Ricardo Lopes Dias

Sobre a polêmica indicação do missionário evangélico para a Coordenadoria dos Índios isolados da FUNAI e sua formação antropológica.

Por Luís Roberto de Paula (*)

Ricardo Lopes Dias atuou entre 1997 e 2007 na Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB). Segundo seu currículo na Plataforma Lattes, Dias é doutor em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC), mestre em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e bacharel em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

A trajetória do rapaz é longa tanto na formação antropológica, como na evangelização missionária. Além de ter feito doutorado na universidade na qual sou docente (UFABC) – e aviso aos amigos que eu não sabia do fato até a divulgação do fato! (em outras palavras, nunca o vi mais magro!) – , ele foi orientado por uma excelente e ética antropóloga, além da sua banca ter sido composta por excelentes e éticos antropólogos e etnólogos, em seu Mestrado na UNIFESP-Guarulhos. Um passinho mais para trás: o rapaz fez graduação em Antropologia na UFAM, local que possui professores (conheço alguns) excelentes e eticamente comprometidos com a defesa dos direitos dos povos indígenas.

Já temos um caso clássico a esse respeito: Edward Luz, antropólogo e missionário, formado em graduação e no mestrado em Antropologia Social na UNB. Seu orientador é reconhecido entre os pares como um dos mais competentes e éticos etnólogos radicado no Brasil há décadas.

Se esse mesmo debate não se restringir apenas a esses dois antropólogos-missionários-de-carteirinha, e for ampliado para todos os egressos do campo de formação antropológico (em particular, o etnológico), acredito que a vaca irá para um brejo sem fim.

Há décadas muitos e muitas colegas da nossa área trocam o bem viver da produção de artigo e participação em congressos (ou assessorias para ONGs puras e ilibadas) por consultorias e assessorias em obras faraônicas e projetos de desenvolvimento que violentam material e simbolicamente a vida dos povos indígenas ( e de outros povos) no Brasil. (PS: eu fui deles! Já tenho meu lugar no inferno, não se preocupem!).

Pois bem. Como prever e monitorar quem será o próximo candidato a Edward Luz ou Ricardo Lopes Dias? Ou como avaliar a conduta ética de antropólogos e etnólogos candidatos a serem pobres diabos defenestrados pelo maistream acadêmico porque fazem consultorias para multinacionais extrativistas ou mesmo orientaram (ou participam) de bancas desses maléficos antropólogos-missionários- roubadores-de-alma indígena?

Podíamos criar um banco de dados sobre candidatos suspeitos: algo meio macarthista e stalinista ao mesmo tempo. O camarada entra em seu gabinete e, automaticamente, acende uma luz vermelha informando: antropólogo por fora, missionário por dentro. O dito cujo seria imediatamente enviado ao inferno (para fazer jus a querer enganar os povos indígenas – e também seus orientadores potenciais – ao falar em vão em nome de Deus).

Diante da polêmica em tela quem sabe tenha chegado a hora da nossa querida Associação Brasileira de Antropologia retomar o debate sobre a criação de uma instituição profissional representativa dos antropólogos que tenha como objetivo central a criação de mecanismos rigorosos que impeçam antropólogos de exercer a profissão quando atentarem contra os preceitos éticos básicos de defesa dos povos e comunidades com os quais trabalhamos.

Enquanto isso não ocorre, voltemos ao banco de dados.

Uma aluna no ano retrasado me procurou para orientar uma iniciação científica com índios waraó da Venezuela que estavam morando em Roraima. Ela me disse que era filha de missionário evangélico. Fiz varias questões para ela meio que tentando leva-lá a uma crise subjetiva e constrangimento ético em ter pretensões em atuar com povos indígenas. A boa notícia é que ela desistiu da minha pessoa. A má notícia é que ela procurou outro/a professor/a da minha universidade – que não entendendo nada de povos indígenas e tretas com missionários e antropólogos-orientadores – aceitou orientá-la.

Não sei a quanto anda essa história. Mas a ideia do banco de dados de candidatos pode ser uma boa. Afinal, a cobra, amigos, deve ser morta no ninho.

Matheus, Capítulo 6, aos Corinthianos.

(*) Luís Roberto de Paula é professor da UFABC

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