Por Thaís Ribeira de Paula (*)

 

INTRODUÇÃO

Uma das maiores contribuições de Karl Marx às ciências sociais foi o rompimento com as concepções naturalistas que as orientavam e hegemonizavam desde os clássicos até meados do século XX. Seu esforço teórico-científico em mostrar que as leis que regem a economia e a sociedade são, em realidade, construções históricas, e não sistemas gerais, a-históricos (como se pretendia apresenta-las ao fazer um paralelo com as ciências naturais), foi fundamental para consolidar a compreensão de que a realidade pode ser mudada e impulsionar as lutas da classe trabalhadora por um outro tipo de sociedade.

A consolidação do modo de produção capitalista e a necessidade de conservar a ordem vigente de dominação e exploração levaram, contudo, a uma imensa disputa no campo teórico que se arrasta até hoje, no sentido de marginalizar e, frequentemente, deslegitimar o aporte de Marx e outros, em favor da manutenção da hegemonia teórica liberal essencial à defesa de que as coisas são como são e não se pode muda-las, e desdobramento imediato da compreensão de que a natureza e suas leis absolutas, ao fim e ao cabo, tudo determinam.

A busca liberal para encontrar na natureza as justificações de fenômenos sociais, ou a própria redução da dimensão social da vida da humanidade ao estritamente natural, tem início já na mercadoria, essa entidade fantasmagórica que é, aliás, o ponto de partida de Marx para o desenvolvimento de sua crítica da economia política. Segundo o próprio Marx diz no volume primeiro d’O Capital:

“O caráter misterioso da forma-mercadoria consiste, portanto, simplesmente no fato de que ela reflete aos homens os caracteres sociais de seu próprio trabalho como caracteres objetivos dos próprios produtos do trabalho, como propriedades sociais que são naturais a essas coisas e, por isso, reflete também a relação social dos produtores com o trabalho total como uma relação social entre os objetos, existente à margem dos produtores.”

Sob o modo de produção capitalista as relações sociais são obnubiladas, aparecendo como uma mera relação entre coisas, e essa relação entre coisas fundamenta toda a teoria liberal clássica, de tal modo que as propriedades sociais da mercadoria passam a ser entendidas como propriedades naturais, inerentes a ela. A própria mercadoria seria, assim, um produto da natureza, da mesma forma que o dinheiro, que passa a ter um valor e expressá-lo em si mesmo.

Para os liberais, a mesma natureza que supostamente atribui propriedades à mercadoria é também aquela que, de forma espontânea, nos conduziu ao modo de produção capitalista, esta que é a forma de organização social por excelência melhor adaptada à “natureza” intrinsecamente má e egoísta do ser humano individualista.

DEUS AJUDA QUEM CEDO MADRUGA

“A felicidade a que um homem está destinado não é mais do que a que lhe provê a sua própria força.”

Wilhelm von Humboldt

“Todo o esforço da natureza é para se desfazer deles [dos incapazes e fracassados], limpando o mundo de sua presença e deixando espaço aos melhores.”

Herbert Spencer

“A posição social de cada um depende da própria ação.”

Ludwig von Mises

As citações acima são de três dos maiores expoentes do liberalismo e retratam de que forma uma linha de argumentação pretensamente científica acaba por sedimentar as bases de um pensamento e uma prática política que, desde que a burguesia se tornou uma classe social reacionária, busca justificar todas as mazelas e todo tipo de violência, dominação, escravização, racismo, machismo e, em última instância, o próprio capitalismo.

É dessa forma que a fortuna dos bravos passa a ser fruto de sua própria força e resultado de seu incansável trabalho, da mesma forma que aos pobres é atribuída a responsabilidade por sua própria miséria.

Afinal, Deus ajuda quem cedo madruga e, segundo a concepção liberal, é o trabalho árduo que torna algumas poucas pessoas muito ricas, e não a expropriação e a exploração que promoveram e seguem promovendo contra dezenas de milhões de seres humanos sobre a Terra.

Segundo os princípios liberais, a vida entre os homens é, tal como entre as outras espécies animais na natureza, comandada pela sobrevivência dos melhores e mais fortes, dos selecionados ou, no limite, dos eleitos, se os tomamos por seu viés fundamentalista cristão que, embora sempre presente, de tempos em tempos torna-se mais explícito.

Sobre isso, adiciono um comentário relacionado à nossa atual conjuntura: Não causa estranheza, portanto, que em meio a uma pandemia mundial como a que atravessamos, um governo cheio de intransigentes defensores da mão livre do mercado abandone o povo à própria sorte, negando a necessidade de quarentena e lançando mão da mais abjeta demagogia ao dizer que as pessoas, principalmente as mais pobres, precisam sair para ganhar o seu pão e que a economia não pode parar. No fim das contas, é muito provável que os liberais, em toda sua ortodoxia, estejam vendo nessa pandemia uma excelente oportunidade dada pela natureza para promover o necessário expurgo daqueles que, para eles, são os próprios incapazes e fracassados, para usar as palavras de Herbert Spencer.

COLONIALISMO, RACISMO E EUGENIA

“Imaginemos que Charles Darwin tenha dito que o processo de evolução das espécies deu-se porque as mais fortes ganharam a luta pela sobrevivência. Isso é uma mentira! Charles Darwin não põe na guerra entre as espécies nenhuma ênfase. O que Darwin escreveu é que aquelas formas vivas com maior capacidade de adaptação são as que sobrevivem. Mas vocês sabem que de uma simplificação do pensamento de Darwin surge aquela ideia segundo a qual os mais fortes é que triunfam. Nós vamos admitir até que isso fosse verdade. Não é. O pobre do Charles Darwin já foi suficientemente vilipendiado. Mas vamos admitir que seja verdade: eu não posso estender isso para a vida social, porque a legalidade da vida social (legalidade não no sentido jurídico, mas das leis que a movem) é diferente daquela da natureza.”

José Paulo Netto, aula de Introdução ao método de Marx1

Esta simplificação à qual se refere José Paulo Netto, de buscar na legalidade da natureza os fundamentos da vida social é a mesma que fundamenta colonialismo, conferindo autoridade às “raças superiores” para dominar e subjugar outros povos, bem como a que confere a base “científica” da eugenia, que buscou durante várias décadas explicar biologicamente a suposta inferioridade dos negros com relação aos brancos, sustentando teoricamente políticas neocoloniais de brutais exploração e racismo, tão necessárias para garantir um novo padrão de acumulação de capital, promovendo “melhoramento da raça” através do embranquecimento, apartheids, etc.

Evidentemente, um subterfúgio para, de novo, justificar políticas que tiveram sua máxima expressão sob o nazismo alemão, embora tenham se originado na Inglaterra e se desenvolvido nos Estados Unidos, dois importantes bastiões do liberalismo mundial. A própria expressão Erbgesundheitslehre, ou Rassenhygiene (higiene racial, em alemão original), palavra chave da ideologia nazista, não passa, em última análise, da tradução alemã de Eugenics (eugenia, em inglês original).2

Novamente: se nós seres humanos somos tão somente animais submetidos às leis inquebrantáveis da natureza que visa à eliminação dos incapazes, logo, se as raças não brancas do mundo são inferiores, torna-se legítimo subjuga-las e, na medida da necessidade, dizimá-las. E em matéria desse tipo de política, convenhamos, o nazismo é a própria política liberal levada às últimas consequências. Fica convencido disso qualquer um que se atenha a examinar a história dos indígenas, negros e latinos nos Estados Unidos e ao que lhes foi reservado da sociedade estadunidense.

Sobre isso, aliás, mais um comentário remetendo à conjuntura: os registros de contaminação e morte por corona vírus naquele país já dão conta de que a população negra e latina é a mais dramaticamente atingida. Do ponto de vista liberal, uma operação eficiente da natureza na busca pela eliminação dos “inferiores”.

LGBTFOBIA

A histórica repressão às diversas expressões de sexualidade e gênero, da mesma forma, estão fundamentadas nos princípios da natureza: tudo aquilo que escapa às tradicionais heteronormatividade e cisnormatividade é condenável por seu caráter antinatural. Afinal, o que seria da reprodução da espécie humana diante dessa afronta às leis da natureza?

Foi assim que Inglaterra e Estados Unidos se mantiveram como alguns dos mais proeminentes perseguidores de homossexuais, principalmente a partir do século XVIII, em princípio, mais fundamentados no viés natural-religioso, “evoluindo”, em seguida, para uma perseguição baseada em natureza e ciência.

O descaso com que foi encarada a epidemia de HIV a partir da década de oitenta em vários países também revela o que no fundo orientava as fortes resistências enfrentadas para o avanço nas pesquisas, tratamento e na implementação de políticas públicas. Afinal, o que mais teria sido a epidemia de HIV, o “vírus gay”, que não o esforço da natureza em expurgar aqueles que traem seus desígnios?

Até mesmo quando os liberais pretenderam, mais recentemente, mostrar o quanto eram adeptos da diversidade sexual, qual foi o principal argumento mais amplamente difundido para explicar porque homossexuais deveriam ser aceitos (tolerados)? O argumento de que os gays, lésbicas, bissexuais, etc. teriam “nascido assim” (lembremos o movimento “Born this way” – Nasci desse jeito, em tradução livre). Ou seja, até para aceitarem (tolerarem) homossexuais, precisaram convertê-los em seres naturalmente “assim”, se é que me entendem.

Durante quantas décadas insistiu-se na procura por um “gene gay”, algo que explicasse biologicamente a existência da homossexualidade? Para aceita-los (tolerá-los) primeiro precisavam convencer-se de que a homossexualidade é “natural”.

CONCLUSÕES

“Em uma das aulas [do curso de formação de futuros candidatos à prefeitura e vereança], foi exibida uma entrevista com o médico sul-africano Daniel Friedland, feita por Izabella Mattar, executiva do banco XP que até o início do ano passado era diretora do Renova [BR]. Autor de livros de sucesso, Friedland mescla ideias sobre liderança com dados da neurociência. Na conversa, gravada em vídeo, ele explicou a relação entre o cérebro dos políticos e os diferentes tipos de governo. Os líderes opressores, segundo ele, praticam a “política do medo” porque têm circuitos de segurança mais fortes no cérebro. Daí o surgimento de ditaduras. Os bons líderes, por sua vez, são generosos porque costumam operar em alta performance cerebral.”

Extrato de uma reportagem da Revista Piauí, em sua edição de fevereiro de 2020, tratando da formação política dos liberais de laboratório, realizada pelo Renova BR

Não é preciso dizer que com “ditaduras”, como se tornou comum no discurso liberal, o médico se refere aos dois “extremos” do totalitarismo, nazismo e comunismo (perspectiva segundo à qual coloca-se no mesmo saco, de um lado Hitler, e de outro Stalin, Fidel Castro, Mao e outros), contra o quê o único remédio (literalmente neste caso, já que a discussão política é levada ao nível biológico sem o menor constrangimento) seria o liberalismo, através de seus líderes que operam em alta performance cerebral, como Reagan, Thatcher, FHC, Paulo Guedes, Luciano Huck e tantos outros.

Feita essa observação, como podemos ver, no que tange às referências naturais e explicações biológicas para questões sociais, os liberais seguem firmes e fortes em seu ideário, formando seus novos representantes sustentados nos mesmos fundamentos que os orientam desde von Humboldt.

É assim que atualmente buscam consolidar o seu projeto neoliberal, edificador de uma política radical de desinvestimento dos serviços públicos, que gera uma crise de financiamento na ciência e tecnologia de alguns países, ao mesmo tempo que é um sistema não só econômico, mas também de reprodução de práticas sociais que individualizam o ser humano, a partir do “mérito”, reforçando a lógica do “vencem os mais fortes”.

Essa articulação de negacionismo científico com exaltação das “capacidades” individuais, consolida a noção de uma vida marcada pela competição feroz e pela não sociabilização das relações humanas.

Por outro lado, desde sua origem o marxismo, por seu conteúdo revolucionário, é combatido pelos defensores da ordem do capital. No campo da esquerda, durante muitas décadas o marxismo foi renegado como sendo ultrapassado e antiquado. Foi com Marx, porém, que, como disse Florestan Fernandes (na introdução que escreveu à Contribuição à crítica da economia política), foi possível avançarmos na compreensão de que:

“O problema não era a natureza, como nas ciências físicas, mas o homem diante da natureza e dos outros homens, isto é, de seres dotados de consciência e de vontade, capazes de modificar, inclusive, a natureza e de orientar a sua ação em direções socialmente determinadas.”

Com base nisso, é possível concluir que, na verdade, não há nada mais ultrapassado, antiquado e, acima de tudo, anti-humano e antissocial que a teoria liberal e suas subsidiárias, segundo as quais jamais poderemos deixar de ser meros animais sujeitos às inquebrantáveis leis da natureza, numa realidade que não se pode mudar, onde os mais fracos (que “curiosamente” coincidem com os trabalhadores, negros e negras, mulheres, indígenas, LGBTs, etc.) morrerão para que a natureza siga seu curso e para que a roda da economia não pare girar.

(*) Thaís Ribeira de Paula é formada em engenharia química, trabalha como analista de dados e é militante do PT-São Paulo (Capital).

1. https://www.youtube.com/watch?v=2WndNoqRiq8&t=8911s

2. Domenico Losurdo – Liberalismo. Entre civilização e barbárie

Comente!