Por Pedro Estevam da Rocha Pomar  (*)

Publicado originalmente no Manifesto Petista

PARTE 2

Há personagens ausentes da Conversa com o Comandante. Um deles é Rodrigo Sobral Rollemberg, que exerceu o cargo de governador do Distrito Federal no mesmo período em que Villas Bôas, nomeado pela presidenta Dilma Rousseff (PT), comandou o Exército (2015 a 2018).  Eleito pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), Rollemberg teve a chance de construir um memorial dedicado ao ex-presidente João Goulart, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Ao invés disso, em agosto de 2015 o governador socialista preferiu declarar nula a cessão, que remontava a 2004, de um terreno no Eixo Monumental de Brasília onde seria erguido o memorial dedicado a Jango, e propor outro local para a obra a quase nove quilômetros de distância (embora na mesma via).

Um dos motivos para a atitude de Rollemberg foi um parecer desfavorável do Ministério Público do Distrito Federal, que viu “inadequação” no local original do projeto. Outro motivo, que parece ter sido determinante, foi a oposição de Villas Bôas. “O governador de Brasília espana a responsabilidade com argumentos técnicos e difusos do Ministério Público, mas existem pressões militares que ele não tem coragem de revelar e que mostram a persistência da paranoia anticomunista”, escreveu, à época, o respeitado jornalista Luiz Cláudio Cunha, no site Congresso em Foco. “Dias atrás, a senadora Vanessa Graziottin (PCdoB-AM) teve a prova disso pela boca da maior autoridade militar do País: o general Eduardo Dias da Costa Villas Boas, comandante do Exército. ‘Este memorial não pode ser construído ao lado do Quartel-General. Isso é uma afronta ao Exército!’, bufou o general, ao visitar com a senadora o terreno no Eixo Monumental reservado para o memorial, num espaço entre a Praça do Cruzeiro e o Memorial JK”.

O artigo de Cunha foi reproduzido por outras mídias, entre as quais o conhecido blogue do jornalista Juca Kfouri, sem que o Exército tenha desmentido a revelação da então senadora pelo Amazonas. A frase agressiva de Villas Bôas implica uma intromissão totalmente indevida em assuntos civis, meio século após o golpe militar que derrubou Jango. Sugere, igualmente, uma carga ideológica inesperada, beirando o irracional e o ódio, seja contra Jango, que afinal de contas foi deposto sem ensaiar resistência, seja contra Niemeyer, um profissional mundialmente aclamado, a par de assumidamente comunista.

De qualquer modo, esse episódio ocorrido no início do primeiro ano de Villas Bôas à frente do Exército — mas ausente das narrativas feitas no livro — dá a medida de como o general viria a se comportar nos anos posteriores.

“O senhor sempre se manifestou publicamente durante seu comando”, disse Celso de Castro. Não há interrogação ao final da frase, mas é um questionamento, ainda que um tanto cortês. Trata-se de uma afirmação que o entrevistador espera seja comentada pelo general. A resposta de Villas Bôas é indireta. “Ao final dos governos militares, e mesmo antes, o Exército empreendeu a ‘volta aos quartéis’, assumindo a postura de ‘o grande mudo’. Consequentemente, a sociedade se desacostumou de ouvi-lo no que se relaciona à segurança da sociedade e do Estado. Claro está que, ao manifestar-se, devem ser observados os limites da democracia e jamais ingressar no campo político-partidário” (p. 183).

Curiosa resposta, que é um preâmbulo “filosófico” das revelações que Villas Bôas fará em seguida. É mais um daqueles trechos que parecem fruto de uma maquiagem a posteriori da entrevista. Porém, o responsável último é o autor do livro. Pois bem: então, a sociedade “se desacostumou” de ouvir o Exército “no que se relaciona à segurança da sociedade e do Estado”? Mas por que deveria estar “acostumada” a ouvi-lo? Afinal de contas, a “segurança da sociedade e [a] do Estado” não são da alçada do Exército. Quando muito, em questões muito específicas, podem ser objeto da atenção do Ministério da Defesa, não do Exército isoladamente.

Ah! O general ressalva, repitamos aqui: “Claro está que, ao manifestar-se, devem ser observados os limites da democracia e jamais ingressar no campo político-partidário”. Ótimo ponto de partida. Mas tal declaração é pura retórica, como vimos antes e como voltaremos a ver adiante. Isso porque os “limites da democracia” são fixados pelo próprio Exército.

“Estabeleci como meta que o Exército voltasse a ser ouvido com naturalidade. Teríamos de romper um patrulhamento que agia toda vez que um militar se pronunciava, rotulando de imediato como quebra da disciplina ou ameaça de golpe” (p. 184). Eis que a ordenação legal vigente no país, que não autoriza esse tipo de manifestação de militares da ativa, é desqualificada, reduzida a mero “patrulhamento”. O Ministério da Defesa sequer é citado, subentendendo-se que o comandante da força terrestre tomou tal decisão por conta própria: “Estabeleci como meta”…

A partir daí Villas Bôas explica como fez do CComSex um instrumento para que o “grande mudo” voltasse a “ser ouvido com naturalidade”, por meio da definição de uma agenda atualizada diariamente. “Planejamos, então, com o general [Otávio] Rêgo Barros, chefe do Centro de Comunicação Social do Exército (CComSEx), o uso das mídias sociais. O emprego desse recurso era planejado por ideias-força atinentes aos objetivos pretendidos ou às campanhas em curso”. Villas Bôas não esclareceu quais “ideias-força” norteavam o esforço midiático do CComSex, nem lhe foi perguntado. Mas depreende-se do seu relato que havia um briefing matinal durante o qual eram tomadas as decisões sobre as tarefas a serem desenvolvidas, que iam muito além das redes sociais, envolvendo todo um jogo de relações-públicas com jornalistas e seus veículos.

“Diariamente nos reuníamos pela manhã, momentos em que o Rêgo Barros repassava os destaques do dia anterior e discutíamos que atitude adotaríamos. Por exemplo, diante de uma matéria negativa, as alternativas variavam entre não responder (ignorar), encaminhar uma resposta direta ao veículo de onde partiu, convidar o jornalista para uma visita ao Quartel-General do Exército ou levá-lo a viajar conosco para conhecer in loco nossa realidade”. Quanto aos textos a serem postados nas mídias sociais, eram normalmente redigidos pelo CComSex e só liberados após autorização de Villas Bôas. Portanto, um simples tuíte precisava passar por dois generais antes de ganhar o mundo! Além disso, “vez por outra” o comandante do Exército “concedia uma entrevista ou escrevia um artigo”.

Ele conseguiu enxergar em Rêgo Barros qualidades que teriam tornado esse general “querido e prestigiado pela imprensa em geral” quando esteve à frente do CComSex, a saber “grande habilidade e carisma”, “senso de oportunidade”, “visão estratégica” (p. 184/185). Porém, este resenhista registra que tais virtudes não foram percebidas em Rêgo Barros depois que ele, ainda no serviço ativo do Exército, assumiu o cargo de porta-voz do governo Bolsonaro.

“Estimulei os generais de exército no sentido de serem proativos e ocuparem os espaços de comunicação nas áreas ou setores de atividade”, continua Villas Bôas, como se estivesse falando das rotinas de marketing dos executivos de uma grande empresa e não dos chefes da principal instituição militar do país. “Aos poucos, fomos avançando e passamos a dialogar com a mídia” (p. 184). Alcançava-se, assim, o almejado protagonismo do Exército, que como vimos deu no que deu. Compreensivelmente, o melhor exemplo de “proatividade” dos generais de exército (quatro-estrelas) durante a gestão de Villas Bôas recebe pequeno espaço no livro.

“As declarações do general [Antonio Hamilton] Mourão, cujo conteúdo tinha potencial para causar crise séria, conseguimos controlar com relativa facilidade, contando também com o apoio dos ministros da Defesa”. Quase telegráfica, a frase é dita como se o seu autor estivesse pisando em brasas. Mourão é citado por ele apenas quatro vezes, sempre de passagem (a título de comparação, Etchegoyen é citado vinte vezes por Villas Bôas). A citação mais extensa é do organizador do livro: uma nota de rodapé que descreve a participação desse oficial em dois graves incidentes políticos, separados por um intervalo de dois anos.

Vale a pena transcrever a nota, essencialmente correta, e que aqui vamos dividir em dois tópicos. “Em setembro de 2015, o general de exército Hamilton Mourão, então à frente do Comando Militar do Sul, fez críticas à classe política e ao governo durante uma palestra no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) de Porto Alegre. Ele convocou os presentes para ‘o despertar de uma luta patriótica’ e afirmou que um eventual impeachment da presidente Dilma não traria mudanças significativas no status quo, mas que representaria ‘o descarte da incompetência, má gestão e corrupção’”. Uma vez explicado o primeiro pronunciamento de Mourão, informa-se a punição recebida pelo general: “Poucas semanas depois, foi transferido para a Secretaria de Economia e Finanças do Exército, em Brasília”.

A punição arbitrada por Villas Bôas, portanto, foi simbólica: Mourão perdeu um importante comando de tropas e foi deslocado para uma função burocrática menor. Mas ao repetir a dose dois anos depois, já no governo do golpista Temer, Mourão sequer voltaria a ser punido pelo comandante do Exército. Ao contrário, cacifou-se para participar da eleição presidencial de 2018 em posição de destaque.

Eis o segundo tópico da nota de Castro: “No dia 15 de setembro de 2017, em palestra numa loja maçônica, o general Mourão falou na possibilidade de intervenção diante da crise enfrentada pelo país, caso a situação não fosse resolvida pelas próprias instituições. Em novembro de 2018, já na reserva, foi eleito vice presidente da República”. É um resumo correto, mas omite uma informação crucial: a de que Mourão, muito à vontade entre seus amigos da Maçonaria, revelou que seus “companheiros do Alto Comando do Exército” entendiam, àquela altura dos acontecimentos, que uma “intervenção militar” poderia ser adotada caso o Judiciário não solucionasse “o problema político” representado pela corrupção. O general também afirmou que o Exército teria “planejamentos muito bem feitos” sobre o assunto.

Na esteira das declarações do então secretário de Economia e Finanças do Exército, a mídia descobriu que em 11 de setembro, quatro dias antes do evento na loja maçônica, o Alto Comando havia se reunido — e tratara exatamente dos temas sobre os quais Mourão discorrera. “Estavam presentes 16 generais quatro estrelas, entre eles Fernando Azevedo e Silva, chefe do Estado-Maior e Comandante Militar do Leste, cotado para substituir Villas Bôas, prestes a encerrar seu ciclo no comando do Exército. Compareceram também os demais seis comandantes militares, entre os quais o da Amazônia, general Antonio Miotto, e o do Sul, general Edson Leal Pujol”, registrou a revista IstoÉ (22/9/2017), segundo a qual fontes presentes à 314ª reunião do Alto Comando “ponderam que não estavam ali a fim de tramar um golpe militar, mas confirmam que o que os motivou a realizar o encontro foi a preocupação com o ritmo acelerado da deterioração do quadro político brasileiro […] se houver necessidade, estarão prontos ‘para uma intervenção com o objetivo de colocar ordem na casa’. Foi munido desse espírito que Mourão desembarcou na Maçonaria”.

Naquele momento, o presidente golpista Michel Temer (PMDB) e seu governo sofriam pesadas acusações de corrupção. A incontinência verbal do antigo chefe do Comando Militar Sul ao falar a seus “irmãos” maçons terminou por revelar urbi et orbi que o Alto Comando do Exército preparava-se para a eventualidade de uma intervenção armada com finalidades políticas, supostamente para debelar a corrupção existente e afastar os corruptos, e que tal preparação implicava até mesmo “planejamentos”. Intervenção armada obviamente ilegal.

Não é difícil entender, assim, a razão pela qual Villas Bôas preferiu não tocar, no seu livro, em assunto tão espinhoso. Ele recusou-se a punir o reincidente Mourão, o que é igualmente fácil de entender. Em 19 de setembro, quatro dias após as declarações bombásticas do seu comandado, Villas Bôas compareceu à TV Globo para uma entrevista no programa do jornalista Pedro Bial, biógrafo autorizado do magnata Roberto Marinho. O comandante do Exército minimizou o discurso de Mourão: “Ele não fala pelo Alto Comando, quem fala pelo Alto Comando e pelo Exército sou eu”. Mas o elogiou: “grande soldado”, “figura fantástica”, “um gauchão”. No livro há uma única referência à entrevista concedida por Villas Bôas a Bial, e ela não toca no affair Mourão, o que é sintomático. Numa obra repleta de menções frequentes e generosas a generais gaúchos, o “gauchão” Mourão tornou-se um personagem secundário.

O episódio Mourão-Maçonaria-Alto Comando é muito pedagógico. Ele evidencia que a cúpula do Exército vinha operando de modo conspirativo, como uma espécie de “estado-maior do golpe”, sintonizada com o cenário político, pronta para intervir se julgasse necessário, à revelia da lei e do Judiciário. É uma lástima que Celso de Castro não tenha inquirido Villas Bôas a respeito, em especial em razão das confissões imediatamente posteriores do general, sobre os tuítes disparados em 2018 contra o STF (e cujo alvo final era Lula). Mas disso falaremos depois.

(Nos próximos dias, confira a terceira parte da resenha: 1- as diferenças entre Exército e Aeronáutica, que Villas Bôas esconde; 2- as nações indígenas e a “visão antropológica” do general; 3- Euclides da Cunha para iniciantes)

(*) Pedro Estevam da Rocha Pomar é Jornalista, autor dos livros Massacre na Lapa e A Democracia Intolerante, doutor em ciências da comunicação. Militante do PT-SP

PARTE 1 : https://www.pagina13.org.br/golpismo-quatro-estrelas/

 

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