Por Valter Pomar (*)

No dia 7 de setembro de 2020, o companheiro Lula fez um pronunciamento à Nação. A repercussão foi imensa, dentro e fora do Brasil. Evidentemente, a esquerda em geral, os petistas em particular, aplaudiram o conjunto da obra e cada passagem em particular. Da direita, a resposta veio rápida: em discurso feito no mesmo dia, horas depois, o cavernícola aproveitou o dia da independência para exaltar o golpe de 1964.

Desde o dia 7 até hoje, centenas de pessoas escreveram ou falaram a respeito do discurso, analisando as posições defendidas por Lula e as suas implicações na luta política. Três posições são majoritárias. Primeiro: Lula mandou bem ao falar, exatamente no dia 7 de setembro, sobre a catástrofe que ameaça o país e sobre as alternativas que defendemos.  Segundo: com este discurso e sua repercussão, Lula demonstrou que não é carta fora do baralho, como gostaria a direita e (inclusive) parte da esquerda. Terceiro: Lula fez uma crítica merecida, necessária e contundente ao governo Bolsonaro.

Estou de acordo com estas três posições. Parabéns aos que insistiram com Lula, para que ele fizesse um pronunciamento. E parabéns aos que, desde 2018, lutam para impedir que Lula seja interditado, lutam para que Lula recupere seus direitos políticos e, inclusive, possa ser candidato à presidência da República. E parabéns, também, aos que sempre defenderam a necessidade de uma oposição implacável e global ao governo Bolsonaro, à sua política econômica, ao seu caráter ditatorial, ao seu entreguismo, bem como as elites que o apoiam.

Para além destas três posições majoritárias, há controvérsias. Há, por exemplo, aqueles que gostariam que Lula tivesse feito um tratado sobre Deus e sua obra, abordando todas os dilemas estratégicos, táticos e organizativos da esquerda brasileira e mundial. Quem pensa isso não consegue perceber, entre outras coisas, as mediações que precisam existir, entre o discurso de uma liderança de massa e a resolução de um congresso partidário. Há, por outro lado, os que acham que o discurso foi perfeito, nada sobrando e nada faltando. E entre estes dois extremos, há de tudo um pouco.

Meu ponto de vista neste debate é o seguinte: o discurso é de Lula. Ele fala o que quer. E quem escuta, aplaude o que acha bom, reclama do que sentiu falta e critica o que considera falho.

Anteriormente, já falei do que achei bom: ter feito o discurso, ter reafirmado que Lula não é carta fora do baralho e ter demolido o cavernícola. Um detalhamento a este respeito está aqui: https://youtu.be/qnIt_Fl8Vx8

Do que senti falta? Fundamentalmente, de cinco termos: luta social, 2020, LGBTQ+, Estado laico, constituinte e socialismo. As cinco primeiras constam das resoluções do programa debatido, recentemente, pelo Diretório Nacional do PT. Sobre a Constituinte, há um debate complexo, entre o reconhecimento da necessidade, vis a vis a dificuldade de combinar a defesa do que restou da atual, com a luta por uma nova. Já sobre o socialismo, é para mim quase um mistério de Fátima que Lula fale no seu discurso do capitalismo moribundo, defenda uma sociedade sem opressão nem exploração, mas não diga a palavra proibida. Talvez o Index esteja de volta, nesses tempos de peste e terraplanismo.

O que considero falho? Essencialmente, um detalhe e uma abordagem.

O detalhe é a referência feita ao “andar de cima”. Entendi o que se quis dizer, e concordo com o se quis dizer, mas o que está escrito afirma que Lula “saiu do porão social e chegou ao andar de cima sem pedir permissão a ninguém, só ao povo”. Isto simplesmente não é verdade. Não é verdade e é ótimo que não seja. Pois o “andar de cima” da nossa sociedade não é a presidência, o andar de cima é onde habitam os donos do dinheiro, os chamados poderes fáticos. Nesse lugar, nem Lula, nem nenhum de nós nunca esteve. Ainda bem.

Mas o que realmente considero falha foi a abordagem dada a alguns temas estratégicos e programáticos. Como disse antes, o discurso é de Lula; e um discurso não é uma resolução partidária; portanto, o que será dito a seguir não são “emendas” ao discurso, mas questões que o discurso colocou sobre a mesa, implícita ou explicitamente, que revelam lacunas ou opções programáticas e estratégicas com as quais não estou de acordo.

Minha primeira observação diz respeito à “crise econômica”. A presente crise não é um problema de manejo da política econômica, nem apenas produto do impacto da crise internacional. Está em curso uma reestruturação profunda do capitalismo brasileiro. Go back 1920. Neste sentido, não basta – para a esquerda — falar de “reconstrução”, é preciso falar de “transformação”; aliás, é necessário pensar em termos de revolução. Curiosamente, o programa debatido pelo Diretório Nacional do PT fala de “reconstrução e transformação”; mas bastou Lula fazer seu discurso e citar apenas a palavra reconstrução, para que a palavra “transformação” sumisse de alguns textos de divulgação publicados pelo site do Partido.

Para além das palavras e das opções estratégicas, existe uma lacuna de diagnóstico sobre o que de fato está ocorrendo. Isto se vincula ao tema do socialismo. Lula diz que decidiu se “concentrar, ao lado de vocês, na reconstrução do Brasil”.Como reconstrução é construir novamente, uma pergunta: alguma vez fomos uma “Nação independente, com instituições democráticas, sem privilégios oligárquicos e autoritários”? Um “verdadeiro Estado Democrático e de Direito, com fundamento na soberania popular”? Uma “Nação voltada para a igualdade e o pluralismo”? Uma “Nação comprometida com a libertação do nosso povo, dos trabalhadores e dos excluídos”?

Óbvio que não. Portanto, embora se fale de “reconstrução”, o que se está apontando é para a construção de outro tipo de Nação, de economia, de sociedade, de política. Ou seja, para uma transformação.

Outra pergunta: é possível, no capitalismo, construir uma Nação “comprometida com a libertação” do povo, dos trabalhadores, dos excluídos? Ou ainda: é possível, no capitalismo, termos “um país em que a riqueza produzida por todos seja distribuída para todos – mas em primeiro lugar para os explorados, os oprimidos, os excluídos”?

Óbvio que não. Portanto, embora não se fale o nome, o que se aponta é para uma sociedade socialista. Mas, se é assim, por qual motivo não se fala do nome??? Pois vejam: se “até os profetas de Wall Street e da City de Londres já decretaram que o capitalismo, tal como o mundo o conhece, está com os dias contados”, o que vamos fazer? Esperar que apareça outro tipo de capitalismo, que o mundo ainda não conhece? Ou vamos lutar pelo socialismo?

Desta discussão deriva outra: como lidar com o setor financeiro e, de maneira geral, com os mega ricos. Lula os denuncia, corretamente e com muita força. Mas a única proposta apresentada para lidar com a situação é fazer uma reforma tributária radical. O debate travado no Diretório Nacional do PT recusou a proposta de estatização do oligopólio financeiro. E nem o Diretório, nem o discurso de Lula, nem o autor destas linhas, tomou posição sobre o seguinte: caso o governo Bolsonaro faça as privatizações que está prometendo, qual será nossa postura? Como em 2002, vamos dizer que contratos não serão revistos? Ou vamos dizer que as ações de um governo miliciano e golpista – inclusive as privatizações — serão todas revistas?

A segunda observação diz respeito aos militares. Lula fala, corretamente, que os acontecimentos fazem lembrar os tempos sombrios da ditadura. Perfeito. Mas como vamos lidar com este fato, tanto no plano das forças armadas e de suas auxiliares, as Polícias Militares?

Opiniões a esse respeito podem ser encontradas nos link abaixo:

https://www.pagina13.org.br/entrevista-com-valter-pomar-as-forcas-armadas-no-plano-do-pt/

https://www.pagina13.org.br/desmilitarizacao-ma-non-troppo/

Os acontecimentos na Argentina (e, antes, os do Equador e da Bolívia) demonstram a relevância estratégica do debate sobre as polícias. E a “submissão do Brasil aos interesses militares de Washington”, denunciada com ênfase pelo discurso de Lula, nos leva a concluir que, como nos tempos da Guerra Fria, tudo será feito para interditar a esquerda.

Lula afirma, no seu discurso, que refletiu sobre os erros cometidos por ele e por nós, nesses anos todos. Pois bem: um desses erros foi não ter enfrentado o complexo de instituições serial killer da democracia (as forças armadas, o sistema judiciário, o oligopólio da comunicação); ou fazemos isso, ou vamos ficar “brincando” de fazer o 8.

Esta discussão se vincula à crença de que, nas palavras de Lula, “ao tirar 40 milhões de brasileiros da miséria, nós fizemos uma revolução neste país. Uma revolução pacífica, sem tiros nem prisões”.

Cada um usa as palavras como quer. Embora, ao menos para mim, seja outro mistério de Fátima que não se fale de socialismo, mas se fale de revolução.

Acontece que uma revolução que não toca no poder, vai ser inevitavelmente derrotada por uma contrarrevolução preventiva, contrarrevolução que não será pacífica, prenderá e matará pessoas.

Por isso, prefiro dizer que não fizemos uma “revolução”, iniciamos uma reforma social; mas num país como o Brasil, para viabilizar uma reforma social, é preciso fazer uma revolução política. Ou fazemos isto, ou “os que se julgam donos do Brasil, aqui dentro e lá fora”, mais cedo ou mais tarde vão “dar um basta”.

O que nos puxa para o miolo do discurso de Lula: a ideia de um novo “contrato social”. Diz Lula: “Para reconstruirmos o Brasil pós pandemia, precisamos de um novo contrato social entre todos os brasileiros. Um contrato social que garanta a todos o direito de viver em paz e harmonia. Em que todos tenhamos as mesmas possiblidades de crescer, onde nossa economia esteja a serviço de todos e não de uma pequena minoria”.

Antes “contrato” do que pacto; e com certeza vale a pena ler Rousseau e toda a literatura decorrente. Mas a questão estrategicamente relevante está no seguinte trecho: “O alicerce desse contrato social tem que ser o símbolo e a base do regime democrático: o voto. É através do exercício do voto, livre de manipulações e fake news, que devem ser formados os governos e ser feitas as grandes escolhas e as opções fundamentais da sociedade. Através dessa reconstrução, lastreada no voto, teremos um Brasil democrático, soberano, respeitador dos direitos humanos e das diferenças de opinião, protetor do meio ambiente e das minorias e defensor de sua própria soberania”.

Beleza. Mas e se o lado de lá, miliciano, militarista, ditatorial, entreguista, explorador, não aceitar o voto como “alicerce desse contrato social”? O que faremos?? Aliás, uma pergunta anterior: como faremos para enfrentar o fato de que, desde o golpe de 2016, as oligarquias já demonstraram que não aceitam o voto como “alicerce”? E como lidaremos com o fato de que, nos governos Temer e Bolsonaro, eles vêm sistematicamente destruindo as pré-condições que tornam possível, para a classe trabalhadora, chegar ao governo através do voto?

Até o dia 7 de setembro, quando fazíamos perguntas parecidas com essas, algumas pessoas diziam, com esperança meio rosa: olhem para a Argentina. Hoje, dia 11 de setembro, nós dizemos o mesmo: olhem para a Argentina! Lá como cá, não basta o voto, nem para sustentar as liberdades democráticas, nem para viabilizar um “contrato social” tão ambicioso quanto este proposto por Lula.

No Brasil, nunca houve um Estado de bem-estar social, porque nunca houve uma revolução política. Enquanto a classe dominante for esta aí, não haverá contrato social, muito menos alicerçado no voto. Em especial se este contrato social estabeleça que “a riqueza produzida pelo trabalho coletivo seja devolvida à população segundo as necessidades de cada um”.

Um último comentário: com o perdão da ênfase, achei do caralho citar Victor Hugo. Não tenho certeza, mas deve ser de O homem que ri, que por sua vez nos remete ao Coringa, filme também maravilhoso. Enfim, seja como for, genial, absolutamente genial a citação: “É do inferno dos pobres que é feito o paraíso dos ricos…”. Mas confesso que a frase me leva a pensar no oposto: é do inferno dos ricos que será feito o paraíso dos pobres.

Enfim, estamos com Lula em recusar os chamados pactos “pelo alto”, com as elites. E, como ele, também acreditamos que viveremos e venceremos. Mas para que isso se converta em realidade, será preciso muita mobilização e luta por parte da classe trabalhadora, será necessário um novo programa — de orientação democrático-popular e socialista — e uma nova estratégia, que não deposite todas as suas fichas no eleitoral; uma frente democrática, popular e de esquerda. E será necessária uma outra conduta, por parte de nosso Partido dos Trabalhadores.

Lula subiu o sarrafo (no sentido esportivo da palavra). Cabe ao PT baixar o sarrafo (no sentido popular da palavra). Ou isso, ou continuaremos enfrentando Al Capone ao som de Woodstock.

(*) Valter Pomar é professor da UFABC  e membro do diretório nacional do PT

 

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SEGUE A INTEGRA DO DISCURSO

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“Minhas amigas e meus amigos.

Nos últimos meses uma tristeza infinita vem apertando meu coração. O Brasil está vivendo um dos piores períodos de sua história.

Com 130 mil mortos e quatro milhões de pessoas contaminadas, estamos despencando em uma crise sanitária, social, econômica e ambiental nunca vista.

Mais de duzentos milhões de brasileiras e brasileiros acordam, todos os dias, sem saber se seus parentes, amigos ou eles próprios estarão saudáveis e vivos à noite.

A esmagadora maioria dos mortos pelo Coronavírus é de pobres, pretos, pessoas vulneráveis que o Estado abandonou.

Na maior e mais rica cidade do país, as mortes pelo Covid-19 são 60% mais altas entre pretos e pardos da periferia, segundo os dados das autoridades sanitárias.

Cada um desses mortos que o governo federal trata com desdém tinha nome, sobrenome, endereço. Tinha pai, mãe, irmão, filho, marido, esposa, amigos. Dói saber que dezenas de milhares de brasileiras e brasileiros não puderam se despedir de seus entes queridos. Eu sei o que é essa dor.

Teria sido possível, sim, evitar tantas mortes.

Estamos entregues a um governo que não dá valor à vida e banaliza a morte. Um governo insensível, irresponsável e incompetente, que desrespeitou as normas da Organização Mundial de Saúde e converteu o Coronavírus em uma arma de destruição em massa.

Os governos que emergiram do golpe congelaram recursos e sucatearam o Sistema Único de Saúde, o SUS, respeitado mundialmente como modelo para outras nações em desenvolvimento. E o colapso só não foi ainda maior graças aos heróis anônimos, as trabalhadoras e trabalhadores do sistema de saúde.

Os recursos que poderiam estar sendo usados para salvar vidas foram destinados a pagar juros ao sistema financeiro.

O Conselho Monetário Nacional acaba de anunciar que vai sacar mais de 300 bilhões de reais dos lucros das reservas que nossos governos deixaram.

Seria compreensível se essa fortuna fosse destinada a socorrer o trabalhador desempregado ou a manter o auxílio emergencial de 600 reais enquanto durar a pandemia.

Mas isso não passa pela cabeça dos economistas do governo. Eles já anunciaram que esse dinheiro vai ser usado para pagar os juros da dívida pública!

Nas mãos dessa gente, a Saúde pública é maltratada em todos os seus aspectos.

A substituição da direção do Ministério da Saúde por militares sem experiência médica ou sanitária é apenas a ponta de um iceberg. Em uma escalada autoritária, o governo transferiu centenas de militares da ativa e da reserva para a administração federal, inclusive em muitos postos-chave, fazendo lembrar os tempos sombrios da ditadura.

O mais grave de tudo isso é que Bolsonaro aproveita o sofrimento coletivo para, sorrateiramente, cometer um crime de lesa-pátria.

Um crime politicamente imprescritível, o maior crime que um governante pode cometer contra seu país e seu povo: abrir mão da soberania nacional.

Não foi por acaso que escolhi para falar com vocês neste 7 de Setembro, dia da Independência do Brasil, quando celebramos o nascimento do nosso país como nação soberana.

Soberania significa independência, autonomia, liberdade. O contrário disso é dependência, servidão, submissão.

Ao longo de minha vida sempre lutei pela liberdade.

Liberdade de imprensa, liberdade de opinião, liberdade de manifestação e de organização, liberdade sindical, liberdade de iniciativa.

É importante lembrar que não haverá liberdade se o próprio país não for livre.

Renunciar à soberania é subordinar o bem-estar e a segurança do nosso povo aos interesses de outros países.

A garantia da soberania nacional não se resume à importantíssima missão de resguardar nossas fronteiras terrestres e marítimas e nosso espaço aéreo. Supõe também defender nosso povo, nossas riquezas minerais, cuidar das nossas florestas, nossos rios, nossa água.

Na Amazônia devemos estar presentes com cientistas, antropólogos e pesquisadores dedicados a estudar a fauna e a flora e a empregar esse conhecimento na farmacologia, na nutrição e em todos os campos da ciência – respeitando a cultura e a organização social dos povos indígenas.

O governo atual subordina o Brasil aos Estados Unidos de maneira humilhante, e submete nossos soldados e nossos diplomatas a situações vexatórias. E ainda ameaça envolver o país em aventuras militares contra nossos vizinhos, contrariando a própria Constituição, para atender os interesses econômicos e estratégico-militares norte-americanos.

A submissão do Brasil aos interesses militares de Washington foi escancarada pelo próprio presidente ao nomear um oficial general das Forças Armadas Brasileiras para servir no Comando Militar Sul dos Estados Unidos, sob as ordens de um oficial americano.

Em outro atentado à soberania nacional, o atual governo assinou com os Estados Unidos um acordo que coloca a Base Aeroespacial de Alcântara sob o controle de funcionários norte-americanos e que priva o Brasil de acesso à tecnologia, mesmo de terceiros países.

Quem quiser saber os verdadeiros objetivos do governo não precisa consultar manuais secretos da Abin ou do serviço de inteligência do Exército.

A resposta está todos os dias no Diário Oficial, em cada ato, em cada decisão, em cada iniciativa do presidente e de seus assessores, banqueiros e especuladores que ele chamou para dirigir nossa economia.

Instituições centenárias, como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES, que se confundem com a história do desenvolvimento do país, estão sendo esquartejadas e fatiadas – ou simplesmente vendidas a preço vil.

Bancos públicos não foram criados para enriquecer famílias. Eles são instrumentos do progresso. Financiam a casa do pobre, a agricultura familiar, as obras de saneamento, a infraestrutura essencial ao desenvolvimento.

Se olharmos para o setor energético, veremos uma política de terra arrasada igualmente predadora.

Depois de colocar à venda por valores ridículos as reservas do Pré-Sal, o governo desmantela a Petrobrás. Venderam a distribuidora e os gasodutos foram alienados. As refinarias estão sendo esquartejadas. Quando só restarem os cacos, chegarão as grandes multinacionais para arrematar o que tiver sobrado de uma empresa estratégica para a soberania do Brasil.

Meia dúzia de multinacionais ameaçam a renda de centenas de bilhões de reais do petróleo do Pré-Sal – recursos que constituiriam um fundo soberano para financiar uma revolução educacional e científica.

A Embraer, um dos maiores trunfos do nosso desenvolvimento tecnológico, só escapou da sanha entreguista em função das dificuldades da empresa que iria adquiri-la, a Boeing, profundamente ligada ao complexo industrial militar dos Estados Unidos.

O desmanche não termina aí.

O furor privatista do governo pretende vender, na bacia das almas, a maior empresa de geração de energia da América Latina, a Eletrobrás, uma gigante com 164 usinas – duas delas termonucleares – responsável por quase 40% da energia consumida no Brasil.

A demolição das universidades, da educação e o desmonte das instituições de apoio à ciência e à tecnologia, promovidos pelo governo, são ameaça real e concreta à nossa soberania.

Um país que não produz conhecimento, que persegue seus professores e pesquisadores, que corta bolsas de pesquisas e nega o ensino superior à maioria de sua população está condenado à pobreza e à eterna submissão.

A obsessão destrutiva desse governo deixou a cultura nacional entregue a uma sucessão de aventureiros. Artistas e intelectuais clamam pela salvação da Casa de Ruy Barbosa, da Funarte, da Ancine. A Cinemateca Brasileira, onde está depositado um século da memória do cinema nacional, corre o sério risco de ter o mesmo destino trágico do Museu Nacional

Minhas amigas e meus amigos.

No isolamento da quarentena tenho refletido muito sobre o Brasil e sobre mim mesmo, sobre meus erros e acertos e sobre o papel que ainda pode me caber na luta do nosso povo por melhores condições de vida.

Decidi me concentrar, ao lado de vocês, na reconstrução do Brasil como Nação independente, com instituições democráticas, sem privilégios oligárquicos e autoritários. Um verdadeiro Estado Democrático e de Direito, com fundamento na soberania popular. Uma Nação voltada para a igualdade e o pluralismo. Uma Nação inserida numa nova ordem internacional baseada no multilateralismo, na cooperação e na democracia, integrada na América do Sul e solidária com outras nações em desenvolvimento.

O Brasil que quero reconstruir com vocês é uma Nação comprometida com a libertação do nosso povo, dos trabalhadores e dos excluídos.

Dentro de um mês vou fazer 75 anos.

Olhando para trás, só posso agradecer a Deus, que foi muito generoso comigo. Tenho que agradecer à minha mãe, dona Lindu, por ter feito de um pau-de-arara sem diploma um trabalhador orgulhoso, que um dia viraria presidente da República. Por ter feito de mim um homem sem rancor, sem ódios.

Eu sou o menino que desmentiu a lógica, que saiu do porão social e chegou ao andar de cima sem pedir permissão a ninguém, só ao povo.

Não entrei pela porta dos fundos, entrei pela rampa principal. E isso os poderosos jamais perdoaram.

Reservaram para mim o papel de figurante, mas virei protagonista pelas mãos dos trabalhadores brasileiros.

Assumi o governo disposto a mostrar que o povo cabia, sim, no orçamento. Mais do que isso, provei que o povo é um extraordinário patrimônio, uma enorme riqueza. Com o povo o Brasil progride, se enriquece, se fortalece, se torna um país soberano e justo.

Um país em que a riqueza produzida por todos seja distribuída para todos – mas em primeiro lugar para os explorados, os oprimidos, os excluídos.

Todos os avanços que fizemos sofreram encarniçada oposição das forças conservadoras, aliadas a interesses de outras potências.

Eles nunca se conformaram em ver o Brasil como um país independente e solidário com seus vizinhos latino-americanos e caribenhos, com os países africanos, com as nações em desenvolvimento.

É aí, nessas conquistas dos trabalhadores, nesse progresso dos pobres, no fim da subserviência, é aí que está a raiz do golpe de 2016.

Aí está a raiz dos processos armados contra mim, da minha prisão ilegal e da proibição da minha candidatura em 2018. Processos que – agora todo mundo sabe – contaram com a criminosa colaboração secreta de organismos de inteligência norte-americanos.

Ao tirar 40 milhões de brasileiros da miséria, nós fizemos uma revolução neste país. Uma revolução pacífica, sem tiros nem prisões.

Ao ver que esse processo de ascensão social dos pobres iria continuar, que a afirmação de nossa soberania não iria ter volta, os que se julgam donos do Brasil, aqui dentro e lá fora, resolveram dar um basta.

Nasce aí o apoio dado pelas elites conservadoras a Bolsonaro.

Aceitaram como natural sua fuga dos debates. Derramaram rios de dinheiro na indústria das fake news. Fecharam os olhos para seu passado aterrador. Fingiram ignorar seu discurso em defesa da tortura e a apologia pública que ele fez do estupro.

As eleições de 2018 jogaram o Brasil em um pesadelo que parece não ter fim.

Com ascensão de Bolsonaro, milicianos, atravessadores de negócios e matadores de aluguel saíram das páginas policiais e apareceram nas colunas políticas.

Como nos filmes de terror, as oligarquias brasileiras pariram um monstrengo que agora não conseguem controlar, mas que continuarão a sustentar enquanto seus interesses estiverem sendo atendidos.

Um dado escandaloso ilustra essa conivência: nos quatro primeiros meses da pandemia, quarenta bilionários brasileiros aumentaram suas fortunas em 170 bilhões de reais.

Enquanto isso, a massa salarial dos empregados caiu 15% em um ano, o maior tombo já registrado pelo IBGE. Para impedir que os trabalhadores possam se defender dessa pilhagem, o governo asfixia os sindicatos, enfraquece as centrais sindicais e ameaça fechar as portas da Justiça do Trabalho. Querem quebrar a coluna vertebral do movimento sindical, o que nem a ditadura conseguiu.

Violentaram a Constituição de 1988. Repudiaram as práticas democráticas. Implantaram um autoritarismo obscurantista, que destruiu as conquistas sociais alcançadas em décadas de lutas. Abandonaram uma política externa altiva e ativa, em favor de uma submissão vergonhosa e humilhante.

Este é o verdadeiro e ameaçador retrato do Brasil de hoje.

Tamanha calamidade terá que ser enfrentada com um novo contrato social que defenda os direitos e a renda do povo trabalhador.

Minhas queridas e meus queridos.

Minha longa vida, aí incluídos os quase dois anos que passei em uma prisão injusta e ilegal, me ensinou muito.

Mas tudo o que fui, tudo o que aprendi cabe num grão de milho se essa experiência não for colocada a serviço dos trabalhadores.

É inaceitável que 10% da população vivam à custa da miséria de 90% do povo.

Jamais haverá crescimento e paz social em nosso país enquanto a riqueza produzida por todos for parar nas contas bancárias de meia dúzia de privilegiados.

Jamais haverá crescimento e paz social se as políticas públicas e as instituições não tratarem com equidade a todos brasileiros.

É inaceitável que os trabalhadores brasileiros  continuem sofrendo os impactos perversos da desigualdade social. Não podemos admitir que nossa juventude negra tenha suas vidas marcadas por uma  violência que beira genocídio.

Desde que vi, naquele terrível vídeo, os 8 minutos e 43 segundos de agonia de George Floyd, não paro de me perguntar: quantos George Floyd nós tivemos no Brasil? Quantos brasileiros perderam a vida por não serem brancos? Vidas negras importam, sim. Mas isso vale para o mundo, para os Estados Unidos e vale para o Brasil.

É intolerável que nações indígenas tenham suas terras invadidas e saqueadas e suas culturas destruídas. O Brasil que queremos é o do marechal Rondon e dos irmãos Villas-Boas, não o dos grileiros e dos devastadores de florestas.

Temos um governo que quer matar as mais belas virtudes do nosso povo, como a generosidade, o amor à paz e a tolerância.

O povo não quer comprar revólveres nem cartuchos de carabina. O povo quer comprar comida.

Temos que combater com firmeza a violência impune contra as mulheres. Não podemos aceitar que um ser humano seja estigmatizado por seu gênero. Repudiamos o escárnio público com os quilombolas. Condenamos o preconceito que trata como seres inferiores pobres que vivem nas periferias das grandes cidades.

Até quando conviveremos com tanta discriminação, tanta intolerância, tanto ódio?

Meus amigos e minhas amigas,

Para reconstruirmos o Brasil pós pandemia, precisamos de um novo contrato social entre todos os brasileiros.

Um contrato social que garanta a todos o direito de viver em paz e harmonia. Em que todos tenhamos as mesmas possiblidades de crescer, onde nossa economia esteja a serviço de todos e não de uma pequena minoria. E no qual sejam respeitados nossos tesouros naturais, como o Cerrado, o Pantanal, a Amazônia Azul e a Mata Atlântica.

O alicerce desse contrato social tem que ser o símbolo e a base do regime democrático: o voto. É através do exercício do voto, livre de manipulações e fake news, que devem ser formados os governos e ser feitas as grandes escolhas e as opções fundamentais da sociedade.

Através dessa reconstrução, lastreada no voto, teremos um Brasil um democrático, soberano, respeitador dos direitos humanos e das diferenças de opinião, protetor do meio ambiente e das minorias e defensor de sua própria soberania.

Um Brasil de todos e para todos.

Se estivermos unidos em torno disso poderemos superar esse momento dramático.

O essencial hoje é vencer a pandemia, defender a vida e a saúde do povo. É pôr fim a esse desgoverno e acabar com o teto de gastos que deixa o Estado brasileiro de joelhos diante do capital financeiro nacional e internacional.

Nessa empreitada árdua, mas essencial, eu me coloco à disposição do povo brasileiro, especialmente dos trabalhadores e dos excluídos.

Minhas amigas e meus amigos.

Queremos um Brasil em que haja trabalho para todos.

Estamos falando de construir um Estado de bem-estar social que promova a igualdade de direitos, em que a riqueza produzida pelo trabalho coletivo seja devolvida à população segundo as necessidades de cada um.

Um Estado justo, igualitário e independente, que dê oportunidades para os trabalhadores, os mais pobres e os excluídos.

Esse Brasil dos nossos sonhos pode estar mais próximo do que aparenta.

Até os profetas de Wall Street e da City de Londres já decretaram que o capitalismo, tal como o mundo o conhece, está com os dias contados. Levaram séculos para descobrir uma verdade inquestionável que os pobres conhecem desde que nasceram: o que sustenta o capitalismo não é o capital. Somos nós, os trabalhadores.

É nessas horas que me vem à cabeça esta frase que li num livro de Victor Hugo, escrito há um século e meio, e que todo trabalhador deveria levar no bolso, escrita em um pedacinho de papel, para jamais esquecer:

“É do inferno dos pobres que é feito o paraíso dos ricos…”

Nenhuma solução, porém, terá sentido sem o povo trabalhador como protagonista. Assim como a maioria dos brasileiros, não acredito e não aceito os chamados pactos “pelo alto”, com as elites. Quem vive do próprio trabalho não quer pagar a conta dos acertos políticos feitos no andar de cima.

Por isso quero reafirmar algumas certezas pessoais:

Não apoio, não aceito e não subscrevo qualquer solução que não tenha a participação efetiva dos trabalhadores.

Não contem comigo para qualquer acordo em que o povo seja mero coadjuvante.

Mais do que nunca, estou convencido de que a luta pela igualdade social passa, sim, por um processo que obrigue os ricos a pagar impostos proporcionais às suas rendas e suas fortunas.

E esse Brasil, minhas amigas e meus amigos, está ao alcance das nossas mãos.

Posso afirmar isso olhando nos olhos de cada um e de cada uma de vocês. Nós provamos ao mundo que o sonho de um país justo e soberano pode sim, se tornar realidade.

Eu sei – vocês sabem – que podemos, de novo, fazer do Brasil o país dos nossos sonhos.

E dizer, do fundo do meu coração: estou aqui. Vamos juntos reconstruir o Brasil.

Ainda temos um longo caminho a percorrer juntos.

Fiquem firmes, porque juntos nós somos fortes.

Viveremos e venceremos.”

Luiz Inácio Lula da Silva

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