar esse pensamento, convoco a seguinte citação de Bernardo Kucinski no prefácio entitulado  “O poder da imprensa e os abusos de poder”, do livro “Regulação das comunicações: história, poder e direitos”, de Venício A. de Lima:

 No Brasil, os três grandes jornais de referência nacional – Estadão, Folha de S. Paulo e O Globo, e mais alguns importantes diários regionais como o Correio Braziliense e Zero Hora, de Porto Alegre, e ainda a revista Veja e os canais de televisão e rádio do grupo Globo – formam hoje um compacto político-ideológico em defesa dos fundamentos do modelo econômico chamado neoliberal: privatizações, terceirizações, flexibilização das leis trabalhistas e desregulação do movimento de capitais. Também combatem em uníssono as principais políticas públicas do governo, como o Bolsa Família, o Plano Nacional de Direitos Humanos, as cotas nas universidades e a política externa. Tornaram-se assim substitutos de um grande partido político conservador e protagonistas centrais na cena político-eleitoral.

O trecho, de 2014, nos dá dicas sobre o que estava por vir. A lacuna criada pelos meios de comunicação deu lugar a este partido político conservador, que alguns anos mais tarde, pariu Bolsonaro. De peça em peça, os ataques da mídia, a criação de grupos como o MBL, as manifestações em verde e amarelo e outros processos, montaram o quebra-cabeças que temos hoje: um governo genocida, negligente e irresponsável. A direita tradicional, embora tente jogar a criança com a água fora, tem grande responsabilidade pelos mais de 250 mil mortos da pandemia e pelos milhões de brasileiros que sucumbem à fome e ao desemprego hoje. Araram a terra e plantaram as sementes do que colhemos hoje.

O que devemos compreender desta situação é que Bolsonaro não é fruto do mero acaso ou de grandes articulações da extrema direita e dos militares, embora estes setores tenham tido importância e ganham cada vez mais protagonismo em seu governo. Bolsonaro, como liderança política de um tempo histórico, é principalmente resultado das ideias propagadas durante este período: a narrativa do capitalismo em sua face ultraneoliberal, financeirizado e oligopolista.

Como nos escreve George Monbiot,

A ideologia que domina nossas vidas não tem nome, para a maioria das pessoas. Mencione-a numa conversa e você verá que seu interlocutor dá de ombros. Mesmo que tenha ouvido o termo antes, encontrará dificuldade para defini-lo. Neoliberalismo: você sabe o que é isso? O anonimato é tanto sintoma quanto causa de seu poder.

A questão sobre Bolsonaro é, portanto, mais complexa do que seus progenitores gostariam. Não se resume ao 17 pressionado na urna em 2018 ou aos motes como “Bolsodória”, “Sartonaro”, entre outros. É sobre o endossamento de um discurso que nos levou ao precipício. Seus responsáveis podem até se desculpar ou dizer que “não imaginavam” que depois da curva residia o fascismo. Para nós, isto pouco importa, afinal, suas tentativas de redenção não nos servem e tampouco alteram a conjuntura de forma favorável para o nosso lado. Aos progenitores de Bolsonaro, desejamos uma derrota global e o esgoto da história. Afinal, tentam a qualquer custo se diferenciar do filho delinquente, mas este apenas herdou dos pais o anseio de agradar as elites capitalistas, a subserviência ao mercado financeiro e a covardia.

Derrotar Bolsonaro, portanto, passa por uma tarefa ainda maior: derrotar a hegemonia neoliberal que sai da boca de figuras da Globo, da Folha e outros veículos e apresentar à população uma alternativa socialista. O impeachment e a derrubada da figura de Bolsonaro são importantes como ponto de partida, mas só estarão ao nosso favor com a acumulação de forças para o fim de todo seu governo e a construção de outro projeto de sociedade. Para isto, não podemos ter ilusões de que é possível fazer alianças com estes setores que outrora seguraram Bolsonaro no colo. Entre os criadores e a criatura, há mais semelhanças do que diferenças.

(*) Lucas Reinehr é militante da JPT e diretor da UNE


(**) Textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião da tendência Articulação de Esquerda ou do Página 13.

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