Por André Galindo da Costa (*)   

Publicado originalmente em Diálogos do Sul 

Em meio às comemorações da esquerda na esperança de que dias melhores virão, Joe Biden tem anunciado sua equipe de transição. O que assusta é que cerca de um terço desses nomes provém do complexo industrial militar ou são figuras bastante conhecidas em guerras. Isso faz crer que o governo Biden terá uma forte tendência belicista e que os dias que virão não serão nada fáceis para o mundo e para a América Latina.

Muitas das figuras da equipe de transição de Biden vêm de think tanks militares, como o Center for Strategic and international ‎Studies (CSIS), o Center for a New American Security (CNAS) e a Rand Corporation. Outros provêm das quatro maiores fabricantes de armas do mundo: General Dynamics, Raytheon, Nortrop Grumman e Lockheed Martin.

Cabe destacar que ainda que Donald Trump se apresente como uma figura esdrúxula, tenha impulsionado uma onda neoconservadora no mundo e sirva como apoio para Jair Bolsonaro, o dirigente que deve deixar a Casa Branca no início de 2021 teve a marca de ser o primeiro Presidente dos EUA a não iniciar uma guerra declarada nos últimos 30 anos.

Desde o governo de Ronald Reagan, os EUA têm realizado ininterruptamente ataques e invasões estrangeiras. Durante os quatro anos de governo Trump essa lógica foi interrompida.

Biden nomeou um conjunto de especialistas em guerra, muitos dos quais provenientes do governo Obama, como responsáveis pela elaboração da agenda de seu governo.

Lisa Sawyer

Entre eles encontra-se Lisa Sawyer, que deve compor o Departamento de Defesa. Sawyer foi diretora de assuntos estratégicos da OTAN, membro do Conselho de Segurança Nacional e consultora de política externa da JPMorgan Chase.

No Center for a New American Security ajudou a formular os métodos de guerra econômica dos EUA para a desestabilização de países. Publicamente, ela defende o aumento de tropas na Europa e o envio de armas à Ucrânia como forma de se opor às “agressões” russas.

Diante do comitê do Senado que supervisiona as Forças Armadas dos EUA, Sawyer disse em 2017 que: “Em vez de se curvar às lanças de influência russas, forneça à Ucrânia ajuda letal que necessita e aumente o apoio dos EUA às nações vulneráveis da região”.

Linda Thomas-Greenfield

Outra figura que compõe a equipe de transição de Biden é Linda Thomas-Greenfield. Thomas-Greenfield é muito próxima da ex-conselheira de Segurança Nacional dos EUA responsável pela guerra na Líbia, Susan Rice.

Rice ainda possui no currículo a invasão ao Iraque em 2003 e a retirada das tropas da ONU que permitiram o genocídio de Ruanda em 1994.

Thomas-Greenfield foi uma das principais apoiadoras da política neocolonial de Bush, que viabilizou uma maior exploração aos países africanos, conhecida como Millennium Challenge Account.

Antes, trabalhou na empresa de lobby da indústria militar da ex-Secretaria de Estado Madeleine Albright, a Albright Stonebridge Group. Entre os clientes da Albright Stonebridge Group está a empresa de investimentos de Paul Singer, que ficou conhecido por comprar os títulos abutres argentinos e depois processar o país.

A então presidenta argentina Cristina Kirchner acusou Singer de a ter ameaçado com financiamentos aos seus opositores caso a vontade dele não fosse cumprida nas renegociações da dívida externa argentina.

Dana Stroul

Mais um nome conhecido é o de Dana Stroul, professora do neoconservador Washington Institute for Near East Policy, que possui fortes ligações com a organização sionista American Israel Public Affairs Committee (AIPAC).

Stroul tem tralhado já tem um tempo com políticos democratas, sobretudo ajudando com consultorias sobre a guerra suja na Síria. Ela chegou a recomendar que os EUA deveriam manter uma ocupação militar em um terço do país, no caso a parte mais rica em recursos. Ela também defende a imposição de novas sanções econômicas ao país e o não envolvimento dos EUA na reconstrução do país.

Farroq Mitha

Farroq Mitha, que trabalhou no Pentágono durante o governo Obama contribuindo para o fortalecimento do lobby israelense e participante das conferências da AIPAC, também se faz presente da equipe de transição de Biden.

Paula García Tufro

Agora o que parece mais assombroso é o número de membros do novo governo Biden que apoiam, há anos, a mudança de regime na Venezuela. Dentre eles, encontram-se Paula García Tufro, que foi membro do Conselho de Segurança Nacional durante o governo Obama.

Tufro apoiou as declarações de Obama de que a Venezuela representava uma ameaça inusual à segurança dos EUA e ainda atuou junto a grupos de apoio do líder golpista venezuelano Juan Guaidó sitiados em Washington D.C.

Kelly Magsamen

Kelly Magsamen foi vice-presidenta do Center for American Progress e já trabalhou no Pentágono e no Departamento de Estado. Ela afirmou que Elliott Abrams é um defensor ferrenho dos direitos humanos. Abrams foi responsável por esquadrões de morte na América Central na década de 1980, sendo o enviado especial dos EUA na Venezuela em 2019.

Roberta Jacobson

Roberta Jacobson também trabalhou na Albright Stonebridge Group e foi embaixadora dos EUA no México. Ela ajudou a conceber a designação do governo Obama que determinou a Venezuela como uma ameaça à segurança nacional dos EUA. Tanto Magsamen como Jacobson estão na equipe de transição de Biden.

E muito mais

Além das figuras acima apresentadas, existem tantas outras que compõem a equipe de transição de Joe Biden. Entre elas Derek Chollet e Ellison Laskowski, altos funcionários do German Marshall Fund e lobistas de ações militares contra a Rússia; Greg Vogle, ex-chefe da estação da CIA no Afeganistão e acusado de cometer crimes de guerra; Marty Lederman, professor de direito que redigiu a base legal para uso de drones para extermínio de pessoas sem julgamento; Barbara McQuade, procuradora responsável pela deportação do ativista antiguerra palestino-estadunidense Rasmea Odeh para ser torturado pelas forças israelenses; Neil MacBride, procurador que promoveu a Lei de Espionagem no governo Obama;

Diante do passado dos membros da equipe de transição de Joe Biden, conclui-se que, caso sejam incorporados ao governo, presenciaremos, para os próximos quatro anos, restrições de direitos civis dentro dos EUA e guerras sujas nos países estrangeiros.

(*) André Galindo da Costa é doutor em Ciências pelo Programa de Integração da América Latina PROLAM, da Universidade de São Paulo (USP).

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